Por Gabriel Soares de Sousa (1587)
Digamos logo dos mosquitos, a que chamam nhitinga; e são muito pequenos e da feição das moscas; os quais não mordem, mas são muito enfadonhos, porque se põem nos olhos, nos narizes; e não deixam dormir de dia no campo, se não faz vento. Estes são amigos de chagas, e chupam-lhe a peçonha que têm; e se se vão pôr em qualquer coçadura de pessoa sã, deixam-lhe a peçonha nela, do que se vêm muitas pessoas a encher de boubas. Estes mosquitos seguem sempre em bandos as índias, que andam nuas, mormente quando andam sujas do seu costume.Marguis são uns mosquitos que se criam ao longo do salgado, e outros na terra perto da água, e aparecem quando não há vento; e são tamanhos como um pontinho de pena, os quais onde chegam são fogo de tamanha comichão e ardor que fazem perder a paciência, mormente quando as águas são vivas; e crescem em partes despovoadas; e se lhes põem a mão, desfazem-se logo em pó.Há outra casta, que se cria entre os mangues, a que os índios chamam inhatium, que tem as pernas compridas, e zunem de noite, e mordem a quem anda onde os há, que é ao longo do mar; mas se faz vento não aparece nenhum.Pium é outra casta de mosquitos tamanhos como pulgas grandes com asas; e em chegando estes à carne, logo sangram sem se sentir, e em lhes tocando com a mão, se esborracham; os quais estão cheios de sangue; cuja mordedura causa muita comichão depois, e quer-se espremida do sangue por não fazer guadelhão na carne. Há outra casta de mosquitos, a que os índios chamam nhatium-açu; estes são de pernas compridas, e mordem e zunem pontualmente como os que há na Espanha, que entram nas casas onde há fogo; e de que todos são inimigos.Também se cria na Bahia outra imundície, a que chamamos brocas, que são como pulgas, e voam sem lhe enxergarem as asas; as quais furam as pipas do vinho e do vinagre, de maneira que fazem muita perda, se as não vigiam; e furam todas as pipas e barris vazios, salvo se tiveram azeite; e nas terras povoadas de pouco fazem mui dano.Há também grande cópia de grilos na Bahia, que se criam pelo mato e campos; que andam em bandos, como gafanhotos; e se criam também nas casas de palha, enquanto são novas, nas quais se recolhem muitos entre a palma que vem do mato; os quais são muito daninhos, porque roem muito os vestidos a que podem chegar; e metem-se muitas vezes nas caixas, onde fazem destruição no fato que acham no chão, o qual cortam de maneira que parece cortado a tesoura; mas como as casas são defumadas recolhem-se todos para o mato; estes são grandes e pequenos e têm asinhas; e saltam como gafanhotos.Também se criam nestas partes muitos besouros, a que os índios chamam unaúna; mas não fazem tão ruim feitio com as maçãs que fazem os da Espanha; andam por lugares sujos, têm asas, e são negros; com a cabeça, pescoço e pernas muito resplandecentes, e tudo muito duro, mas são muito maiores que os da Espanha; e têm dois cornos virados com as pontas uns para os outros; e parecem de azeviche.
C A P Í T U L O XCIV
Em que se declara a natureza das antas do Brasil.
Apontamentos das alimárias que se criam na Bahia e da condição e natureza delas. Bem podemos dizer neste lugar que alimárias se mantêm e criam com a fertilidade da Bahia, para se acabar de crer e entender o muito que se diz de suas grandezas.E comecemos das antas, a que os índios chamam tapiruçu, por ser a maior alimária que esta terra cria; as quais são pardas, com o cabelo assentado, do tamanho de uma mula mas mais baixas das pernas; e têm as unhas fendidas como vaca, e o rabo muito curto, sem mais cabelo que nas ancas; e têm o focinho como mula, e o beiço de cima mais comprido que o de baixo, em que têm muita força. Não correm muito, e são pesadas para saltar; defendem-se estas alimárias no mato, com as mãos, das outras alimárias, com o que fazem dano aonde chegam; comem frutas silvestres e ervas; e parem uma só criança; e enquanto são pequenas são raiadas de preto e amarelo tostado ao comprido do corpo, e são muito formosas; mas, depois de grandes, tornam-se pardas; e enquanto os filhos não andam, estão os machos por eles e enquanto a fêmea vai buscar de comer. Matam-nas em fojos, em que caem, às flechadas. A carne é muito gostosa, como a de vaca, mas não tem sebo; e quer-se bem cozida, porque é dura; e tem o cacho como maçã do peito da vaca; e no peito não tem nada. Os ossos destas alimárias, queimados e dados a beber, são bons para estancar câmaras; as suas peles são muito rijas, e em muitas partes as não passa flecha, ainda que seja de bom braço, as quais os índios comem cozidas pegadas com a carne. Destas peles, se são bem curtidas, se fazem mui boas couraças, que as não passa estocada.Se tomam estas antas pequenas, criam-se em casa, onde se fazem muito domésticas, e tão mansas que comem as espinhas, os ossos, com os cachorros e gatos de mistura; e brincam todos juntos.
C A P Í T U L O XCV
Em que se trata de uma alimária que se chama jaguaretê.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BRASIL. Tratado descritivo do Brasil. Portal Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=38095. Acesso em: 30 nov. 2025.