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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

O rapaz vivia agora muito aborrecido e muito nervoso estava macambúzio; não queria ver ninguém. Às vezes assustava-se todo quando a criada lhe entrava inesperadamente no quarta. Deixou crescer a barba; já mal cuidava de si; lia pouco e ainda menos escrevia As suas relações, granjeadas por intermédio do tio, fecharam-se logo como golpes em manteiga. Não se despregava nunca de casa porque, sendo Ana Rosa o único motivo de sua demora no Maranhão, só ela o interessava e o atraia à nua.

Ana Rosa, porém, era guardada a vista, desde a malograda partida do primo. E, não obstante, as visitas de Manuel abstinham-se de falar em Raimundo; estabeleceu-se uma hipócrita indiferença em torno do fato; ninguém dava palavra a esse respeito, mas todos sentiam perfeitamente que o escândalo ainda, abafado mas palpitante, espreitando a primeira ocasião para rebentar de novo E a panelinha da casa do negociante, esperava, esperava, reunida à noite até as horas regimentais do chá com o pão torrado, conversando em mil assuntos, menos naquele que mais interessava a todos eles, posto que nenhum tivesse coragem de iniciá-lo.

Mas a primeira semana correu sem novidade, e a segunda, a terceira, a quarta; foram-se dois meses, e a panelinha afrouxou desanimada. Eufrásia, a pouco e pouco, ausentara-se de todo; Lindoca, chumbada à sua obesidade, prendera o Freitas ao seu lado; o Campos moscara-se afinal para a roga; o José Roberto afastara-se também, e vivia por ai, na pândega; só quem não desertou, e aparecia com a mesma regularidade, era D Amância Sousellas pronta sempre para tudo, sempre a dizer mal da vida alheia nunca deixando de clamar que os tempos estavam outros e que hoje em dia os cabras queriam meter o nariz em tudo.

— Também se lhe dão confiança!... disse ela, uma noite, envesgando uma olhadela indireta sobre Ana Rosa.

A filha de Manuel cruzou instintivamente os braços sobre o ventre.

CAPÍTULO XVII

E passaram se três meses. Ana Rosa, ao contrário do que era de esperar, parecia mais tranquila; a vigilância contra ela diminuíra consideravelmente: o cônego fosse por cálculo ou fosse por cumprimento de dever, guardara o segredo da confissão. A casa de Manuel havia, enfim, recaído na sua coma e profunda tranquilidade burguesa.

De tudo isto Raimundo recebera parte fielmente; e deliberou jogar a última cartada. Escreveu à amante, marcando o dia da fuga. Ana Rosa adoeceu de contente. A coisa seria no próximo domingo; ele faria um carro esperá-la ao canto da rua e uma vez que estivessem juntos, fugiriam para lugar seguro. O raptor não seria facilmente reconhecido, porque as barbas lhe transformavam de todo a fisionomia. “No entanto, dizia ele na carta domingo, às oito da noite hora em que teu pai costuma conversar na botica do Vidal quando os vizinhos e caixeiros ainda estão no passeio e tua avó aos cuidados da Mônica que é nossa, nessa ocasião um sujeito barbado vestido de preto, associará junto à tua porta uma música tua conhecida. Esse sujeito sou eu. Ao meu sinal descerás cautelosamente e sem risco algum. O resto fica por minha conta, a casa que nos há de receber e o padre que nos casará, estarão nesse momento à nossa disposição. Ânimo! e até domingo as oito horas da noite.”

“P.S. - Toda a cautela é pouca!...”

Ana Rosa durante os poucos dias que faltavam para a fuga, não fazia mais do que sonhar se na futura felicidade; estava sobressaltada e ao mesmo tempo radiante de satisfação; mal se alimentava, mal dormia, cheia de uma impaciência frenética que lhe dava vertigens de febre. No egoísmo da sua alegria materna suportava de mau humor as poucas amigas que a procuravam ou os velhos companheiros de Manuel, que às vezes apareciam para jantar. Mas ninguém parecia, nem por sombras desconfiar dos seus planos; ao contrário em casa falavase, à boca cheia na obediência daquela boa filha tão resignada à vontade do pai, e cochichava-se devotamente sobre o salutar efeito da confissão. Maria Bárbara resplandecia de triunfo e como os outros da família, redobrava de solicitudes para com a neta; Ana Rosa era tratada como uma criança convalescente de moléstia mortal, cercavam na de pequenas delicadezas e mimos amorosos, evitavam-lhe contrariedades. Perdoavam-lhe os caprichos e as rabugices. O cônego, malgrado o que sabia, nunca se lhe mostrara tão paternal e tão meigo. E os Dias, o inalterável Dias, ia surdamente ganhando certo predomínio sobre seus colegas, que principiavam já respeitá-lo como patrão, porque viam iminente o seu casamento com Ana Rosa.

— Está de dentro! Está ali, está entrando pra sociedade!... rosnavam os caixeiros do Pescada, depois de comentar os novos ares com que a menina tratava Luís.

Ela com efeito, agora o acolhia com menos repugnância; uma vez chegou mesmo a sorrir para ele. Este sorriso, porém, tão mal entendido por todos, nada mais era do contentamento de quem observa o precipício por onde passou e do qual se considera livre.

(continua...)

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