Por Aluísio Azevedo (1895)
D. Margarida o suportava por simples conveniência: o alferes era seu freguês de roupa e gostava de aparecer-lhe à tarde, para cavaquear à janela; um cotovelo sobre o peitoril, as pernas cruzadas, a cuspilhar consecutivamente pedacinhos de fumo que ele mascava do cigarro.
O que ela não podia lhe perdoar era o costume de bebida. O alferes em dias de folga metia-se no gole e escandalizava a rua inteira.
- É todo o seu mal! dizia a velha. Tirando daí, não há melhor criatura!
Ele gostava de brincar com todos; não tinha graça, mas estava sempre disposto a rir; o casamento de André era assunto obrigado das suas pilhérias, quando queria mexer com Inez.
- Ele, a modos que não tem lá essas pressas de casar!...
Chacoteava a respeito do Coruja, apresentando na sua boca de roedor as duas presas isoladas.
Mas, quando a velha tomava a defesa do futuro genro, o Picuinha fazia-se sério e elogiava-o.
- Bom moço... resmungava. Não é dos mais simpáticos, mas muito sisudo, e, dizem que sabe por uma academia!
A velha entrava então a falar sobre o colégio, sobre os altos compromissos de André e no casamento da filha, o qual seria efetuado, impreterivelmente, daí a quatro meses! - E eu cá estou para entrar no bródio! exclamava o alferes, chibateando as calças. - Quero só ver como aquele tipo se sai nesse dia! Consta-me que vai ser coisa de arromba! Ali pela vizinhança da velha com efeito já se boquejava a propósito do casório, e diziam até que o noivo estava muito bem e que o seu colégio era o melhor do Rio de Janeiro.
- Ah! mas também apertado como ele só! afirmava uma amiga de Inez, muito cheirona da vida alheia. Aquilo é criaturinha que traz por conta os cordões do bolso! Não há meio de lhe apanhar uma de X! E depois - que cara de homem, credo! Parece que está sempre arreliado!
O Coruja, em verdade, tornava-se cada vez mais esquisitório e mais e mais farroupilha; não havia meio de obrigá-lo a comprar um fato novo e a resignada Inez, posto não desse demonstrações, tinha já certo vexame quando o via surgir no canto da rua, com a grande cabeça enterrada nos ombros, a jogar o corpo no seu pesado andar de urso.
Em casa de Teobaldo, os criados o olhavam por cima do ombro e o Aguiar chegava muita vez a virar-lhe o rosto.
Dantes o primo de Branca ainda procurava disfarçar a sua repugnância pelo professor, mas agora nem se dava ao trabalho de fazer isso, e, sempre que a dona da casa lhe falava nele, não perdia a ocasião para ridicularizá-lo.
Em geral o pretexto destas zombarias era a famosa história do Brasil.
Branca procurava defender o trabalho do Coruja, chegando até a impacientar-se com aquela grosseira perseguição do primo.
XV
Aguiar, depois que emprestara os seis contos de reis a Teobaldo, deixava transparecer muito mais claramente aos olhos da prima as suas intenções a respeito desta; Branca fingia não dar por isso, mas, de si para si, tomava as suas cautelas contra o sedutor.
Não lhe convinha entretanto denunciá-lo ao marido, não só porque bem poucas vezes entrava em conversa íntima com este, como porque, conhecendo o gênio irrefletido de Teobaldo, temia, em lhe dizendo tudo, armar algum escândalo mais perigoso e lamentável do que o próprio objeto que o promovia.
Uma ocasião, porém, o primo chegou-lhe a falar com tamanha insistência e com tamanha clareza, que ela instintivamente ergueu-se da cadeira em que estava e mediu-o de alto a baixo.
- Por que me trata desse modo?... perguntou o Aguiar, abaixando os olhos e afetando tristeza.
- Porque o senhor assim o merece, respondeu ela imperturbavelmente.
- E terei eu culpa de amá-la tanto?...
- Proíbo-o de repetir semelhante frase, ou ver-me-ei obrigada a tomar medidas mais sérias a este respeito. E, por enquanto, não lhe posso prestar atenção. Com licença.
- Branca! ouça, peço-lhe que me ouça!
- Enquanto não estiver disposto a se portar dignamente para comigo, far-me-á o obséquio de não por os pés nesta casa.
Dito isto, Branca se afastou tranqüilamente, como se viera de dar qualquer ordem a algum dos seus criados, e saiu da sala sem o menor gesto que traísse a sua indignação.
Apesar disso, no entanto, ele não desistiu da sua empresa e, sem se dar por achado com as palavras da prima, continuou a freqüentar a casa, como se nada houvesse sucedido de extraordinário e apenas tratando de disfarçar o seu projeto de novos ataques.
Um belo dia, três meses depois daquela cena, surpreendendo Branca no fundo de um caramanchão que havia na chácara, a ler distraída, tomou-a de improviso pela cintura e caiu-lhe aos pés, exclamando:
- Perdoa, perdoa, se de tudo me esqueço e não resisto a este amor insensato que me consome.
E ia ferrar-lhe um beijo na face, quando Branca, escapando-lhe das mãos, ligeira como um pássaro, lançou-lhe contra o rosto uma bofetada.
Ele ergueu-se rubro de cólera e encarou-a de frente.
- Rua! fez ela, apontando-lhe a saída. Já!
Ele não se mexeu.
- Já! não ouviu?! Não quero que fique aqui nem mais um instante! Rua!
- Enxota-me?!
- E, se não me quiser obedecer, juro-lhe que Teobaldo a isso o constrangerá!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.