Por Aluísio Azevedo (1897)
O cortiço estava todo em movimento. Havia nele o alegre rumor do trabalho. Um grupo de mulheres, de vestido arregaçado e braços nus, lavava, conversando e rindo em volta de um tanque cheio. Um português, com jaqueta atirada sobre os ombros, tagarelava com uma negra, que entrara para vender hortaliças; duas crianças más, assentadas na grama raspada de um quase extinto canteiro, entretinhamse a enraivecer um cão. Um mascate, com uns restos de cachimbo ao canto da boca fumava ao lado de um tabuleiro de quinquilharias de vidro, e conversava em meia língua com uma velha ocupada a depenar um frango.
Gustavo observava tudo isto, e era igualmente observado. Seu tipo destacavase ali, no meio daquela pobre gente, que o olhava com desconfiança.
Mas, afinal, a negrinha reapareceu, chamou por ele, e o rapaz entrou no quarto da lavadeira.
Era um cubículo estreito e oprimido pelo teto. Gustavo deu alguns passos e parou, afrontado pela escuridão e pela insalubridade do ar que respirava ali. A sua retina, que acabava de receber a luz de fora, ainda se não havia dilatado; só depois de alguns segundos foi que principiou ele a distinguir vagamente alguns vultos confusos.
— Venha para cá... disse uma voz fraca e arrastada.
O rapaz tomou a direção da voz, quase às apalpadelas.
A negrinha nessa ocasião voltava com uma cadeira, que fora pedir à vizinha, e Gustavo assentouse ao lado da cama em que estava a enferma.
Pôde então com dificuldade reconhecer que a pobre mulher era justamente quem ele supunha.
Mas, que mudança!... pensava. Que transformação...
E declarou que D. Joana lhe pedira fosse ali escrever uma carta.
A senhora está doente?... perguntou ele depois.
Ao ouvir a última frase, a enferma pôsse a gemer, como se só então se lembrasse dessa formalidade da moléstia.
E começou a queixarse do que tinha, como se falasse ao médico.
— Estou muito mal, disse; o senhor não faz uma idéia! são pontadas no estômago, dores nas juntas, tonturas, cólicas, e a boca amarga, que é uma desgraça!
E como Gustavo fizesse um movimento de interesse:
Mas o que mais me consome é esta perna! acrescentou ela, esfregando a mão pela perna esquerda. — Olhe!
E, gemendo, cingiu o lençol à coxa para dar idéia da inchação.
— Porém aqui há de ser um pouco difícil escrever... arriscou Gustavo, a olhar em torno de si.
— Abrese aquele postigo...
E gritou:
— Ó Bento!
— Eu abro! lembrou Gustavo.
E, depois de treparse na cadeira, abriu uma janelita de dois palmos, que ficava sobre a cabeceira da cama.
Entrou logo por aí um grande jato de luz, cortando o espesso ambiente com uma lâmina cor de aço.
Foi então que Gustavo viu distintamente a miséria repulsiva que o cercava.
A lavadeira, deitada sobre uma velha cama de ferro, tinha um aspecto hediondo. A doença comeralhe a gordura, e caíamlhe agora tristemente do pescoço, dos ombros e dos braços, as peles vazias e engelhadas. Seus olhos desapareciam engolidas pelas pálpebras empapadas, sua boca era uma fístula, a febre levaralhe os cabelos, e o crânio, mórbido pelo molho de luz que vinha do postigo, desenhavase, como o da velhinha Benedita, através do transparente rede das farripas secas e grisalhas.
— Já tenho ali a tinta e o papel, disse ela, sem atentar para a preocupação de Gustavo.
Este olhava em torno de si, oprimido pelo aspecto cru e nojento de tudo aquilo. Nas paredes, entre manchas de umidade, havia várias litografias de santos, nelas pregadas sem moldura; no chão, sapatos velhos, cestos de roupa suja e uma gaiola quebrada; a um canto, uma bacia de folha transbordava água sebosa. E uma galinha, cercada de pintos, cacarejava pelo quarto, a mariscar nuns pratos engordurados, que teriam servido naturalmente à última refeição.
— Quando quiser, estou às ordens... observou Gustavo, impaciente por livrarse daquele espetáculo.
— Fecheme primeiro a porta, pediu a velha; não quero que ouçam a nossa conversa. Esta gente de cá é muito amiga da vida alheia... Bem! agora puxe aquela mesinha para junto de mim! assim... Pode assentar. E antes de escrever, escute... escute com toda a atenção...
Gustavo percebeu que hálito da lavadeira transpirava aguardente.
XLI
ESTELA
Um tanto vergado na cadeira, o antebraço direito firmado sobre a perna, o olhar fito, tinha Gustavo a expressão concentrada de quem ouve com muito interesse.
A lavadeira disselhe francamente toda a sua vida; relatou como fora recolhida à casa do seu protetor, a morte deste e o imediato casamento dela com Moscoso; depois falou a respeito das questões de seu marido com o pai do Médico Misterioso, do aparecimento de Gabriel, do casamento de sua filha Ambrosina com Leonardo, da loucura do noivo, da morte do comendador, da intervenção de Gabriel, que se amasiou com Ambrosina, e, finalmente, das complicações que surgiram como conseqüência de tais desordens, dando em resultado a fugida de Ambrobina com Laura para a Europa, cujo verdadeiro alcance à pobre mulher estava bem longe de calcular.
— Mas, depois da união de sua filha com o Gabriel, como viveu a senhora?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.