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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— Tenho medo das conseqüências! Quando me lembro do modo austero pelo qual eu própria acusava as mulheres levianas.. fico envergonhada, acredita!

— Não penses nisso!...

— Não posso deixar de pensar. É tão bonito uma mulher conservar-se honesta!...

— Não penses nisso, repetiu Gregório, procurando chamá-la ao amor.

Olímpia ia abandonar-se, quando um barulho surdo, de corpo que cai no soalho, a sobressaltou.

— Que é isto?! exclamou ela, correndo para a porta, trêmula.

Jacó e os outros servos haviam já acudido ao estranho ruído. O choque partira do quarto do comendador. Jacó começou a bater na porta do gabinete. Ninguém respondia.

— Que sucedeu a meu pai?! gritou Olímpia, já muito pálida, sem poder dar mais um passo, porque o corpo lhe tremia todo.

Ouviram-se então uns roncos guturais dentro do gabinete.

— Ai! gritou Olímpia, perdendo os sentidos e estrebuchando. Gregório apoderou-se dela, enquanto os criados arrombavam a porta do quarto do comendador.

Encontraram-no estendido no chão, roxo, com os olhos no branco, a boca aberta, a língua inchada, e os membros contraídos. A burra estava afastada do seu lugar, via-se o segredo da parede aberto e vazio. Sobre a mesa papéis revoltos. O quarto em desordem, denunciava que pouco antes houvera ali a busca desesperada de qualquer objeto.

CAPÍTULO XXVIII

PERPÉTUAS, VIOLETAS E CAMÉLIAS

A casa ficou logo numa grande atrapalhação. Olímpia foi conduzida em gritos para o seu quarto. Dois criados correram a chamar o primeiro médico que encontrassem, e Jacó ajoelhou-se soluçando ao lado do amo.

Ninguém mais se entendia. Figueiredo, que fora prevenido da catástrofe, apresentou-se esbaforido, a perguntar o que sucedera naquela casa. Ninguém sabia explicar o que era.

Chegou afinal o médico. O comendador passou carregado para a alcova, e o seu ex-sócio, com o bom senso prático de que dispunha, tratou logo, inalteravelmente, de vedar a quem quer que fosse a entrada no gabinete.

Mais tarde apareceram outros facultativos e começaram logo a chegar visitas de amizade.

Olímpia ficou prostrada de febre; as crises repetiam-se-lhe quase sem intermitência. O Dr. Dermeval não lhe abandonava a cabeceira.

O comendador expirara à meia-noite, depois de esgotados todos os recursos da medicina; e, como não pudessem contar com a filha, que continuava sem dar acordo de si, o subdelegado da freguesia, acompanhado de competente escrivão, mandou proceder à aposição dos selos nas portas do gabinete em que se achava o incompleto testamento do morto.

Só dois dias depois, quando alcançaram cinco testemunhas, a mesma autoridade tornou a abrir as portas, para se formar o testamento nuncupativo.

Olímpia por esse tempo havia sido conduzida já para a casa do Figueiredo.

Não lhe disseram que o pai deixara de existir.

O enterro saiu às cinco horas da tarde do dia imediato ao falecimento do comendador. Foi muito concorrido. O comércio abalou-se; os carros formaram uma serpente negra, que se estendia por toda a praia de Botafogo. Um poeta da época, amigo de algum dos caixeiros do Figueiredo, recitou uma poesia, de que se falou depois, entre negociantes, com muito agrado, e o Jornal do Comércio publicou, na sua parte ineditorial, um artigo sério a respeito do falecido, pondo-lhe em relevo as qualidades práticas, as suas virtudes de pai de família e os serviços que ele em vida prestara ao Brasil, como sócio benemérito de várias instituições filantrópicas.

O testamento do comendador Ferreira causou muita impressão; era um testamento original. O pobre homem fora surpreendido pela morte, justamente na ocasião em que reunia os seus papéis e formulava as suas disposições. Encontraram um aglomerado de notas e declarações.

Havia várias referências. O falecido deserdava a mulher, porque se casara com escritura de separação perpétua de bens. Referia-se o testador a uma declaração de Luiz Portela, a qual não apareceu no lugar indicado; havia também uma referência acerca de certo cofre de ferro, contendo cinco mil libras esterlinas, que o falecido legava à sua filha Olímpia. O cofre não apareceu igualmente.

Deram-se logo as providências para se proceder a inquérito no empregado que se encarregara da escrita do comendador e no pessoal da casa. João Rosa estava ausente.

Constava ainda, nas disposições do morto, de um legado de vinte contos destinados ao advogado que se quisesse encarregar de proceder contra Portela. E, no caso que esse dinheiro não pudesse ter semelhante aplicação, deveria reverter, no fim de dez anos, em beneficio do Gabinete Português de Leitura. Isso mesmo dizia o falecido em uma carta dirigida à redação do Jornal do Comércio.

O mais eram disposições sobre bens móveis e imóveis.

Portela achou muito prudente ir à Europa buscar um novo sortimento de vinhos. Mas um amigo seu, entendido em tricas do foro, afiançou-lhe que as declarações do comendador não faziam fé perante a lei.

E Portela que estivesse descansado: não lhe poderia suceder por aí violência alguma.

(continua...)

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