Por Inglês de Sousa (1891)
Mais tarde erguera-se convalescente, ainda pálido, mas de olhos baixos, teimosamente fechados, como se não precisasse deles para ver o caminho da vida, que a mão inflexível do destino lhe traçava; e uma melancolia profunda cobria aquele belo semblante, como se uma irremediável desgraça para sempre lhe tivesse arrancado a alegria do coração. Então naquelas faces pálidas, naquela boca triste, naquela fronte sombreada por uma preocupação visível, a moça, advertida pelo seu instinto de mulher, reconhecia o homem agitado por sentimentos fortes, adivinhava a luta íntima, embora para ela intraduzível, que se travava no cérebro daquele rapaz elegante, daquele formoso padre de vinte e três anos. Que seria? Que dor amarga lhe torturava o coração? Que inexplicável tristeza era aquela, que só parecia comprazer-se na vasta solidão da mata virgem, ou na dedicação sem limites por uma causa que se dizia sublime mas que ela reputava inútil? Problema insolúvel para a sua pobre perspicácia de matutinha de quinze anos, que não sabia ler naquele semblante austero e meigo, nem ver naquela boca séria e triste senão a simpática melancolia que invencivelmente atraía a compaixão e a ternura.
O hóspede ia, porém, partir. Em breve seguiria no ubá de João Pimenta, em demanda de paragens desconhecidas, no cumprimento do seu destino indecifrável. Tudo aquilo acabaria, e o moço talvez nem conservaria da neta de João Pimenta a recordação das suas feições de rapariga, que ele jamais olhara francamente, na teima dos olhos baixos. Mas a figura elegante daquele mancebo triste jamais se apagaria da memória da Clarinha. Para sempre lhe ficaria gravada no coração a lembrança daquelas pálpebras quase cerradas, brancas, com as longas pestanas trêmulas.
E agora uma infinda tristeza a perseguia, nos vagares da vida suave e monótona do sítio.
O serão daquela vez durara pouco tempo, e padre Antônio de Morais, vendo a Clarinha e os dois homens retirar-se, logo depois do café, sentira-se isolado, todo entregue à enorme agitação que o possuía, e que a presença da família o obrigara a dominar por um ingente esforço de sua inquebrantável vontade. Depois que entrara em convalescença, todas as tardes, ao escurecer, reuniam-se o avô e os netos no quarto que fora de padre João da Mata e que lhe haviam dado como o melhor da casa. Felisberto, sentado sobre os calcanhares, repetia a já muito conhecida história do finado padre santo e dos seus fregueses de Maués. João Pimenta, de pé no liamiar da porta, ouvia silencioso, rindo às vezes das pilhérias insulsas do neto, mascando o seu tabaco com um prazer egoísta; e a Clarinha, sentada aos pés da cama do padre, num banquinho de pau, seguia a sua tarefa de costura, interrompendo-se somente para cortar com os pequenos e alvos dentes a linha com que cosia, e da qual, às vezes, um fiozinho lhe ficava na boca, avivando-lhe o encarnado dos lábios.
Lá fora ouviam-se a chiadeira dos grilos e o pio agoureiro de alguma ave noturna, cortando o silêncio das matas. A preta velha trazia o chá de folhas de café com farinha-d'água, o Felisberto continuava a falar, o João Pimenta mascava ainda e a Clarinha cosia, ligeiramente séria, parecendo ter a atenção presa à costura, apesar das distrações freqüentes que lhe valiam picadas da agulha vingativa. Daquela vez, porém, a monotonia do serão fora alterada por um acontecimento inesperado, cujas possíveis conseqüências lançavam o espírito de padre Antônio de Morais no mais cruel desassossego.
João Pimenta entrara de chapéu na mão, com ar de quem tinha alguma coisa a dizer, mas não se atrevia a abrir a boca, como se um nó lhe apertasse a garganta. Depois de algum tempo de hesitação e silêncio, o neto falara por ele, explicando que o João Pimenta precisava ausentar-se por alguns dias, para ir a Maués, a negócio de muita importância. Tratava-se de levar à vila as frutas colhidas no sítio, antes que apodrecessem, e o guaraná que haviam colhido à margem do Carumã e que era encomenda da família Labareda, gente muito séria, incapaz de lograr a quem quer que fosse e muito amiga de receber a tempo as encomendas que fazia. Ora estando aprazada a viagem de S. Rev.ma para o dia seguinte, o velho tuxaua encontrava-se em grande embaraço, receando lhe apodrecesse a fruta e se descontentasse a respeitável família Labareda. Felisberto não podia deixar o sítio naquela ocasião, por causa da roça que exigia os seus cuidados diários. O único remédio era o senhor padre ter um bocado de paciência, e esperar a volta do ubá para seguir em busca do porto dos Mundurucus. Era coisa de pouca demora, uma semana quando muito, e se isso não desagradava muito ao senhor padre, o pobre tuxaua João Pimenta ficaria contente:
— Principalmente por causa das frutas e da família Labareda, terminou o Felisberto, resumindo as razões da insistência do velho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.