Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Vinha-lhe um desejo de vê-la melhor, sem a prevenção injustificável que nutria desde que a avistara pela primeira vez de pé sobre o tronco de palmeira; de examinar-lhe as feições, sondar-lhe com o olhar o coração para saber se, aquela ingenuidade aparente era real ou simulada Ao mesmo tempo a sua curiosidade revestia-se, com grande espanto seu, duma ligeira malícia, a que se não podia furtar ouvindo tantas vezes a história de padre João da Mata e da Benedita, a filha da moça furtada por João Pimenta em Serpa. Ao chegar a Silves, havia seis ou sete meses, ouvira falar da morte do vigário de Maués, de quem se diziam coisas realmente esquisitas, falando-se vagamente dum sítio, um verdadeiro paraíso, perdido nos sertões do Guaranatuba, onde o João da Mata escondia com intransigente ciúme uma formosa mameluca, que os regatões, que por acaso se haviam aventurado àquelas remotas regiões, entreviam apenas de longe, passando como uma sombra esquiva pelos vãos das portas interiores. Â existência dessa criatura, a quem a imaginação popular dava prodígios de formosura, se atribuíam as freqüentes ausências de padre João da Mata, que não parecia comprazer-se na convivência dos seus paroquianos, antes, demorava-se na vila somente o tempo indispensável para não faltar de todo às exigências do culto divino. Entretanto, um dia o velho tuxaua João Pimenta trouxera em uma rede o corpo duma mulher que dizia ser sua filha, e que declarara querer ser enterrada em sagrado. Apesar da enorme curiosidade que o fato despertara, ninguém se atrevera a ir espiar o rosto da morta, envolvido numa grande mantilha de linho branco, e nos assentos da paróquia, afirmara o sacristão Firmino, em íntima palestra, padre João da Mata inscrevera o nome de Benedita Pimenta, solteira, de vinte e dois anos de idade. Mas, coisa que desnorteara os curiosos habitantes da antiga aldeia tapuia, nem por esse fato deixara o reverendíssimo vigário de freqüentar o sítio da Sapucaia, onde com o correr dos anos, parecia demorar-se mais tempo do que em vida da famosa mameluca, até que um dia, fora no mês de fevereiro, o João Pimenta, desta vez acompanhado pelo seu neto Felisberto, viera trazer à vila o corpo de padre santo João da Mata, para ser enterrado em sagrado. Os habitantes de Maués e de Silves numa puderam saber o que prendia tanto padre João da Mata àquele sítio do remoto sertão da Sapucaia, pois não era crível que só a recordação da Benedita lhe tornasse agradável aquele retiro selvagem, e desse enigma que por tanto tempo desafiara a argúcia dos bisbilhoteiros do alto Amazonas, julgava padre Antônio possuir a solução na existência da neta de João Pimenta, de quem estava agora o Felisberto dizendo maravilhas. Mas então não podia ser uma simples mameluca como as outras essa criança que soubera cativar dum modo tão absoluto o velho padre João, fazendo-o esquecido dos sagrados deveres do seu cargo. Alguma coisa de extraordinário teria, que lhe passara desapercebido ou que a sua prevenção o impedira de ver. Não levaria muito tempo em descobrir a razão de ser daquele fato que começava a interessá-lo descomunalmente, chegando a causar-lhe sérias apreensões sobre a serenidade do seu espírito. Já o prestar benévolo ouvido às histórias do Felisberto, o relembrar as maledicências de Silves sobre o seu finado colega, era um pecado que estava cometendo, e de que se arrependia ao mesmo tempo, pesando-lhe como uma falta grave.

Aquele romance de amor sacrílego, de que não podia desviar a atenção, atraía-o poderosamente, posto que a consciência lhe remordesse o erro, advertindoo da insânia que se ia pouco a pouco apoderando da sua mente, levando-o a um desregramento grave na sua austera vida de ministro duma religião de paz e castidade. Bem conhecia o erro, a que o forçava o persistente inimigo da sua alma,

querendo arrastá-lo para o mal, que pressentia já, vago e indefinido; mas sentia ao mesmo tempo um prazer estranho, uma volúpia nova, na satisfação daquela curiosidade doentia, que o levara a ocupar-se de negócio tão indigno de si, da sua missão, e do caráter que a sua profissão lhe impunha. E enquanto o Felisberto falava interminavelmente, à beira da cama, com os olhos parados e o seu sorriso de pobre de espírito, padre Antônio de Morais pensava no atrativo que prendera padre João da Mata ao sítio da Sapucaia.

CAPITULO XI

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...102103104105106...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →