Por Aluísio Azevedo (1897)
No dia seguinte, Ambrosina deu as suas providências para arranjar o capital; os oito contos de réis pingaram da algibeira dos seus admiradores, como o sumo de uma fruta espremida. Ficou a cousa afinal arranjada da seguinte forma: o então ministro da Fazenda um conto de réis; o comendador X. X., presidente de certa companhia garantida pelo Estado, dois contos de réis; o deputado Rocha Coelho, quinhentos milréis; mais três comendadores do comércio, a quatrocentos milréis por cabeça, um conto e duzentos milréis; um diretor de secretaria trezentos milréis; um banqueiro de roleta, quinhentos milréis; um fazendeiro, que a convidara para ficar só com ele, oitocentos milréis. E o que faltava ainda foi obtido em quantias pequenas de algibeiras de todos os tamanhos e jerarquias: de sorte que Ambrosina nem teve de tocar no seu fundo de reserva, como esperava, e talvez ainda guardasse algumas sobras na ocasião de reunir o produto das quotas.
Pouco depois, passaramse os documentos necessários, e era ela empresária do Alcazar.
Estreou com duas pífias cançonetas e um quadro vivo, mas por tal sorte apimentou os versos e os gestos, e tão à mostra apresentou as suas formas esculturais, que o público sentiu vibrarlhe no sangue uma faísca diabólica e levantouse entusiasmado, a lançar no palco chapéus, lenços, bengalas e ventarolas, possuído de verdadeiro delírio.
No dia seguinte, a sala da Condessa Vésper encheuse de homens de toda a idade e posição social, e os cartões, os ramalhetes, os oferecimentos, os pequeninos presentes de consideração, choveram de todos os lados.
No espetáculo imediato, subiram os bilhetes a um preço escandaloso, os cambistas encheramse a grande, e às sete horas da noite já se não podia passar pela rua da Vala. O teatrinho parecia vir abaixo! o nome da formosa estrela enchia o ar, pronunciado em todos os sotaques e diapasões. O público sentiase impaciente, a orquestra apressada.
Afinal, subiu o pano, e Ambrosina, quase nua, viuse calçada de flores até acima dos joelhos.
Não obstante, no meio daquela porção de rosas foi envolvido um novo espinho, e este agora bem agudo — era um cartão de Gustavo.
Em casa, no seu primeiro momento de independência, Ambrosina releu o tal cartão, dez, vinte vezes seguidas, e acabou por atirarse à cama, soluçando, dominada por uma violenta comoção, que não ficou bem averiguado se era produzida pela raiva, pela excitação da noite, ou por qualquer outra causa.
O cartão dizia o seguinte:
"Gustavo Mostella pode à festejada Condessa Vésper o obséquio de marcarlhe amanhã uma hora, na qual lhe possa ele falar, em confidência, a respeito de certa lavadeira por nome de Genoveva. Rua do Rezende..."
Era simplesmente isto o que dizia o cartão.
E a cousa explicase do seguinte modo: Gustavo morava num cômodo de sala e alcova, que lhe alugava a família Silva, proprietária e moradora de um sobrado da rua do Rezende. Pagava noventa milréis por mês, com direito, além da comida, ao arranjo dos quartos, ao banho e ao café pela manhã.
A família Silva, que se compunha de uma velha chamada Joana e duas filhas trintonas, era gente pobre, porém boa e honestamente laboriosa; e o hóspede, em troca dos graciosos desvelos que recebia dela, jamais negava os seus serviços, tinha ocasião de serlhe útil.
Uma vez disselhe a velha que desejava merecerlhe favor, e, passando os óculos do nariz para o alto da cabeça, acrescentou com voz misteriosa:
— Nesse cortiço aí aos fundos da casa, há uma pobre mulher, bem apresentada ao que dizem, que há tempos lava para mim; ultimamente tem estado de cama, e mandoume agora pedir que lhe fosse lá escrever uma carta, não sei para qual dos seus parentes. Como o senhor na ocasião não estivesse cá, desci eu próprio a ter com ela, acheiaa muito mal, coitada! e prometi à infeliz que, mal o senhor chegasse, lá iria a meu pedido prestarlhe aquela caridade.
— Pois não, respondeu o rapaz; posso ir imediatamente, contanto que venha comigo alguém, para mostrame a qual dessas centenas de portas tenho eu de bater.
E, enquanto D. Joana chamava pela negrinha que na casa representava o papel de copeiro, Gustavo, sem se desfazer do chapéu e da bengala, dizia de si para si, a recordarse das muitas vezes em que da janela do seu quarto ficava a contemplar a labutação do cortiço:
— Deve ser aquela mulherança gorda e azafamada, que estava sempre a ralhar com as crianças, e de quem copiei o tipo da "Brigona" no meu romance "A Estalagem".
Daí a pouco esperava à porta da lavadeira que o mandassem entrar. A negrinha tinha já enfiado pelo quarto, a dar notícia da chegada "do moço que ia para escrever a carta".
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.