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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

O hóspede devia partir, deixando o repouso do sítio da Sapucaia, para demandar, no ligeiro ubá de João Pimenta, as paragens perigosas do porto dos Mundurucus, procurando converter ao cristianismo os índios daquela guerreira tribo, cujo sangue corria nas veias da afilhada de padre João da Mata. Era uma empresa heróica, até certo ponto inexplicável para a Clarinha, que não compreendia o móvel verdadeiro da dedicação incrível daquele rapaz de vinte e três anos pela salvação eterna de selvagens desconhecidos, esforço inútil talvez, e que, em todo o caso, não merecia ocupar de modo tão absoluto um padre moço, cheio de vida e belo na sua palidez de convalescente. Não fora com risco de vida que padre João chamara ao grêmio da religião o tuxaua mundurucu que senhoreava agora o pitoresco sítio da Sapucaia, nem mesmo lhe coubera a iniciativa dessa obra de civilização e paciência. Facilitara-lhe muito a tarefa a moça que o Jiquitaia, como se chamava na sua tribo o avô de Felisberto, raptara em Serpa, e que, conformando-se heroicamente com a triste sorte que lhe tocara em partilha na vida, se esforçara por arrancar o tuxaua à vida nômade acenando-lhe com o lucro da colheita do guaraná, e animando-o a ir, furtivamente a princípio, e pouco a pouco às claras, à vila da Conceição de Maués, trocar o produto do trabalho por espingardas, pólvora, chumbo, corais e ricos vestidos de chita de cores vistosas. Depois ela o induzira a batizar a sua única filha, a Benedita, e a receber também por sua vez as águas lustrais do batismo e logo em seguida a matrimoniar-se, para fazer cessar aquele grande escândalo que padre João da Mata, vigário de Maués, não queria ver na sua freguesia, composta na maioria de índios mansos, mundurucus batizados, que ele desejava conduzir pelo caminho da virtude. A catequese do Jiquitaia, que tanta glória dera ao vigário de Maués, fora feita na vila, com descanso e tempo, sem risco de vida nem incômodos de viagem. Padre João da Mata o arrancara à barbaria, batizara-o, casara-o e o estabelecera naquela linda situação do furo da Sapucaia, a que depois o padrinho da Clarinha tanto se afeiçoara, e onde morrera, cedendo à força de velhos achaques e moléstias, mas tranqüilo e repousado, abençoando a afilhada e ouvindo o canto mavioso dos rouxinóis e dos sabiás nas mangueiras do terreiro. Isso sim, era fazer uma catequese. Mas deixar todos os cômodos e gozos que a vida proporciona a um padre moço e formoso, para se aventurar pelos rios do sertão em busca de índios bravos, não era natural, a Clarinha não o compreendia. Padre Antônio tinha um ar de tristeza resignada que lhe falava ao coração. O seu porte elevado, raro dote no Amazonas, a fisionomia jovem e simpática, a regularidade das feições, e, sobretudo, a melancolia profunda de que eram repassadas todas as palavras que dizia, impressionavam a neta de João Pimenta, acostumada às galhofas alegres e às severidades bruscas do finado padre santo e à quase imbecilidade do irmão e do avô. O hóspede tinha hábitos duma elegância desconhecida, naturalmente apreendida nas cidades em que bebera a instrução que o sagrara superior aos outros homens. A batina e o solidéu iam-lhe admiravelmente, as camisas brancas e finas do finado colega, cuidadosamente engomadas pela Clarinha, eram substituídas todos os dias, e saíam-lhe do corpo tão limpas como as havia vestido. Logo que se levantou da cama, onde o prostrara a moléstia, barbeara-se de fresco, e repetira diariamente a operação com as navalhas que haviam servido ao vigário de Maués, e que o Felisberto guardava religiosamente na sua caixa de papelão. A voz, a estatura, o trajar, os hábitos de asseio e de elegância, uma graça e distinção que debalde se procuraria nos raros visitantes do sítio da Sapucaia, unindo-se ao prestígio da batina, atuavam de tal forma sobre a neta de João Pimenta que ela se sentia acanhada e trêmula diante daquele moço que lhe parecia não um homem, nem um padre, mas um ente superior. A sua jovem imaginação de matutinha de quinze anos não estava longe de o supor um Anjo do Senhor, desses de que lhe falava a mãe, nas longas narrativas ao pôr-do-sol, à beira do igarapé, e que vêm ao mundo disfarçados para experimentarem a virtude dos homens. Mais a confirmava nessa crença a persistência do hóspede em se partir dali sem mais demora para ir ao porto dos Mundurucus pregar o Evangelho a selvagens estúpios e ferozes, o que, no modo de pensar da moça, o colocava muito acima da humanidade. Entretanto ela o vira chegar, pálido e sombrio, exausto de forças, a morrer de fadiga, e depois, subjugado pela febre, com os grandes olhos negros ardentes e fixos, balbuciante, alheio a tudo que se passava, parecendo ter perdido a inteligência naquela luta do seu corpo vigoroso com a moléstia cruel que o derribara.

(continua...)

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