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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Honorina não esqueceu nada; tudo quanto com ela se passara e se estava passando confiou à falsa amiga: as pretensões de Otávio, a sua resposta, os desejos de sua avó, o propósito de seu pai, as cartas de seu primo, tudo foi revelado.

E, quando terminou sua tão longa narração, Honorina respirou mais livremente, e, como esperando um conselho, levantou os olhos e os fitou no rosto de Lucrécia, que, pensativa, tinha os seus esquecidos sobre o tapete, que se achava estendido aos pés do leito da moça.

Em que pensava ela?... já uma vez o dissemos: a mulher não detesta a sua rival pelo amor que pode ter ao seu amado, mas antes pelo amor que lhe vota ele; merecer mais que ela é o crime; e embora não deseje, não faça por merecer, o suposto crime existe e o castigo se forja.

Também já uma vez o dissemos: — vençamo-la! — é o grito de guerra de uma rival.

Lucrécia não tinha, mesmo ouvindo na confissão de Honorina o quanto esta desprezava Otávio, esquecido seus desejos de vencê-la rebaixando-a... pondo-a, se possível lhe fosse, ainda abaixo de seus pés diante do homem que dela se esquecera por Honorina.

Estudando a relação que acabara de ouvir, Lucrécia tinha ante seu espírito três pretendentes à mão de Honorina; nada disto, nenhum deles lhe agradava: a mulher que se casa nunca se rebaixa; o casamento é sempre um triunfo da mulher; portanto, era preciso afastar a moça de todos eles.

A miséria de Hugo de Mendonça já era alguma coisa; mas não tudo. Honorina podia ficar nobre e virtuosa, mesmo nas garras da miséria, e Lucrécia compreendia perfeitamente que uma moça bela e sempre virtuosa no meio das privações da pobreza é como uma flor do céu caída na terra, como um pensamento de Deus perdido entre os homens... é a verdadeira angélica virtude. Depois de muito refletir o costumado e doce sorriso de seus lábios, apareceu; dir-se-ia que a viúva tinha achado uma tábua de salvação para Honorina; e ela havia somente entrevisto um caminho que a podia levar a profundo abismo.

— E então, D. Lucrécia!... pensas que já não há esperança de felicidade para mim?... — Oh!... não; eu estava pensando em outra coisa: lembrava-me de uma cena que se passou comigo, quando trataram de casar-me, e que se parece muito com o que sucede contigo; queres ouvi-la?...

— Se o julgas conveniente...

— Quando quiseram casar-me, eu tinha dezesseis anos... era, pois, da tua idade; não contava como tu pai e avó, mas em compensação tinha mãe e tio; amava em segredo a um moço, como tu amas; pois bem, a minha mãe e meu tio descobriram o meu amor, não o aprovaram, e, para melhor combatê-lo, fingiram ignorar sua existência; quem sabe, D. Honorina, se te sucede o mesmo?...

— Não... não.

— Também eu não digo que sim: mas escuta. Um dia, veio um senhor pedir-me em casamento... compreendes que eu fiz como fizeste, disse que não; vês como se têm assemelhado nossos destinos?...

— Sim... prossegue.

— Passado algum tempo, minha mãe se me apresentou aflita e chorosa... leu-me a sentença de um tribunal que lhe fazia perder metade ou quase todos os seus bens em favor de um primo meu... esse primo amava-me também e exigiu ou a minha mão, ou o que lhe pertencia... ora, não vês como continuam a parecer-se nossas histórias?... há apenas uma troca de papéis; porque contigo é teu primo, que aparece como salvador, e comigo sucedeu que foi o meu primeiro pretendente quem escreveu à minha mãe, oferecendo-se para salvar-nos...

— E depois?...

— Estava o tal meu primo disputando na sala com minha mãe e meu tio, e uma escrava disso me avisou. Fui escutá-los: meu tio defendia as pretensões de seu sobrinho, e minha mãe jurava que antes queria ver-se reduzida à miséria do que obrigar-me a casar com esse meu primo, a quem eu também já havia rejeitado; esta é uma pequena dessemelhança entre nossas histórias...

— E finalmente?...

— Lembrou-se o meu primeiro pretendente... meu tio gritou contra ele, minha mãe falou a seu favor, mas jurou que nem com esse me obrigaria a casar; depois pintaram a miséria com horríveis cores... minha mãe, D. Honorina, falou como teu pai... estava chorando; quando eu caí em seus braços, e para salvá-la da pobreza, esqueci meu amado e casei-me com o homem, de quem hoje sou viúva.

— E portanto...

— Espera, disse Lucrécia interrompendo a moça, ainda não acabei a minha história: três dias depois do meu casamento conheci que tinha sido vítima de uma traição; não havia sentença contra nós; meu primo se tinha conciliado amigavelmente com minha mãe em obséquio a meu marido, de quem era amigo; para servi-lo, ajudara a tramar a intriga, fingindo querer casar comigo; e três dias depois veio à nossa casa beber um copo de vinho à saúde dos noivos.

— E tua mãe, D. Lucrécia?...

— Minha mãe queria tornar impossível assim o meu casamento com o homem que amava em segredo.

— Oh! D. Lucrécia, também nisso diferem nossas histórias, porque meu pai nada suspeita do meu amor; e ainda que tudo soubesse, tal não era capaz de fazer, porque meu pai é meu pai.

— D. Honorina, também minha mãe era minha mãe.

(continua...)

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