Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
O padre calou-se e esperou; e logo que outra vaga apareceu no coro de S. Pedro, apresentou-se candidato e começou a trabalhar. Com a experiência que colhera na primeira campanha em que fora vencido, tomou todas as precauções, e estudando o campo inimigo, pois que outro candidato também pretendia o lugar suspirado, reconheceu que ainda essa vez teria de ser vencido por dois votos!
Pois bem, o homem não desanimou. Reforçando os seus pedidos e empenhos, tranqüilizou-se a respeito da segurança dos votos que lhe tinham sido prometidos e ficou sem mais se esforçar por conquistar outros, à espera do dia da mesa da irmandade.
Enfim, o dia estava a chegar, e o padre moveu-se na véspera de tarde.
Que faz ele? Marca para o ataque que já havia planejado três padres de sua escolha, três padres membros da mesa e que deviam votar no seu adversário. Vai à casa de um amigo, porque não quer despertar desconfianças, executando ele próprio o seu movimento estratégico; procura, pois, um amigo, entrega-lhe três bilhetes de l0$000 e recomenda-lhe que, sem falar no seu nome, vá à casa dos três padres e a cada um deles encomende uma missa para o dia seguinte, às dez horas da manhã, devendo elas serem celebradas uma na ermida de Nossa Senhora da Glória, outra na matriz de Nossa Senhora da Glória e a terceira, enfim, na igreja da Lapa.
O amigo saiu. As missas foram encomendadas, e a esmola de l0$000 a cada um dos padres fê-los sorrir com razão, porque, principalmente naquele tempo, l0$000 eram uma espórtula avultada e um pouco rara.
No dia seguinte, reuniram-se os irmãos de S. Pedro às 10 ho ras do dia, esperaram até às 10 e meia pelos três padres que faltavam, cansaram de esperar, instalou-se a mesa e às 11 horas da manhã, o padre cabalista ganhou por um voto o lugar vago do coro de S. Pedro.
De volta para casa, o padre encontrou o amigo que o esperava.
– Então? – perguntou este.
– Ganhei por um voto – respondeu o padre.
– Ah! É porque soube empregar os meios.
– Sim. Mas está vendo que empreguei somente meios justos esantos... Mandei dizer três missas por minha intenção.
Nada mais temos que ver no consistório da igreja de S. Pedro.
Desçamos. É mais fácil descer do que subir. Perguntem aos ministros de Estado.
Temos agora, do lado do Evangelho da igreja e contíguo ao corpo desta, um longo corredor destinado, creio eu, a guardar objetos que servem nas cerimônias do culto. Nada teríamos que apreciar aqui a não serem os dois retratos que ornam uma das paredes do corredor.
São os retratos do cônego Manuel Freire, um dos benfeitores da instituição do coro, e do cônego Alberto da Cunha Barbosa, um dos benfeitores da instituição dos socorros aos padres e irmãos pobres da irmandade de S. Pedro. Ignoro qual o artista que tirou estes retratos.
Um pequeno corredor comunica a sacristia da igreja de S. Pedro com um limitado pátio, em torno do qual existem, convenientemente abrigados, diversos armários, contendo alfaias e ornamentos da igreja. Em um desses armários conservam-se com zeloso cuidado seis grandes ramos de flores artificiais. trabalho delicado e digno de atenção e de elogios, feito pelas freiras de Santa Teresa. Nessas flores a natureza foi perfeitamente imitada, e devem-se apreciar ainda mais as finas tintas empregadas, tintas que resistem à ação do tempo, conservando as flores o seu viço primitivo.
No fundo do pátio há uma saleta onde se acham também armários. Estes, porém, destinados aos capelães que neles guardam as suas vestes próprias do culto e os seus livros.
Esse pátio é histórico. Recorda-nos o ruído alegre da vida e o triste silêncio da morte.
Ides ver que não estou fazendo poesia.
Houve tempo em que junto desse pátio tinha lugar o refeitório dos órfãos de S. Pedro, que depois se chamaram seminaristas de S. Joaquim e, portanto, aqui se sentia o rir dos meninos, a vivacidade dessas felizes criaturas que quase nunca se lembram do passado, que sonham com um futuro somente cheio de folguedos e festas, e que, a despeito de toda a disciplina, são sempre mais ou menos ruidosas e travessas, como é sempre ruidosa e travessa a vida naquela idade.
Depois o silêncio sucedeu ao ruído.
O refeitório transformou-se em jazigo. O pátio foi cercado de catacumbas, e onde soavam as risadas alegres dos meninos, correram lágrimas dos olhos daqueles que vinham chorar os seus finados.
Mas as catacumbas são também páginas importantes daquele grande livro da história que sempre se pode ler em um campo fúnebre.
É verdade que essas catacumbas desapareceram, como felizmente todas as outras que havia no centro da cidade. Ficou, porém, a lembrança delas, ficou o arquivo que nos recorda os mortos.
Lembremos, pois, um ou outro dos homens notáveis, cujos restos mortais foram enterrados nas catacumbas que em torno desse pátio existiam.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.