Por Aluísio Azevedo (1884)
E choviam as insimulações, as denúncias “Coqueiro era um hipócrita, um jesuíta! — Fingia-se muito devoto na escola para agradar ao professor fulano; defendia a escravidão e a monarquia para lisonjear Beltrano; — Se entrava numa pândega com os companheiros, no outro dia punha-se a dizer que só ele não se embebedara e não fizera papel triste! — se lhe tocavam mulheres, o velhaco abaixava os olhos e ficava todo estomagado, e debaixo da capa de santarrão, ia fazendo das suas! — Era um cão! Um tartufo!
Toda essa má vontade contra o João o coqueiro redundava em benefício de Amâncio, por quem alguns estudantes pareciam sentir verdadeiro entusiasmo. Na faculdade de Medicina não se encontrava um sé rapaz em favor daquele; ao passo que este tinha por si quase toda a Politécnica. Nas duas escolas falava-se muito em “exploração, em roubo, em piratagem”. A cifra dos bens de Amâncio, à medida que passava de boca em boca, ia tomando proporções fabulosas, faziam-na de mil, quatro mil, dez mil contos de réis. O Paiva era agora requestado pelos colegas, como um boletim sanitário que traz os últimos telegramas da guerra. Por saberem de sua intimidade com o réu e das visitas cotidianas que ele fazia à casa de correção, não o largavam um só instante; cercavam-no, cobriam-no de perguntas “Como estava Amâncio, se triste, abatido, desesperançado, ou se alegre, indiferente, risonho?!...E a tal Amelinha dos camarões?...que fazia/ como se portava no negócio? — ia visitar o amante? Escrevia-lhe? aparecia a algum! Comprazia-se com desdita do preso ou era solidária nos sofrimentos dele?”
Paiva respondia para todos os lados, não tina mãos a medir; os espíritos, porém, longe de se acalmarem com isso, mais se sofregavam e acendiam. A impaciência tomava o lugar da curiosidade; um sobressalto febril, de jogo, preava o coração dos estudantes; os ânimos palpitavam na expectativa de um, desfecho escandaloso. Previam-se, com arrepios de gozo antecipado, o impudico espetáculo dos depoimentos , as brutais declarações dos médicos e todo o cortejo descomposto de um, júri de desfloramento.
O artigo 222 do Código Criminal lá estava pairando nos ares, cínico e espetaculoso como o flammeum de Nero no banquete de Tigelino.
* * *
O Campos, entretanto, não podia descansar com a idéia daquela desgraça. Abandonava tudo, esquecia os próprios interesses para correr às bancas dos advogados, consultando, propondo defesas; mais tonto, mais aflito do que se tratasse de salvar um filho.
A situação relacionara com o Dr. Tavares. O qual, um pouco em represália ao Coqueiro por havê-lo despedido de casa, sem as explicações devidas ao seu alto merecimento, e um, pouco talvez na esperança de lucros pecuniários, mostrava-se ferozmente empenhado na questão. Nunca esteve tão verboso, tão cheio de entusiasmo e tão fecundo em citações latinas. Viam-no, a cada passo, em todos os grupos da Rua do Ouvidor, berrando., gesticulando sobre o assunto, como se tudo aquilo lhe trocasse diretamente.
— É incontestável, exclamava ele a quem lhe caía nas garras, — é incontestável que Amâncio foi vítima de uma arbitrariedade esse delegado das dúzias que, sem mais nem menos, o mandou recolher à prisão, – prevaricou! Prevaricou, principalmente porque Amâncio nada mais fez do que desflorar mulher virgem maior de dezessete anos, o que, perante a nossa lei, não constitui crime! Por cons3efguinte, a prisão preventiva não devia ser efetuada!
E a sua voz, aguda e sistemática, repetindo a palavra friamente obscena da lei, causavas no auditório o efeito vexativo que nos produz um cadáver nu.
Hortênsia já se escondia no quarto, quando o maçante se lhe pespegava em casa.
— Ah! Ele havia de mostrar a esses advogadozinhos de meia- tigela, os quais, mal surge um processo andam se oferecendo como protetores de qualquer uma das partes e comprometendo a causa!- Ele havia de mostrar o que é dignidade e retidão na justiça! E, se não tivesse outro meio, escreveria uma série de artigos, que os poria a todos na rua da amargura! Campos havia de ver!
E, chegando-se para este, em atitude misteriosa:
— Mas o senho, justamente, é que me podia ajudar se quisesse!...
— Ajudá-lo?
— Sim! Nós dois, brincando, dávamos cabo da panelinha do Coqueiro! Que julga? Sei de tudo! — Vi com estes olhos! Sei, melhor que ninguém, como se arrumou a cilada ao pobre moço!
Campos declarou que , em benefício de Amâncio, estava pronto a fazer o que fosse preciso.
— Encarrega-se da publicação dos artigos?! Exclamou o advogado.
— Pago-os até quem os fizer...disse o Campos — contanto que isso aproveitar ao rapaz! Todo o meu desejo é livrá-lo o mais depressa possível! É uma questão de consciência!
— Pois então, meu caro amigo, pode escrever que, ou o seu protegido não sofrerá menor desgosto ou leva o diabo a caranguejola desta justiça de borra! Sou eu quem o afirma! amanhã mesmo trago-lhe o primeiro artigo! Verá! — Está dito!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.