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#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

Subamos ao consistório da igreja de S. Pedro pela competente escada que se levanta ao lado esquerdo da sacristia.

Não há quem ignore a importância que têm as escadas, quando se precisa delas para subir às alturas a que se deseja chegar. Cobrem-se de flores e de ornamentos os degraus, animam-se e forram-se de seda os corrimões, fazem-se protestações de perpétuo reconhecimento a esses meios indispensáveis para a elevação de quem ainda está de baixo, e que, de ordinário, quebra os corrimões e dá um pontapé nos degraus depois que se acha de cima e com a certeza de não cair. A decepção por que em tal caso passam as escadas é cruel. Mas não há nem desengano nem experiência que aproveite completamente ao mundo. Por isso que, ao tempo que uns tomam juízo ensinados pelo desengano e ilustrados pela experiência, aparecem outros muitos dispostos e prontos a serem enganados, e a servirem de novos fundamentos à lição que transpira daqueles suavíssimos versos de Virgílio:

Sic vos non vobis mellificatis apes, Sic vos non vobis fertis aratra boves, Et coetera.

Não sei se compreendestes bem as observações que acabo de fazer sobre as escadas. Se, porém, apesar da sua simplicidade, ainda precisais de explicações, ide pedi-las a respeito das flores e ornamentos dos degraus, das sedas dos corrimões e dos protestos de perpétuo reconhecimento a todos os políticos e estadistas que ainda não são senadores. E a respeito dos pontapés nas escadas, a muitos daqueles que já têm cadeira no salão da vitalícia.

Por conseqüência, a importância das escadas não admite contestação. Infelizmente, porém, não se entende essa regra com as escadas de pedra e cal, nem com as de pau, e somente com as de carne e osso; e a escada do consistório da igreja de S. Pedro não desafia, pois, interesse algum. Porque é uma simples, estreita e curta escada de pau, e nem ao menos excita a curiosidade pelo esmero da obra.

O consistório da igreja de S. Pedro é, nada mais e nada menos, que uma sala de limitadas proporções, confinando-se com outra sala ou com um largo e espaçoso corredor, que vai terminar dando entrada para o púlpito. Qualquer destas salas, ou antes, o consistório e o vasto corredor que se segue, ressentem-se ainda do estado de abandono em que ficou por muitos anos a igreja de São Pedro, e estão reclamando um conserto pronto, e cuidados e desvelos da administração da irman dade.

O consistório tem em sua face principal um altar que não brilha pelo merecimento artístico. Nesse altar venera-se, como é natural, o príncipe dos apóstolos, representado por uma imagem, aliás imperfeita, e que terá, sem dúvida, de ser substituída, quando se tratar do necessário conserto daquela parte do templo.

À direita do altar, vê-se um quadro da ressurreição da viúva do Levita, e à esquerda, outro, representando a morte de N. Senhora. O primeiro, cópia de uma gravura em miniatura, é do Sr. Pedro Américo de Figueiredo e Melo.

O segundo, que é por certo também uma cópia, é do Sr. Manuel Pereira Reis, que a executou ainda antes de entrar para a Academia das Belas-Artes.

No corredor que faz seguimento ao consistório, acham-se um retrato do Sr. D. João VI e um quadro da Ceia do Senhor.

O retrato não traz, não conserva o nome do artista que o executou. Bem pode ser, porém, devido à paleta feliz do nosso José Leandro.

O quadro, cópia de uma gravura de Rafael Morghen, que, aliás, também a copiara de um painel de Leonardo da Vinci, é ainda do Sr. Manuel Pereira Reis.

Tudo quanto disse no nosso último passeio acerca dos trabalhos destes dois jovens artistas e das premissas do gênio de ambos, premissas que serão conservadas na igreja de São Pedro, tem inteiro cabimento em relação aos três últimos quadros de que acabo de falar.

É na sala do consistório, isto é, no mesmo consistório que se reúne a irmandade de S. Pedro, para celebrar as suas sessões e, portanto, não poucas interessantes histórias poderíamos aqui encontrar, se tão facilmente não as esquecesse a memória dos homens.

Uma, no entanto, ainda até hoje se conservou na lembrança de alguns irmãos de S. Pedro, e que se não é igual àquela travessura eleitoral do velho padre provincial de S. Antônio que vos referi no compe tente passeio, é pelo menos digna de um bom cabalista.

Vou contar a história.

Um padre, ainda em anos deste século, pretendia ser admitido no coro de S. Pedro. Deu-se o caso de uma vaga, apresentou-se candidato e foi reprovado pela mesa da irmandade.

Um cabalista não desanima com as derrotas. Ao contrário, sente-se excitado por elas, e nutre desejos ardentes de novos combates em que, além de colher a palma da vitória, tire desforra das zombarias dos adversários.

(continua...)

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