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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)


Tamanduá é um animal do tamanho de raposa, que tem o rosto como furão; a cor é preta, rabo delgado na arreigada, e com o cabelo curto; e daí para a ponta é muito felpudo, e tem nela os cabelos grossos como cavalo, e tamanhos e tantos que se cobre todo com eles quando dorme; tem as mãos como cão, com grandes unhas e muito voltadas, e de que se fazem apitos. Este bicho se mantém de formigas, que toma da maneira seguinte: chega-se a um formigueiro deita-se ao longo dele como morto, e lança-lhe a língua fora, que tem muito comprida, ao que acodem as formigas, com muita pressa; e cobrem-lhe a língua, umas sobre as outras; e como a sente bem cheia, recolhe-a para dentro, e engole-as; o que faz até que não pode comer mais, cuja carne comem os índios velhos, que os mancebos têm nojo dela.Jaguapitanga é uma alimária do tamanho de um cachorro, de cor preta, e tem o rosto de cordeiro; tem pouca carne, as unhas agudas, e é tão ligeira que se mantém no mato de aves que andam pelo chão, toma a cosso, e em povoado faz ofício de raposa, despovoa uma fazenda de galinha que furta.Quati é um bicho tamanho como gato, tem o focinho como furão e mais comprido. São pretos, e alguns ruivos; têm os pés como gato, o rabo grande felpudo, o qual trazem sempre levantado para o ar; são mui ligeiros, andam pelas árvores, de cujas frutas se mantêm, e os pássaros que nelas tomam. Tomam-nos os cães quando os acham fora do mato, a que ferem com as unhas mui valentemente; os novos se amansam em casa, onde tomam as galinhas que podem alcançar; as fêmeas parem três e quatro.Maracajás são uns gatos bravos tamanhos como cabritos de seis meses; são muito gordos, e na feição pontualmente como os outros gatos, mas pintados de amarelo e preto em raias, coisa muito formosa; e são felpudos, mas têm o rabo muito macio, e as unhas grandes e muito agudas; parem muitos filhos, e man-têm-se das aves que tomam pelas árvores, por onde andam como bugios. Os que se tomam pequenos fazem-se em casa muito domésticos, mas não lhes escapa galinha nem papagaio, que não matem. Sariguê é um bicho do tamanho de um gato grande, de cor preta e alguns ruivaços; tem o focinho comprido e o rabo, no qual, nem na cabeça, não tem cabelo; as fêmeas têm na barriga um bolso, em que trazem os filhos metidos, enquanto são pequenos, e parem quatro e cinco; têm as tetas junto do bolso, onde os filhos mamam; e quando emprenham geram os filhos neste bolso, que está fechado, e se abre quando parem; onde trazem os filhos até que podem andar com a mãe; que se lhe fecha o bolso. Vivem estes de rapina, e andam pelo chão, escondidos espreitando as aves, e em povoado as galinhas; e são tão ligeiros que lhes não escapam.


C A P Í T U L O XCIX
Que trata da natureza e estranheza do jagurecaca.


Jagurecaca é um animal do tamanho de um gato grande; tem a cor pardaça e o cabelo comprido, e os pés e mãos da feição dos bugios; o rosto como cão, e o rabo comprido, o qual se mantém das frutas do mato. Anda sempre pelo chão, onde pare uma só criança, o qual é estranho e federonto, que por onde quer que passa deixa tamanho fedor que, um tiro de pedra afastado de uma banda e da outra, não há quem o possa sofrer, e não há quem por ali possa passar mais de dois meses, por ficar tudo tão empeçonhentado com o mau cheiro que se não pode sofrer. Deste animal pegam os cães quando vão à caça, mas vão-se logo lançar na água, e esfregam-se com a terra por tirarem o fedor de si, o que fazem por muitos dias sem lhes aproveitar, e o caçador fica de maneira que por mais que se lave fica sempre com este terrível cheiro, que lhe dura três e quatro meses; e "como este bicho se vê em pressa perseguido dos cães, lança de si tanta ventosidade, e tão peçonhenta, que perfuma desta maneira a quem lhe fica por perto; e com estas armas se defendem das onças e de outros animais", quando se vêem perseguidos deles, cuja artilharia tem tanta força que a onça ou outros inimigos que os buscam se tornam e os deixam; e vão-se logo lavar e esfregar pela terra, por tirar de si tão terrível cheiro. E aconteceu a um português que, encontrando com um destes bichos, que trazia o seu caçador do mato morto para mezinha, ficou tão fedorento que, não podendo sofrer-se a si, se fez muito amarelo, e se foi para casa doente do cheiro que em si trazia, que lhe durou muitos dias. A carne deste bicho é boa para estancar câmaras de sangue; mas a casa onde está fede toda a vida, pelo que as índias a têm assada, muito embrulhada em folhas, depois de bem seca ao ar do fogo; e a têm no fumo para se conservar; mas nem isso basta para deixar de feder na rua, enquanto está na casa.


C A P Í T U L O C
Em que se declara a natureza dos porcos-do-mato que há na Bahia.

(continua...)

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