Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Aqui foi sepultado o monsenhor José de Sousa Azevedo Pizarro e Araújo. Era natural da cidade do Rio de Janeiro, onde nasceu a 12 de outubro de 1753. Fez os seus primeiros estudos nesta mesma cidade e foi concluí-los em Portugal, onde se formou em cânones na universidade de Coimbra. De volta à sua pátria, mereceu logo depois a glória de ser contemplado na brutal perseguição que o enfezado opressor vice-rei Conde de Resende desencadeou contra os homens de letras. Para escapar à tempestade, aproveitou-se da autorização que obtivera do bispo para visitar o bispado do Rio de Janeiro e, então, em longas e demoradas viagens, foi recolhendo os difíceis e preciosos elementos que lhe serviram para escrever a obra que perpetua o seu nome, as Memórias históricas do Rio de Janeiro e das províncias anexas à jurisdição do vice-rei do Estado do Brasil, obra de um valor imenso, filha de investigações repetidas e perseverantes, e que, apesar de ressentir-se de falta de método, é uma fonte riquíssima de esclarecimentos e de informações, fonte onde eu, por exemplo, tenho bebido a fartar, e ainda não me sinto saciado.
Monsenhor Pizarro publicou esta obra de 1820 a 1822. Consta ela de nove volumes, sendo o oitavo dividido em duas partes, o que em realidade eleva a dez o número dos volumes.
Esse ilustre brasileiro foi eleito deputado à Assembléia Geral em 1825. Serviu, pois, na nossa primeira câmara temporária, que o honrou, elegendo-o seu presidente.
No dia 14 de maio de 1830, passeava Monsenhor Pizarro pelo Jardim Botânico da lagoa Rodrigo de Freitas, quando, de súbito, caiu morto fulminado por um ataque de apoplexia.
Também aqui foi sepultado o grande mestre e compositor de música brasileira, o ilustre padre José Maurício Nunes Garcia, natural da cidade do Rio de Janeiro, onde também fez todos os seus estudos de humanidades, de matérias eclesiásticas e da arte divina em que tão eminente se mostrou.
Tornou-se esse homem desde logo notável em todas as aulas que cursou, foi mesmo designado para substituto do seu mestre de filosofia racional, o Dr. Goulão, e lecionou durante algum tempo, contando entre os seus discípulos o depois célebre padre Luís Gonçalves dos Santos. Conquistou, porém, as mais belas palmas dos seus triunfos no cultivo e exercício da música.
Em um dos meus passeios já dei algumas informações a respeito desse ilustre fluminense, e não devo nem quero repetir o que já escrevi.
Acrescentarei apenas a relação de um fato que pouco terá de importante, mas que não deixará de servir a quem quiser escrever a biografia completa do padre José Maurício.
Em 1817, morava o padre José Maurício Nunes Garcia em uma pequena casa de sobrado e sótão, que ainda hoje existe na Rua da Lampadosa, quase ao canto da Rua de S. Jorge, -A e defronte do lugar que era ocupado pela pequena igreja de S. Jorge, e que hoje o é por algumas casas novas e assobradadas, recentemente construídas.
Tinha naquele ano chegado ao Rio de Janeiro a sempre lembrada Princesa D. Leopoldina, arquiduquesa da Áustria, esposa do Príncipe Real o Sr. D. Pedro e depois primeira imperatriz do Brasil. Em um dos navios da esquadra que acompanhara S. A. Real viera uma banda de música que se fazia notar pela grande habilidade dos instrumentistas que a compunham.
Essa banda de músicos alemães tivera licença para ir estudar e ensaiar as suas peças de música em uma espécie de pátio que havia ao lado da igreja de S. Jorge, e portanto, defronte da casa do padre José Maurício.
Na primeira tarde, ao começarem os músicos o seu estudo, o padre José Maurício veio debruçar-se à sua janela, e aí ficou até que os músicos se retiraram. O mestre acabava de apreciar a perfeição com que eram executadas as obras de hábeis compositores.
Na tarde seguinte, os músicos reuniram-se outra vez. Antes, porém, de começarem a tocar, inesperadamente receberam um maço de papéis de música que de presente lhes mandava o padre José Maurício. Examinando os papéis, encontraram uma coleção de sonatas ou de divertimentos, como os chamou o seu autor. No primeiro momento, apenas por civilidade começaram os músicos a ensaiar os divertimentos. Em breve, porém, a curiosidade os excitava, logo depois uma espécie de encanto se apoderava deles e, enfim, o mais vivo entusiasmo os arrebatava a todos.
Esses divertimentos não se conhecem no Brasil. Os músicos alemães os levaram consigo, e o original que ficou em poder do padre José Maurício perdeu-se muitos anos depois. Informam-me, porém, que uma cópia deles existe no repertório ou arquivo musical do conde de Farrobo, em Portugal.
O padre José Maurício morreu a 18 de abril de 1830, pelas 6 horas da tarde, na casa nº 18 da Rua do Núncio, onde então morava. O grande compositor de músicas sacras expirou cantando o hino de Nossa Senhora.
O padre Luís Gonçalves dos Santos apenas soube do falecimento do seu antigo mestre, correu a oferecer-se para amortalhá-lo por suas mãos. Já achou, porém este piedoso dever cumprido pelo Sr. Dr.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.