Por Aluísio Azevedo (1882)
Januária foi assim. Enviuvou pouco depois de casar e, aos vinte anos, em plena mocidade, na primavera dos seus encantos, quando lhe verdejavam e floresciam as esperanças no coração, ela resistiu a todas as vozes sedutoras, que lhe suspiravam e gemiam em torno dos ouvidos, como se a alma apaixonada de Tenório andasse errante pelo espaço, a cantar eternamente os seus amores egoístas.
Ofereceram-lhe sedas, jóias; falaram-lhe em carruagens; mostraram-lhe, da miserável janela da sua mansarda, o mundo feliz que lá embaixo sé embriagava de prazer. E o marulhar daquele oceano de gozos, e o crepitar dos risos e dos beijos, e o ruído quente dos almoços no campo, pelas manhãs de verão, à sombra das mangueiras ou ao sussurrar das cascatas da Tijuca; nada venceu conquistá-la.
Embalde o champanha transbordou das taças o seu aljofar inebriante; embalde Offenbach atirou aos ares as notas endemoninhadas das suas partituras; embalde os carnavais, os vaudevilies, os hotéis, os circos e as corridas estridularam por toda a parte, chamando à loucura, ao prazer, ao riso! A pobre viúva fechou-se a tudo isso e continuou a aviar encomendas de costura, ao lado de uma velha patativa, que possuía do tempo do marido.
Foi nesse tempo que conheceu o farmacêutico. Januária, quando escassearam as encomendas de costura, desfiava linho usado, para vender o fio nos hospitais e nas casas de caridade. Moreira era um dos seus bons fregueses. Já por essa época explorava ele, com muito sucesso, as feridas do próximo.
Era moço então — teria trinta e cinco anos; não sabemos se já gozava da singular mania do chapéu, mas podemos afirmar que foi ele um dos primeiros demônios dos que tentaram desviar a formosa e ríspida viúva da perfumada e santa obscuridade em que vivia.
A princípio, o farmacêutico, cujos negócios da botica iam já perfeitamente encaminhados, supôs a coisa muito fácil de resolver e declarou francamente a Januária as intenções que mantinha a seu respeito.
— A senhora deve ter uma casita melhor e mais guarnecida do que está, disse ele, com o aspecto desinteressado e superior de quem gosta de fazer o bem pelo bem; deve igualmente passar melhor de boca e poder contar com certas comodidades e certos arranjos domésticos. Roupa, por exemplo: a senhora quase que não tem o que vestir! O querosene estraga-lhe a vista; e este trabalho, tão puxado, pode vir a dar-lhe com os ossos no cemitério! Deve a gente trabalhar para viver e não para matar-se! A senhora puxa demais pelas forças, abusa do trabalho; é impossível que isso não lhe venha a fazer mal!...
— Que remédio!... respondeu ela, com um gesto de resignação; as costuras dão agora tão pouca coisa!...
— Mas para que só conta com as costuras?... A senhora precisava de alguém que a ajudasse; algum rapaz decente e de bons costumes que a protegesse...
— De que modo? perguntou ela, talvez compreendendo já a intenção do farmacêutico.
— Ora, de que modo! Há tantos modo de proteger uma pessoa!...— É por isso mesmo que eu pergunto qual deles e...
— Que modo há de ser?... ligando-se à senhora... Diga-me uma coisa: se lhe aparecesse um rapaz nessas condições e que estivesse disposto a fazer o que eu disse, a senhora não o aceitaria?
— Ah! se ele fosse boa criatura e se se agradasse de mim... não digo que não... mas qual! interrompeu ela com um sorriso triste e ao mesmo tempo gracioso; quem hoje escolhe uma viúva pobre como eu?...
— Quem?! exclamou o Moreira esquentando-se. Um rapaz que eu cá sei!...
— O senhor está gracejando!... observou ela.
— Por Deus que falo a sério!
— E esse rapaz quem é?
— A senhora o conhece...
— Pode ser, mas eu conheço tanta gente!...
— Ele não está longe daqui...
— Não entendo...
— Um pobre farmacêutico, chamado Moreira; não é rico, nem tem dotes físicos, mas passa por boa pessoa...
— O senhor?! perguntou ela, franzindo as sobrancelhas.
— Sim, minha querida Januária, respondeu ele procurando segurar-lhe uma das mãos. Há muito tempo que estou doido por dizer-te isto, mas...
— Mas como, se o senhor é casado?!
— E que tem isso?... Acaso, por ser casado, não posso tomar conta de uma mulher a quem ame?...
A viúva afastou-se tranqüilamente, sem um gesto de indignação, e, quando chegou à entrada do seu quarto, voltou-se e disse ao Moreira com toda a calma:
— O senhor pode retirar-se e tenha a bondade de não voltar aqui, porque não o receberei. Diga a sua mulher que o vestido de fustão está pronto, e que me desculpe não lhe aparecer mais em casa para ir buscar as outras encomendas.
E fechou-se no quarto.
O farmacêutico ficou a olhar um instante para a porta fechada.
— Ora esta! disse ele afinal e ganhou a rua, aborrecido com aquela decepção, mas instintivamente penetrado de respeito pelo caráter da viúva; o que aliás não impediu que, daí por diante, nem só não lhe desse mais trabalho e não lhe comprasse o fio, como também ainda se empenhasse com alguns seus conhecidos para que fizessem outro tanto.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.