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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Lá em cima foi recebido pela própria Ambrosina, que, como acabamos de ver, se havia preparado intencionalmente para aquela entrevista.

Vestia ela um amplo penteador de rendas transparentes, que deixavam adivinhar meia verdade do mistério das suas formas, calçava meia de seda listrada e chinela turca. Tinha os cabelos submetidos a uma trança única, que lhe caía nas costas como uma serpente viva, e os braços libertavam­se das fartas mangas do roupão e apareciam dominadores na sua pecaminosa nudez, apenas algemados por um par de pulseiras circassianas.

Quando Gaspar penetrou na voluptuosa câmara, dubiamente iluminada por uma lâmpada cor de lírio, sentiu­se abalado por uma doce e estranha saudade, que o transportava suavemente às cenas da sua juventude. A memória de Violante assistiu­lhe ao coração de um modo doloroso e lúcido, e ele parou, comovido, a contemplar Ambrosina estendida no divã.

A tentadora sorria, a fumar um cigarro de tabaco oriental, e, com um gesto delicioso, disse­lhe que corresse o reposteiro da porta e fosse assentar­se ao lado dela.

O médico obedeceu, quase sem consciência do que fazia.

— Estamos em completa liberdade, acrescentou Ambrosina, beijando­lhe as mãos. Podemos conversar de coração aberto...

— Aqui me tem, balbuciou Gaspar. Vamos a saber o que me ordena...

— Que não me fales desse modo... eis o que te ordeno antes de tudo... Quero­te mais camarada, mais íntimo, mais chegado a mim...

E arrastou­se toda ela para ele, puxando para o seu colo a cabeça do médico.

— Vamos... disse este, desviando­se; falemos do que importa... Deste modo não chegaremos a nenhuma conclusão!...

— Há tempo!... contrapôs Ambrosina, quase ressentida. Façamos primeiro uma ceiazita à la bohême. Estou com apetite, e temos aqui mesmo o que trincar, sem precisarmos de ninguém.

E, tapando com as mãos os ouvidos para não escutar os protestos da visita, correu a buscar a mesinha de laca, e ela mesma serviu ostras frescas, pão, espargos, morangos e champanha.

Em seguida, fez Gaspar assentar­se à mesa e, pondo­se de novo ao lado dele, pediu­lhe que abrisse a garrafa, e ia já atacando as ostras, muito lambareira e sensual, a lamber com língua de gata a rósea ponta dos dedos e a dar estalinhos com a língua contra o céu da boca.

O médico mal tocava no prato por comprazer; dizia­se indisposto e começava, contrariado, a franzir as sobrancelhas; Ambrosina, porém, não desanimava e, enquanto comia e bebia, fazia­lhe infantis carícias e conversava alegremente.

Palraram sobre a viagem no dia seguinte, veio a pêlo a famosa carta por ela dirigida a Gabriel, e Ambrosina a reclamou logo; queria queimá­la, para que não permanecesse vestígio do seu primitivo amor.

Gaspar concordou e apressou­se a sacar a carta do bolso. Veio com ela de envolto uma fotografia.

— E de alguma mulher?!... Deixa­ma ver! pediu Ambrosina, com grande empenho.

— Qual mulher! É de um sobrinho meu... Aí a tem veja!

Ambrosina ficou séria. o retrato era do rapaz que tão insolitamente a fitara à saída do Alcazar.

— Quem é este sujeito?...

— Um sobrinho meu, acabo de dizer.

— Chama­se?...

— Gustavo Mostella.

— Ah!

— É um excelente rapaz. Tem talento e tem caráter...

— Não me parece boa...

— Engana­se...

— Muito antipático!...

— Não acho...

E Ambrosina ficou a olhar longamente para a fotografia; depois, atirou com esta para junto do prato de Gaspar e disse, espreguiçando­se:.

— Ai! ai! Tenho um pouco de preguiça...

— Quer que me retire?

— Não. Que lembrança!... Quero ao contrário, que me deixes encostar ao teu colo...

E, sem esperar pela resposta, estendeu­se no colo do médico.

Este via­lhe os olhos cerrados a meio, via­lhe a boca entreaberta, a mostrar a pérola dos dentes, vialhe a carnação deliciosa da garganta, a transparência da pele, o cor­de­rosa das narinas, e sentia­lhe o aroma dos cabelos; mas sua fisionomia não denunciou o menor abalo interior. A máscara do rosto conservou­se inalterável.

— Estou meio tonta... segredou Ambrosina. Leva­me para a alcova, sim? Conversaremos lá...

Mas, com uma idéia súbita, exclamou despertando:

— Ah! É verdade! Fechaste a porta da rua?

— Não decerto...

— Espera então um instante... Dispensei os criados... Vou eu mesmo fechá­la, para ficarmos mais à vontade.

— Não é preciso tomar esse incômodo... eu me encarrego disso agora ao sair. Adeus.

E Gaspar ergueu­se, decidido irrevogavelmente a retirar­se, mas a rapariga não lhe deu tempo para fugir: com um gesto profissional e certeiro, passou­lhe os hábeis braços em volta do pescoço, grudando­se toda a ele e prendendo­lhe os lábios com os dentes.

O Médico Misterioso ia arrojá­la de si, quando de súbito se arredou o reposteiro da entrada, deixando ver o vulto transformado de Gabriel, que, trêmulo e arquejante, olhos em fogo, os observava mas pálido que um cadáver.

Um só grito se ouviu, feito da exclamação dos outros dois.

(continua...)

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