Por Inglês de Sousa (1891)
Padre Antônio ficara contrariado, mas que remédio! Tivera de aceder ao pedido, dizendo em tom grave que ficaria muito aflito se soubesse que a sua permanência ali causava transtorno aos donos da casa. Fingira muita resignação diante da alegria manifestada por João Pimenta, que arreganhara os dentes numa risada estúpida, soluçada e nervosa, e por Felisberto, que a contivera numa frase do seu latim do sertão; e não pudera mesmo o padre deixar de corresponder com um sorriso ao longo olhar, cheio de carícias, com que a Clarinha lhe agradecia o sacrifício. Mas agora, que se haviam retirado para tratar dos arranjos da partida do velho tapuio, agora que se achava sozinho, entregue a si mesmo, meditando sobre as conseqüências que podia ter a demora no sítio encantador da Sapucaia, aquela aparente resignação se transformava numa agitação enorme, num quase desespero, como se, náufrago na corrente caudalosa do Amazonas, visse afastar-se para longe a tábua de salvação. Um profundo terror, filho da desconfiança das próprias forças, começava a encher-lhe o coração, dando-lhe o antegosto das torturas que o aguardavam naquela casinha rústica e agradável, e que juntas às cruciantes dores já sofridas no silêncio do seu modesto quarto, iam talvez despenhálo no abismo da depravação e do pecado. Porque agora que a iminência do perigo o assoberbava, que, ante a cumplicidade criminosa da sorte, a sua coragem desmaiava, padre Antônio de Morais, o casto, o puro, o severo vigário de Silves, o ardente missionário da Mundurucânia era obrigado, num sério exame de consciência, sondando o fundo do seu coração da padre, a confessar, corrido de vergonha e de nojo, que estava louco e cinicamente apaixonado pela neta de João Pimenta, por aquela mameluca que padre João da Mata escondera nos sertões de Guaranatuba, e cuja primeira vista lhe fizera impressão tão desagradável. As fastidiosas histórias do Felisberto lhe haviam despertado o desejo de conhecer melhor essa rapariga, criada com tanto cuidado e zelo pelo defunto padre santo, e sem que o respeito, que a si e ao seu caráter sacerdotal devia, lhe corrigisse aquele movimento insensato de curiosidade profana, cometera a imperdoável imprudência de levantar os olhos para essa mulher, que o seu anjo da guarda lhe aconselhava que evitasse, como se o advertisse da aproximação dum inimigo. Olhara, e maravilhara-se na contemplação da mais formosa mameluca que jamais vira em sua vida, se mameluca se podia chamar a quem só muito de leve acusava os caracteres físicos da raça americana, e que, pela graça ingênua, pela viva inteligência que revelava nos grandes olhos pretos, sempre banhados em ondas duma volúpia ardente, parecia filha dum outro continente. Olhara e compreendera o feroz ciúme com que nos seus últimos anos de vida, padre João da Mata escondia do mundo aquele inapreciável tesouro de graça e formosura, e o esquecimento em que deixava os deveres paroquiais para passar os dias na adoração daquela criatura angélica, formada por um capricho da natureza, e condenada pelo destino a viver no sertão do Alto Amazonas entre um velho índio boçal e um padre cheio de achaques. A que vida, entretanto, a destinava? Que sorte lhe proporcionaria o padre santo nos sertões de Guaranatuba? Não haviam sido feitas para rústicos misteres aquelas mãozinhas delicadas, gordas e polpudas, cujo único préstimo parecia ser o de acariciar uma face amiga; aqueles pés pequenos, nervosos e bem-feitos não correriam sem se magoarem por sobre o duro capinzal do campo; aquela cintura fina e graciosa não era para ser abraçada por um pesado tapuio acachaçado nas danças do batuque sertanejo ou nos grosseiros afagos dum noivado desigual. E daí em diante, desde esse fatal momento em que o seu anjo da guarda velara a face, deixando-o sujeito às tentações do inimigo da sua alma, que teimava em infiltrar-lhe nas veias o sutil veneno da volúpia, não tivera o padre um só momento de repouso, principalmente durante a noite, não lhe sendo permitido conciliar o sono. A imagem da linda mameluca, beleza extraordinária na verdade - ou criação fantástica de sua imaginação doente, dos seus sentidos excitados, não o sabia ao certo -, não lhe saía da lembrança, com os seus cabelos cheirosos, os grandes olhos pretos e a pele acetinada, entrevista um dia entre o cabeção traidor e a leve saia de chita... Passara noites horrorosas! No silêncio do seu quarto solitário, embalado na alva rede de linho que substituíra a marquesa de padre João da Mata, padre Antônio de Morais, o puro, o casto, o ardente missionário da Mundurucânia, confessava-o agora pela primeira vez, falando francamente consigo mesmo, entregara-se insensatamente àquele amor que se apoderava bruscamente do seu coração de sacerdote de Cristo, estremecendo de horror pelo pecado que cometia como se já estivesse condenado às penas eternas com que outrora ameaçara os seus ouvintes de Silves.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.