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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Por quê?... Ora eu lhe digo... (Você pilhou-me em boa maré!). As outras cartas eram simples palavrórios de namoro; n valia a pena arriscar-se a gente por elas; demais, minha afilhada podia a vir desconfiar de uma coisa, redobraria de cuidado, e agora a aquisição desta, que nos é imprescindível, não seria tão fácil como há de ser, compreende?

Mas a verdadeira causa não revelou o disfarçado. O cônego não queria que o caixeiro lesse as primeiras cartas de Raimundo, por dois motivos: um porque temia que este fizesse em alguma delas qualquer revelação a respeito do crime de São Brás; e segundo, porque receava que incidentemente se referisse a elas ao interessante estado de Ana Rosa. O certo, porem, é que semelhante medida, facilitou, sem dúvida, a posse da carta, em que Raimundo marcava o dia de fuga. O caixeiro, engodando o Benedito com uma cédula de dez mil réis, mesmo instantes; copiou-a logo, restituiu-a, e correu à casa de Diogo.

Então, os dois aliados, senhores já nos planos do inimigo trataram de cortarlhe o vôo, recorrendo à polícia, que lhes forneceu quatro praças.

O escândalo, como era de prever, reuniu povo na Rua da Estrela, e Manuel acordou sobressaltado aos gritos da sogra, da Brígida e da Mônica, que sem darem por falta de Ana Rosa, assustavam-se com a presença dos soldados e com o alvoroço da gentalha acumulada a porta do sobrado. Maria Bárbara, toda safrapantada, correu aos gritos para seu quarto e, abraçando-se a um santo, encafuou-se na rede, porque não estava em suas mãos ver fardas e baionetas “sentia logo um formigueiro pelas pernas e o estômago nu embrulho! Credo!”

Raimundo, entretanto não descoroçoou com a situação e subia a escada, sem hesitar, levando consigo Ana Rosa, meio desfalecida. Em cima, deu cara a cara com Manuel, e estacou, fitando-se os dois com a mesma firmeza, porque cada um tinha plena consciência dos seus atos. O padre e o caixeiro subiram em seguida acompanhados pelos soldados.

Juntos todos, a situação tornou-se difícil; o silêncio coalhava em torno deles, imobilizando os. Afinal o cônego puxou pelo seu farto lenço de seda da Índia, assoou-se com estrondo e declarou, depois uma máxima que, na qualidade de amigo e compadre do pai de Ana Rosa, entendeu de sua obrigação evitar o criminoso rapto que o Sr. Dr. Raimundo, ali presente, tentara perpetrar contra um dos membros daquela família.

A rapariga voltara a si com as palavras do padrinho e escutava-o de cabeça baixa, ainda amparada ao ombro de Raimundo.

— Eu ia por minha vontade... murmurou ela, sem levantar os olhos. Fugia com meu primo, porque esse era o único meio de casar com ele.

— E o senhor, como se explica?... perguntou o cônego a Raimundo, com autoridade.

— Não me defendo, nem aceito o juiz: apenas declaro que esta senhora nenhuma responsabilidade tem no que se acaba de passar. O culpado sou eu: bem ou mal, entendi, e entendo, que hei de casar com ela e para isso empregarei todos os meios.

Ana Rosa ia dizer alguma coisa, o cônego atalhou:

— Vamos todos cá pra dentro!

E, depois de despedir os soldados, seguiram para a saia, de cuja entrada Maria Bárbara os espiava, ainda corrida e espantadiça do susto.

— Agora que estamos em família, acrescentou ele, fechando as portas, resolvamos, como homens de boa e só justiça, o que nos cumpre fazer em tão melindrosa situação!... Hodie mihi, cras tibi!... Seu Manuel, primeiro você! Tem a palavra!

Manuel passeava ao comprido da casa. Parou, fazendo face ao sofá, onde estavam todos, e dirigiu-se ao grupo. O pobre homem tinha uma grande tristeza na fisionomia; transparecia-lhe no olhar a sua perplexidade, impondo o respeito e a compaixão, que nos inspiram as dores resignadas. Percebia-se que lhe faltavam as palavras, e que o infeliz lutava para expor as suas idéias de um modo fiel e claro. Afinal, voltou-se para o cônego e declarou que estimava bastante vê-lo, naquele momento, ao seu lado. “O compadre fora sempre o seu guia, o seu companheiro, o seu melhor amigo, como, ainda uma vez, acabava de prová-lo. Ficasse pois e ouvisse, que era da família!” Depois, pediu à sogra que se aproximasse. “A presença dela e a sua opinião eram igualmente imprescindíveis.”

E passou ao caixeiro: “Ali o seu Dias também devia ficar porque não representava um simples empregado, que Manuel tinha no armazém; representava um colega zeloso, um futuro sócio, que em breve devia fazer parte dos seus por direito, que de fato já o era, havia muito tempo. Achavam-se por conseguinte na maior intimidade, e ele, para descargo da sua consciência, podia falar com franqueza ao Dr. Raimundo e dizer-lhe tudo, pão pão, queijo queijo, o que pensava a respeito do ocorrido!”

(continua...)

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