Por Aluísio Azevedo (1897)
Era ali, naquele teatrinho da estreita rua da Vala, entalado entre casas de comércio a retalho, que todas as noites a gente folgazã da Corte, e os mais que dela dependiam, iam buscar de ponto em branco o seu quinhão de gozo para os sentidos esfalfados; mas era lá também que muito desgraçado ia pedir ao ruído do alheio prazer o esquecimento das próprias agonias, de surdas e inconfessáveis dores, ou ia cavar, com um sorriso mais triste que o esgar de um enforcado, os dois milréis para as primeiras compras da casa no dia seguinte. Á sombra daqueles amarelecidos bambus, se encontravam os infelizes de toda a espécie, os infelizes que choram para fora, e os infelizes que choram para dentro; ao lado do vagabundo lamuriento e pedinchão, lá estava, em boa aparência, o mísero chefe de família desonrado pelo luxo da mulher e das filhas, o falido e risonho financeiro, vivendo, a cliquot e havana, à custa das regalias do seu débito à Praça; lá estava o político vendido e garboso da sua venalidade, e artista sem ânimo, e jornalistas dispépticos, e cômicos notívagos, e jogadores profissionais, e lindos mancebos de lábios alugados ao amor das dissolutas.
E desse elemento vário se compunha a enorme roda, que nessa noite cercava ruidosamente no Alcazar a formosa Condessa Vésper.
Ambrosina havia já criado, em torno dos seus cruéis sorrisos de amor, uma grande e rubra auréola de escândalos. Contavam dela fatos extraordinários de petulância e originalidade orgíaca, atribuíamlhe no gênero todas as anedotas sem dono que vagavam pelo Rio de Janeiro, diziam com assombro os milhões que a Condessa desbaratara, as ruínas que a seus pés abrira, e as vítimas de amor que até aí fizera.
Ali, dentre todas aquelas almas escravas dos sentidos e despojadas de ideal, era ela talvez a única verdadeiramente feliz. Sentiase radiante no meio da sua corte de libertinos, cercada de olhares suplicantes e aduladores sorrisos, alvo de desejos, de elogios e de invejas.
Em torno da sua mesa agitavase a multidão curiosa e fascinada; as suas palavras eram acolhidas pelos companheiros de roda, como geniais preceitos, que enobrecem os primeiros ouvidos que os escutam. Ao seu lado, o Lopes Filho, o Rocha Coelho, o Reguinho e aquele célebre cogumelo Costa Mendonça, atentos e cerimoniosos, desfaziamse em galanterias.
A Condessa não obstante protestava que ia fugir para casa, porque estava domesticando um urso branco, que entraria na jaula à meianoite.
— Não se vá ainda... pedia labioso o deputado pela Bahia. Deixe isso para outra vez... Vamos cear ao Paris... o urso não fugirá!...
Ela, porém, não atendeu, ergueuse, fez um geral e gracioso cumprimento à roda, e saiu acompanhada de longe por um imenso grupo de táticos admiradores, e de perto por aqueles quatro embeiçados, que a conduziam até à carruagem, disputando entre si a suprema honra de lhe dar o braço..
Ao entrar no carro, notou que da porta do teatro um rapaz, ainda muito moço lhe acompanhava os movimentos com um ar satírico e desdenhoso.
Ambrosina fingiu não dar por isso, mas a impressão daquele olhar, tão contrária a de todos os outros que ela essa noite recebera, lhe ficou doendo por dentro como imperceptível espinho cravado no seu melindroso orgulho de mulher formosa. Um simples olhar, talvez involuntário, e vindo distraidamente de olhos desconhecidos, bastou para toldar com uma pontinha de fel o triunfante humor, em que a leviana palpitava de vaidade no efêmero predomínio das suas graças.
Foi já nervosa que ela, ao chegar à casa, disse à criada, arremessando leque, luvas e chapéu:
— Sirvame um banho tépido com bastante vinagre de Lubin, e tire um peignoir daqueles que estão
na caixa de seda corderosa; a ceia que lhe encomendei tragaa para a saleta da alcova, não precisa deixála à mostra, ponhaa sobre a mesa de charão por detrás do biombo dourado; depois feche as portas da sala de jantar, e pode recolherse; se o John ainda estiver acordado, digalhe que também o dispenso; deixe a porta da rua aberta... Mas aviese, que espero por alguém, e são horas!
E daí a pouco, Ambrosina, mergulhando o mármore do seu corpo no cheiroso e opalino banho, murmurava sozinha:
— Maldito sujeito que me olhou daquele modo! Desejolhe a morte! E Deus que me ouça!
Esse sujeito, contra cuja vida lançava tão feia praga a formosa criatura, era o nosso altaneiro Gustavo, que naturalmente nem sequer suspeitaria ocupar naquele momento o endiabrado espírito da mulher mais espaventosa do alto coquetismo fluminense.
Entretanto, a torre de São Francisco começava a derramar lugubremente no silêncio das ruas as doze badaladas da meianoite, e por esse tempo o sombrio vulto do Médico Misterioso, cabeça baixa e passos tardios, tomava a direção da casa da Condessa Vésper, sem desconfiar que era por alguém observado e seguido a distância.
Encontrou a porta da rua aberta e o corredor às escuras, entrou e subiu as escadas, sem olhar para trás!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.