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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Ambrosina, temendo­se em risco de uma agressão do ex­amante, fugiu para o interior da casa, e Gaspar precipitou­se no encalço de Gabriel, que observada a cena, deixara de novo cair sobre ela o reposteiro, e aos esbarrões se afastava pelo corredor.

O médico quis ampará­lo nos braços, o rapaz, porém o repeliu com ímpeto, balbuciando entredentes cerrados pela cólera:

— Desculpe­me ter vindo interrompê­lo nos seus íntimos prazeres... Não pude evitar a mim mesmo esta nova beixeza! Dou­lhe todavia a minha palavra de honra que não a cometi por aquela desgraçada, mas só pelo senhor, a quem eu supunha meu amigo e incapaz de tamanha infâmia!

Não te iludas com o que viste! Eu tudo te explicarei, meu filho!

— Proíbo­lhe que me dê esse tratamento! o senhor nunca foi meu pai, felizmente! E de hoje em diante nada mais há de comum entre nós! Afaste­se de mim!

— Gabriel!

— Não me toque, ou eu o esbofetearei!

E Gabriel, ganhando a porta do corredor, desgalgou a escada.

— Ouve, meu filho! ouve­me por amor de Deus! exclamava o médico já na rua.

Mas o outro havia de carreira alcançado o carro que o esperava na praça, e mandava ao acaso tocar para a frente a toda força.

XL

A POBRE LAVADEIRA

No dia seguinte, Gaspar, verificando que o enteado havia fugido do Rio de Janeiro, sem deixar rastos, sem a ninguém comunicar o destino que levava, meteu­se, ardendo em febre, a bordo do transatlântico em que contava seguir com ele para a Europa, e por sua vez desaparecia da Corte, levando o coração tão despedaçado, quanto é natural que a essas horas acontecesse igualmente com o pobre Gabriel.

Semanas depois desse triste rompimento, que arrojava os dois amigos para longe um do outro, quase toda linfática população fluminense de novo se agitava num delírio de entusiasmo.

É que na véspera Ambrosina estreara no Alcazar. Não se falava em outra cousa; os jornais vinham pejados de elogios à deslumbrante Condessa Vésper, meteram­se em circulação os mais pomposos adjetivos, para dar idéia dos encantos da debutante, e, nas rodas dos habitués do teatrinho francês e dos flanadores da rua do Ouvidor, descreviam­lhe com assombro a perfeição maravilhosa do corpo.

Foi um estrondoso triunfo! Uma das folhas mais lidas, dizia nas suas publicações gerais, que a nova artista era uma glória nacional, e que os brasileiros se enchiam de orgulho ao lembrar­se de que aquele primor de estatuária viva era carioca da gema.

Entretanto, a própria Ambrosina estava bem longe de esperar semelhante fortuna.

Um dia o empresário do Alcazar, o Arnaud, que lhe havia já franqueado o teatro, apareceu­lhe de novo a falar mais insistentemente sobre isso, e, tão bonitos pintou os resultados da estréia, que conseguiu afinal abalar o espírito da loureira.

Mas olhe que eu não sei cantar, homem de Deus!... objetou ela.

— E alguma das que lá tenho o saberá porventura...

— Mas terão boa voz, ao menos!...

— Nom de Dieu! praguejou o empresário francês. Não se pode ter melhor voz do que a sua para o Alcazar!

Ali não queremos voz, queremos jeito! percebe? A questão é de savoir faire!

— Porém é que eu nunca representei em minha vida!...

— E quem lhe pede que represente? Quero é que se mostre! Com esse corpo e essa cara não há que recear do público!

Ambrosina sorriu.

— Além disso... insistiu o Arnaud, o palco lhe realçará o prestígio. Não há para uma mulher bonita melhor moldura que os bastidores e as gambiarras!...

— E a empresa, como vai?...

— Vai mal! Pois se não tenho ninguém!... Aquela meia dúzia de gatas magras que lá estão, desacreditam­me o teatro! Faltam­me boas pernas... Se a senhora me voltar o rosto, o Alcazar — morreu!

E o Arnaud acompanhou a sua última frase com um gesto trágico de profeta; que prevê um fim de mundo.

Ambrosina mostrou­se compungida.

— Morre! é o que digo! A senhora não sei se o salvará, mas pelo menos há de suster­lhe a queda por algum tempo, até que apareça alguém capaz de arriscar ali um par de contos de réis!... oh! exclamou o empresário com ar convicto — aquele teatrinho é uma mina, que se pode explorar com muito pouco dinheiro! A questão é de reformar o jardim e mandar buscar um tenor! Não, não temos absolutamente vislumbre de um tenor! Quando lhe falei à primeira vez, há cousa de sete meses, se a senhora tivesse querido, eu podia nessa ocasião dar­lhe um bom ordenado, mas, o diabo dos negócios foram tão mal de lá para cá, que agora só o que posso fazer é oferecer­lhe sociedade na empresa...

— E você acha que com algum dinheiro se levanta aquilo?...

— Oh! oh! soprou o francês, por única resposta.

— Pois eu me associo com oito contos de réis, e trabalho; serve­lhe?

— Se serve! E afianço­lhe que vai ganhar rios de dinheiro!

(continua...)

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