Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Estava melhor, sim, estava quase bom. Apenas lhe restava um peso na cabeça e alguma debilidade, devida provavelmente à dieta. Com um dia de alimentação mais forte, estaria pronto para seguir viagem, e esperava que Felisberto não lhe faltaria à promessa de o mandar conduzir ao porto dos Mundurucus ou ao Rosarinho, conforme fosse mais cômodo.

Felisberto protestou. Era homem de palavra, incapaz de faltar ao que prometera. Sabia muito bem disso o defunto padre João da Mata, o santo padre que o criara e o educara para seu acólito, nas missas da Matriz de Maués, e mais a Clarinha, a afilhada do padre santo. Mas antes de se meter em nova viagem, era preciso que o senhor padre ficasse bom de todo, ficasse capaz de apanhar sol e chuva sem perigo de uma recaída. O senhor padre tivesse paciência, esperasse mais alguns dias, e acabasse de tomar o remédio da mãe Benta de Maués, que não se havia de arrepender. E então tratado pela Clarinha que a modo que tinha uma queda por S. Rev.ma!

O Felisberto ria alvarmente, encantado daquela descoberta que lhe viera de momento ao espírito, e repetia, gozando:

— A modo que ela tem a sua queda por S. Rev.ma!

Padre Antônio achou a idéia risível. Inspirar paixão a uma mameluca, esta só daquela besta do Felisberto!

Depois o neto de João Pimenta continuou com a loquacidade acostumada, abundando na conveniência de permanecer mais alguns dias no sítio, naquele paraíso, como lhe chamava o defunto padre santo, porque, ficasse S. Rev.ma sabendo, quem fizera aquele sítio, aquilo tudo, não fora o João Pimenta, mas o finado vigário de Maués, para gozar, como ele dizia, algumas semanas tranqüilo e repousado no seio dos seus mundurucus, como lhes chamava por caçoada. Nesse tempo, a mãe do Felisberto ainda vivia, uma cabocla de truz, palavra de honra! Era filha duma moça de Serpa que aquele velho João Pimenta furtara, no tempo em que era tuxaua, antes de ser convertido pelo padre João da Mata. Quem diria vendo aquele caboclo velho que fora tuxaua e furtara uma moça clara? Pois era o avô dele, Felisberto Pimenta da Mata, um criado de S. Rev.ma para o servir em tudo e por tudo. Padre João, que era um homem esquisito em Maués, gostava muito de ali estar, no furo da Sapucaia, passando os dias a pescar tucunarés de caniço e as noites a ensinar à Clarinha tudo quanto ele sabia. Por isso também a Clarinha lia, escrevia e contava como talvez nenhuma moça da vila o fizesse! Pois se o padrinho tinha tanto cuidado com ela, e eram mimos e mais mimos que até parecia uma princesa! E que cuidados com ela! Nem o avô João Pimenta podia dizer-lhe coisa alguma, e o Felisberto chuchara muito bons cachações só porque lhe tocara com um dedo. Safa, exclamava o rapaz, também não sabia para que aqueles luxos! Para uma mameluca, não valia a pena. Por isso a Clarinha não parecia o que era, e, a falar a verdade, nunca tivera inclinação alguma! Pois ali só apareciam tapuios e de ano a ano algum regatão mais arrojado. Mas a afilhada do padre santo não fora feita para tapuios nem regatões!

Padre Antônio distraído, enfastiado, ouvia pela vigésima vez a história do padre João da Mata, mas quando Felisberto começou a falar da Clarinha, uma vaga curiosidade o agitava. A Clarinha fora educada pelo padrinho com tanto esmero e cuidado, não podia ser, como padre Antônio supunha, uma mameluca como as outras.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...101102103104105...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →