Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— E por enquanto...acrescentou o chicanista, consultando apressado o relógio — não tenho de meu nem mais um segundo!

E despedindo o outro com um aperto de mão:

— Olhe! Procure-me logo mais na polícia, ao meio-dia. Estou lá à sua espera. — Pode ir descansado. Adeus!

E empurrando-o brandamente:

— Não deixe de ir, hein?...Meio-dia em ponto! Adeus! Desculpe!

Coqueiro saiu, mastigando agradecimentos.

Estava agora mais tranqüilo; — a fama do Dr. Teles de Moura enchia-o de esperanças radiosas. “Sua causa não podia cair em melhores mãos!”

* * *

E a verdade é que ele, industriado pela raposa velha, obteve um mandado de notificação, obrigando Amâncio a comparecer na polícia, imediatamente, para investigações policiais, e peitou o oficial de justiça e arranjou dois secretas e, afinal, o amante da irmã foi conduzido à presença do delegado de semana e daí levado à detenção, donde só sairia para responder ao primeiro interrogatório..

O advogado requereu corpo de delito na ofendida e, para a seguinte audiência, o comparecimento dos outros dois inquilinos que, por ocasião do crime, moravam na casa de pensão, — O Dr. Tavares e o guarda-livros.

No inquérito, duas testemunhas fizeram-se ouvir contra Amâncio; um taverneiro das Laranjeiras — bicho gordo, cabeludo, a pele cor de telha e dono de uma venda que encostava os fundos com os da casa de Amélia, e um alferesinho de polícia, noutro tempo vizinho do queixoso em Santa Teresa e agora morador do casarão da Rua do Resende,— Homenzinho magro, pobre de sangue, olhos fundos e a boca devastada por uma anodontia horrorosa.

Amâncio , que ainda não conhecia de perto o que vinhas a ser “um processo” e estava longe de imaginar as tricas e os ardis de que costumam lançar mão os litigantes para defender ou acusar um pobre – diabo que a justiça lhe atira às unhas, ficou pasmo, quando, na ocasião de assinar os atos e termos, leu a matéria do fato criminoso que lhe argüíam.

O alferes declarou em substância que: “na noite de 16 de julho do ano tal, pela uma hora da madrugada, estando em Santa Teresa, no sótão que então ocupava, (o qual era místico ao sótão de uma outra casa onde, viera a saber mais tarde, residira Amâncio ), ouviu daí partirem gemidos angustiados e uma voz fraca, de mulher, a dizer: Solte-me! Solte-me! Não me force! E que tomado de curiosidade, trepara-se ao muro do quintal e pusera-se a espreitar para a casa do vizinho, e, então, percebera distintamente que um homem violentava uma rapariga; e que depois cessaram as vozes e só se ouviram suspiros e soluços abafados”.

O taverneiro depunha que: “naquela mesma noite, estando casualmente de passeio em Santa Teresa, ouvira, ao passar pela casa onde então residia João Coqueiro com a família, uma altercação de duas vozes, na qual se destacava uma de mulher que chorava, implorando piedade e suplicando, por amor de Deus, que a não desonrassem” .

E tudo isso estava perfeitamente de acordo com que já havia declarado o Coqueiro. Dissera este que: “nessa mesma noite se recolhera às três horas da madrugada, pois estivera até então em Botafogo, na companhia de seu colega Firmino de Azevedo, e que, ao entrar em casa, ouvira leves gemidos no quarto da irmã e, chamando por esta da varanda e perguntando-lhe o que tinha, ela respondera que — não era nada, apenas havia acordado às voltas com um pesadelo; mas que ele, Coqueiro, apesar dessa explicação, ficou muito sobressaltado e ainda mais, quando, depois de acordar a esposa, que dormia profundamente, e perguntar-lhe se houvera em casa alguma novidade durante a sua ausência, lhe ouvira dizer que — até às nove horas da noite podia afiançar que nada acontecera, mas que, daí em diante, não sabia, visto que, sentindo-se àquela hora muito incomodada, se havia recolhido ao quarto com seu filho

César e, como usava água de flor de laranja para os padecimentos nervosos, supunha ter essa noite medido mal a dose e tomado demais o remédio, em virtude do estranho e profundo sono que se apoderou dela até o momento em que o marido a chamara. — Por conseguinte, das nove horas da noite às três da madrugada, Amâncio e Amélia haviam ficado em plena liberdade”.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...101102103104105...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →