Por Aluísio Azevedo (1884)
Seu primeiro ímpeto foi de repreender severamente o culpado, verberar-lhe com energia a “ação indigna” que acabava de praticar; mas pouco depois, veio-lhe uma grande comiseração. “Porque, enfim, coitado, o pobre moço era ainda uma criança...naturalmente fraco...e daí...Quem sabia lá o que teriam feito para o precipitar naquele crime?...
“Sem saber por que, afigurava-se-lhe que o papel de vítima cabia mais a Amâncio do que ao Coqueiro. Este surgia-lhe agora à imaginação, como um Satanás de mágica que deixou fugir de repente, pelo alçapão do teatro, a sua túnica de bom velho peregrino.
Seria até capaz de jurar que, a despeito do disfarce, já de muito lhe havia bispado a saliência dos cornos diabólicos por debaixo do religioso capuz. E pequeninos fastos, que até aí jaziam dispersos e abandonados no seu espírito , vinham, acordando de repente, justificar semelhante transformação.
— Sim! Já em certa época descobrira no Coqueiro tais e tais sintomas de hipocrisia; ouvira-lhe tais e tais frase que o fizeram desconfiar de seu caráter!... não tina que ver! - Já lá estavam as tais pontas diabólicas a espetar o capuz!
E arrependia-se de não haver em tempo desviado o pobre Amâncio daquele perigo: – Andara mal! Devia preveni-lo!...devia ter dado qualquer providência a esse respeito!...
E voltando-se contra si:
— Mas, onde diabo tinha eu esta cabeça, para não ver logo que um homem, — que se casa especulativamente com uma velha do feitio de Mme. Brizard; um homem que consentir à irmã receber presentes e mais presentes de um estranho; um homem que especula com tudo e com todos, um maroto! — Não se mostraria tão agarrado ao rapaz, senão com o propósito firme de lhe pregar alguma?!...Oh! andei mal! Andei mal, como um pedaço de asno!...
E apressou-se a socorrer a ‘Pobre vítima”.
—Ainda se houvesse a hipótese de uma fiança...reconsiderava ele, já em caminho das detenção. — Mas qual! O Dr. Tavares, que lhe levara ao escritório a notícia do escândalo, dissera-lhe que ”o crime era inafiançável e que por conseguinte não se podia evitar a prisão ” Infeliz moço! Infeliz moço! Resmungava o Campos, quase chorando. — Antes nunca ele viesse ao Rio de Janeiro! — Que demônio hei de eu agora escrever à família?...E a pobre D.Ângela?! Coitada, como ficará, quando, em vez do filho, receber a notícia de tanta desgraça?!...Valha-me Deus!
E foi nesse estado que o Campos chegou à Rua do Conde.
Hortênsia não ficou menos impressionada; ao saber do caso empalideceu extraordinariamente e começou a tremer toda. Desde então se tornou apreensiva e nervosa de um modo lastimável; tinha pesadelos, ataques de choro, ameaças de febre e um fastio enorme.
Carlotinha, que se achava nessa ocasião de passeio em casa das Fonsecas de Catumbi, foi logo reclamada a lhe fazer companhia.
Em casa do negociante quase que se não falava de outra coisa que não fosse o processo de Amâncio; pareciam todos empenhados com o mesmo ardor na sorte do “pobre rapaz” Os caixeiros murmuravam pelos cantos do armazém e os criados, sempre desejosos de merecer a atenção dos amos, traziam da rua os cometrários que ouviam ou que inventavam sobre o fato.
E o escândalo, como um líquido derramado, ia escorrendo pelas ruas, pelos becos, penetrando por aqui e por ali, invadindo as repartições públicas, os escritórios comerciais, as redações das folhas e as casa particulares.
Os jornais começavam a explorá-lo.
Na Academia de Medicina e na Escola Politécnica levantavam-se partidos. João Coqueiro bem poucos colegas tinha se seu lado; nem só porque lhe cabia na questão o papel, sempre mais antipático, de agressor, com em virtude de seu gênio insociável e seco. Antigos ressentimentos, que pareciam esquecidos, ressurgiam agora, aproveitando a ocasião para tirar vinganças; daí, — opiniões mal – intencionadas; comentários atrevidos sobre a conduta de Amélia, sobre o caráter mercantil de Mme. Brizard, sobre as velhas brejeirices da Ruas do Resende. Uns se contentavam em fazer conjeturas, outros, porém, tiravam conclusões, e alguns iam ainda mais longe, contando fatos: “Em tal baile do Mozart”, dizia um quartanista de medicina, “estivera com a irmã do Coqueiro, dançara com ela duas valsas e desde então ficara sabendo de quer força era a tal bichinha!...”E seguiam-se pormenores degradantes e revelações descaradas.
Este, sustentava que o João Coqueiro sabia perfeitamente de tudo que lhe ia por casa e que era até o primeiro a mercadejar com a irmã, como seria capaz de fazer com a própria mulher, se houvesse um homem de bastante coragem para afrontar aquele dragão! Estouro, afirmava que lhe não se lamberia com a proteção do carola Teles de Moura, se não foram as legendária relações de Mme. Brizard com o falecido cônego Muniz, ex - redator de um jornal católico.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.