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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— Mas minha mãe devia lembrar-se que Honorina já disse uma vez que não são iguais as proposições deste mesmo homem.

— Honorina há de dizer que sim, quando pensar que é esse o único meio de salvar sua família.

— Mas o pai de Honorina não há de consentir semelhante sacrifício! eu sei que, se ela ouvir a minha mãe, responderá chorando — sim; fique, porém, minha mãe sabendo que o pai de Honorina dirá por sua vez — não!

A velha fez um movimento de cólera, que não escapou aos olhos de Hugo de Mendonça. — Sossegue, minha mãe; bem vê que se está tratando de minha filha. Vamos à segunda razão.

— A segunda razão, disse Ema com despeito, é que este casamento impediria que se concluísse o outro que projetas; faria com que tu não fosses entregar a única pessoa que me prende ao mundo a um homem miserável e infame!

— Minha mãe, Lauro pediu a mão de Honorina para quando provasse que essa infâmia não tem sido mais que uma calúnia! A velha soltou uma risada sarcástica.

— E quem já assegurou, continuou Hugo de Mendonça, que minha filha se casará com

Lauro?...

Ema olhou espantada para seu filho.

— Porventura Honorina já nos disse que sim?...

— E se ela o não disser, que esperança te restará, Hugo?...

— Minha mãe, a mesma que me restava ontem de manhã.

— A desonra.

— Não: a miséria.

— Sim... tudo sacrificado...

— Tudo, respondeu friamente Hugo de Mendonça.

— E depois darás à tua filha a vida das lágrimas e das privações; rir-te-ás diante de seu pranto; e dirás triunfante: — ao menos não é esposa de Otávio!

Nas palavras de Ema estava derramado todo o fel da mais acerba ironia.

— Não, minha mãe, respondeu o filho; trabalharei noite e dia por minha filha; irei ser um humilde caixeiro, um simples escrevente de cartório, o que primeiro puder ser, enfim; mas trabalharei sempre, e muito... dormirei menos duas horas... vestir-me-ei mal... serei capaz de pedir uma esmola; mas, quando trouxer a Honorina o pão comprado com o suor do meu rosto, eu exultarei, minha mãe; porque no meu coração estarei dizendo a mim mesmo — ao menos não sacrifiquei-a!

— Sim! sim! sim! exclamou a velha despeitada; e quando daqui a um ano, a dois ou três, pagares o tributo de tua vida, tu a deixarás no mundo só, nua, faminta, com um pé na miséria e o outro na desonra; mas do fundo do sepulcro teus ossos estarão dizendo: — ao menos não sacrifiquei-a!...

— Minha mãe! é uma impiedade estar assim redobrando meus tormentos!...

— É que tu estás cavando um abismo debaixo dos pés de tua filha!

— Eu... nós já lhe demos a educação e os exemplos da virtude...

— Mas aí está o mundo...

— E sobre o mundo, minha mãe, está Deus...

A velha entendeu que era tempo de calar-se; e Hugo de Mendonça, que já se achava vestido e pronto para sair, tomou o chapéu.

— Minha mãe, devo sair, disse ele; tenho ainda papéis a ver, passos a dar, e talvez fatos a averiguar. Eu lhe peço que não diga uma única palavra a Honorina a respeito do que se tem passado: devemos querer, quero, que ela tome uma resolução definitiva, sim; mas quero também que o faça livremente; trata-se da felicidade ou da desgraça de toda a sua vida; e já que a seu pai não é dado ler no futuro, faça-se ela feliz ou desgraçada por suas próprias mãos.

Um instante depois Ema ficou só na sala; e Honorina foi de novo abrigar-se no silêncio de seu quarto.

XXXII

Lucrécia

A causa que pleiteavam no coração de Honorina a natureza e o amor, continuava indecisa; porque a sentença tinha sempre de ser um martírio para o juiz. Os litigantes combatiam-se mutuamente com as armas da generosidade; e, talvez a próprio despeito, quando queriam ceder o campo, ainda mais avançavam.

O pai dizia à filha: — não te sacrifiques!

O amante dizia à amada: — salva a teu pai, e esquece-me!

E, se ao morrer de um dia uma carta do moço loiro, na qual ele parecia renunciar a esperança de felicidade, era justamente o que mais em seu favor argumentava, e plantava na alma de Honorina novos direitos a essa esperança; na manhã do outro a prática havida entre Hugo e sua mãe; o voto solene, que fez o extremoso pai de não só não querer, como também de não consentir o menor sacrifício do coração de sua filha, apesar da pobreza e da desgraça que o esperavam, dava dobrada força, enchia de interesse e de ardor a causa da natureza.

E, pois, Honorina, hesitando sempre, lembrou-se, como tantas vezes, da sua fiel amiga; e, acreditando que seus conselhos lhe eram mais que nunca necessários, escreveu-lhe depressa estas poucas palavras:

“Raquel: eu preciso de ti ao pé de mim, como um pecador moribundo precisa ter junto de si um padre compassivo e sábio; faze por ver-me quanto antes; dize a teu pai que eu estou muito doente, ou dize o que melhor te parecer; eu quero pedir-te conselhos, contar-te muitas coisas tristes, e falar-te a respeito... dele.”

(continua...)

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