Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Faltavam cinco para as oito. Amância levantou-se afinal, e despediu-se.

— Ora graças a Deus!...

Maria Bárbara foi até o corredor.

— Olhe, gritou a Sousellas. Não se esqueça, hein?... Três pingos de limão e uma colherzinha de água de flor de laranja.... Santo remédio! Ainda é receita da nossa defunta Maria do Carmo!.

E desceu.

Mas, já debaixo, voltou, chamando por Mana Bárbara.

— Olhe, Babu!

Ana Rosa quase perde os sentidos. Deixou-se cair em uma cadeira.

— É verdade você não sabe de uma?...— Pois não lhe ia esquecendo?...— A Eufrasinha estava de namoro com um estudante do Liceu?...

— Que estouvada!...

— Um menino de quinze anos, criatura!

E contou toda a história, puxando pelos comentários, e esticando-os. Ana Rosa, assentada na varanda, em uma cadeira de balanço, rufava com as unhas nos dentes.

— Bem, bem adeus minha vida!

E Amância beijocou a cara de Maria Bárbara

— Até que enfim!

Ana Rosa correu logo ao quarto Raimundo recomendara-lhe que não levasse nada, absolutamente nada, de casa, que ele estava preparado e prevenido para recebê-la, relógio pingou, inalteravelmente oito badaladas roucas. Maria Bárbara afastara-se para o interior da casa; Manuel continuava a dormir no seu quarto. E daí a instantes, no silêncio da varanda, ouviu-se o assovio forte de Raimundo, entoando um trecho italiano.

Ana Rosa cujo coração fazia do seu peito um círculo de ginástica apanhou trêmula as salas e, com uma ligeireza de pássaro que foge da gaiola, desceu a escada na ponta dos pés, atirando-se lá embaixo nos braços de Raimundo, que a esperava nos primeiros degraus.

Mas, ao transporem a porta da nua, ela soltou um grito, e o rapaz estacou, empalidecendo. Do lado de fora, o cônego Diogo e o Dias, acompanhados por quatro soldados de policia, saíram ao seu encontro, cortando-lhes a passagem.

Dias, só por si, era um pobre pedaço de asno, incapaz da mínima sutileza de inteligência e pouco destro na pontaria dos seus raciocínios; posto, porém, ao serviço do cônego Diogo, tornara-se uma arma perigosa, de grande alcance e maior certeza. Guiado pelo mestre, o imbecil nunca tinha deixado de espreitar, sempre desconfiado e atento, sondando tudo aquilo que lhe parecia suspeito, acordando, muita vez, por alta noite, para ir, tenteando as trevas, espiar e escutar, na esperança de descobrir alguma coisa. As furtivas conversas de Ana Rosa com a preta Mônica quando esta voltava da fonte não lhe passaram despercebidas e por aí chegou ao conhecimento da correspondência de Raimundo, desde logo as primeiras cartas.

— Devo apoderar-me delas... não é verdade? perguntou ao padre. — Nada! Por ora não! É cedo ainda!... respondeu Diogo.

E este continuava a frequentar assiduamente a casa do compadre sempre muito solicito pela saúde da sua afilhada, informando-se, com paternal interesse, das mais pequeninas coisas que lhe faziam respeito, querendo saber quais os dias em que ela comia melhor, quais em que se sentia alegre ou triste, quando chorava, quando se enfeitava, quando acordava tarde e quando rezava. Como bom velho amigo da família exigia que lhe dessem contas de tudo, e Manuel as dava de bom grado satisfeito por ver que as coisas iam voltando aos seus eixos e que a sua casa recaia na primitiva tranquilidade. O cônego nem por sombra, lhe revelara o segredo da confusão de Ana Rosa, temendo como solidário do Dias, que o negociante, em conjuntura tão feia esquecesse tudo e preferisse casar a filha com o homem que a desvirtuara. Quanto ao seu protegido, também não lhe quadrou dizer lhe a verdade, porque receava que o caixeiro, por escrúpulo ou por medo do rival, desistisse do casamento... Ora, desistindo o Dias, Diogo estaria em maus lençóis, porque Ana Rosa casava-se logo com Raimundo e ele ficaria sujeito a vingança deste, a quem temia, e com razão, depois daquela pequena conferência à volta de São Brás. “Sei perfeitamente, raciocinava o finório, que o traste não tem nenhuma prova contra mim, mas convém-me, a todo custo, fazê-lo sair do Maranhão!... Seguro morreu de velho!... O que o prende aqui é a esperança de obter ainda Ana Rosa; esta, uma vez casada com o basbaque do Dias, irá, mas o marido , dar um passeio à Europa, e o outro musca-se naturalmente. Mas se por acaso, quiser antes de ir, desmoraliza-me perante o público, todos lançarão à palavra conta do despeito e, além de ridículo, ficará tido como um caluniador!...” E, esfregando as mãos, satisfeito com os seus desígnios, concluía: “Quem o mandou meter-se de gorra cá com o degas!...”

Assim, nas ocasiões em que Dias ia preveni-lo da chegada de uma nova carta de Raimundo, o cônego tratava de estudar, olho de mestre, a impressão que ela deixava no ânimo de afilhada e, vendo o alvoroço em que a rapariga ficara com a última, apressou-se em dizer ao caixeiro:

— Chegou a vez, eu amigo, é agora! Atire-se! Precisamos desta carta!

— E por que nunca precisamos das outras?... perguntou Luís estupidamente.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...104105106107108...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →