Por Aluísio Azevedo (1881)
O fato, porem , é que Manuel andava satisfeito de sua vida . Ouviam-no cantarolar ao serviço; viam-no à porta dos vizinhos, sem chapéu, às vezes em mangas de camisa, a chacotear ruidosamente, afogado em risos; e à noite, em casa, quando chegava o cônego, agora ferrava-lhe sempre um abraço.
— Você é um homem dos diabos, seu compadre. Você é quem as sabe todas!...
— Davus sum non CEpidus!...
A panelinha discutia em particular o grande acontecimento. ”Quem seriam os padrinhos?... Quais seriam os convidados?... Como seria o enxoval?... Como seria o banquete?...” E, em breve, por toda província, falou-se no próximo casamento da filha do Pescada. Comentaram-no, profetizando boas e más consequências; riramse muito de Raimundo; elogiaram, em geral , o procedimento de Ana Rosa: “Sim senhor! pensou como moça de juízo!...” Todos os amigos da casa começaram a preparar-se para a festa, antes mesmo do convite. O Rosinha do Santos andava pouco depois preocupado com o improviso de uma poesia, com que contava reabilitar-se do seu fiasco no dia de São João; o Freitas desfazia-se em discursos, aprovando o fato , mas lastimando Raimundo, cujos artigos e cujos versos ele apreciava convictamente; o Casusa verberava contra os portugueses, furioso porque uma brasileira tão bonita e tão mimos fosse cair nas mãos de um puça fedorento; Amância e Etelvina perdiam horas a boquejar sobre o caso, insistindo a viúva em que, só vendo, acreditaria em semelhante casamento. Afiançavam por toda a parte que a festa seria de arromba; diziam, com assombro respeitoso, que haveria sorvetes, e constava até que o Pescada, só para aquele dia, ia fazer funcionar do novo a máquina de gelo de Santo Antônio.
Mas o domingo fatal, que Raimundo destinara a fuga, chegou finalmente. Por sinal que foi um dia bem aborrecido para a gente do Manuel, porque o cônego não apareceu, como de costume, para a palestra, e ninguém sabia por onde andava Dias. O jantar correu frio, sem pessoas de fora, mas em boa disposição de humor; à mesa, o negociante fez várias considerações sobre o futuro da filha; mostrou-se bom e alegre com o seu corpo de Lisboa; acudiram-lhe anedotas já conhecidas da família; vieram-lhe pilhérias a respeito de casamento; disse, a brincar com a filha, que havia de arranjar-lhe para noivo o Tinoco ou o major Cotia. Ela ria-se exageradamente; estava corada, muito inquieta e nervosa; tinha vontade de acariciar o pai, abraçá-lo, beijá-lo, despedir-se dele. À sobremesa, sentiu um desejo absurdo de contar-lhe com franqueza todo os seus planos, e pedir-lhe, pela última vez, a sua aprovação a favor de Raimundo.
Às seis horas entrou D. Amância; ainda os encontrou no café. Ana Rosa teve uma pontada no coração. “Que contratempo!...” A velha declarou que estava cansada, vinha ofegante; pediu que a deixassem repousar um pouco.
— Que estafa a sua, credo! Subir oito ladeiras no mesmo dia!... — Oito, hein?...
E Ana Rosa mordia os beiços, sorrindo contrariada.
— Contadinhas! É de estrompar uma criatura!
E conversaram largamente sobre as ladeiras do Maranhão.
— Então aquela do Vira Mundo!.. Benza-te Deus!
— Não é pior do que a do Largo do Palácio...
— Deixe estar que a desta sua rua, seu Manuel, também tem o que se lhe diga!...
— E a da Rua do Giz?...
— Um inferno! resumiu a velha, ainda arquejante. Ter a gente de estar sempre a subir e a descer como uma coisa danada! Cruzes!
A conversa continuou, tomando para Ana Rosa um caráter assustador. Amância parecia disposta a dar à língua; não se despregaria dali tão cedo. Os caixeiros recolhiam se já, e a rapariga tremia de impaciência. “Diabo daquela velha não se poria ao fresco?... “ Qual!
O tempo corria.
Manuel declarou daí a pouco, que não saia de casa. Foi buscar os seus jornais portugueses e pôs-se a ler, à mesa de jantar, na varanda.
A pequena quase disparava. Correu para o seu quarto, fula de raiva, chorando. “Também, diabo! tudo parecia conspirar contra ela!.. “
O relógio bateu uma badalada Eram sete e meia Ana Rosa soltou um murro na cabeça “Diabo!”
Manuel bocejava Amância parecia resolvida a não sair.
Ana Rosa voltou à varanda; tinha as mãos frias; o coração queria saltar-lhe de dentro. Sentia uma impaciência saturada de medo; seu desejo era gritar, descompor aquele estafermo da velha, pô-la na rua, aos empurrões, “que fosse amolar a avó!” Semelhantes obstáculos à sua fuga pareciam-lhe uma injustiça, uma falta de consideração; vinha lhe vontade até de queixar-se ao pai; de protestar contra aquelas contrariedades que a faziam sofrer.
Decorreu um quarto de hora. Manuel levantou-se, espreguiçando-se com os jamais na mão.
— Bom! D. Amância dá licença!...
E recolheu-se ao quarto, para dormir.
— Ah!
Ana Rosa criou alma nova; teve vontade de abraçar o pai, agradecendo-lhe tamanha fineza
— Eu também já me vou chegando... disse Amância. E ergueu-se. — Já?... balbuciou a moça, por delicadeza.
A visita tornou a assentar-se; a outra sentiu ímpetos de estrangulá-la.
Maria Barbara veio do quarto, e entabulou conversa com a amiga Ana Rosa arfava
— Diabo!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.