Por Aluísio Azevedo (1881)
— Mas por que não podes, minha tolinha?... insistiu o confessor, tomando-lhe as mãos com meiguice. - Hum?... por que não podes?...
— Porque estou grávida! respondeu ela, fazendo-se escarlate e cobrindo o rosto com as mãos.
— Horresco referens!
E o cônego deu um salto para trás, ficando de boca aberta por muito tempo, ã sacudir a cabeça.
— Sim senhora!... fê-la bonita!...
Ana Rosa chorava, escondendo a cara.
— Sim senhora!...
E o velho apalpava com o olhar o corpo inteiro da afilhada, como procurando descobrir nele a confirmação material do que ela dizia.
— Sim senhora!...
E tomou uma pitada.
— Bem vê... arriscou afinal a rapariga, entre lágrimas, que não tenho outro remédio senão...
— Está muito enganada! interrompeu o cônego energicamente. Está muito enganada! O que tem a fazer é casar com o Dias! E logo! antes que a sua culpa se manifeste!
Ela não deu palavra.
— Quanto a isso... acrescentou o lobo velho, apontando, desdenhoso, com o beiço, o ventre da afilhada, eu me encarregarei de lhe dar remédio para... Ana Rosa ergueu-se com um só movimento e ferrou o olhar no cônego
— Matar meu filho?!... exclamou lívida.
E, como se temesse que o padre lho arrancasse ali mesmo das entranhas, precipitou-se correndo para fora da igreja
Saiu pelo lado que fronteia com o jardim público. Maria Bárbara só a pôde alcançar já dentro do cano.
— Com efeito! disse lhe agastada. Parece antes que vens do inferno do que da casa de Deus!
— É mesmo!
— Que diabos de modos são esses, Anica? repreendeu a velha. Ora vejam se no meu tempo se dava disto! Por que estás com essa cara tão fechada, criatura?! Ana Rosa, em vez de responder, virou o rosto. E não trocaram mais palavra até a casa, apesar do muito que serrazinou a avó por todo o caminho
E, no entanto, a pobre moça sentia se horrivelmente oprimida e precisava desabafar com alguém. Um desejo doido a devorava: era correr em busca de Raimundo, contar-lhe tudo e pedir-lhe conselhos e amparo, porque nele, e só nele, confiaria inteiramente. Queimava-lhe o corpo uma necessidade carnal de vê-lo, abraçá-lo, prendê-lo ela com todo o ardor dos seus beijos, e depois arrastá-lo para longe para um lugar oculto, bem oculto, um canto ignorado de todos, onde os dois se entregariam exclusivamente ao egoísmo feliz daquele amor.
Desde que se apercebera grávida, não podia suportar o seu acanhado quarto de menina; a sua rede de solteira causava-lhe íntimas revoltas. E agora, depois de disparatar com o padrinho sentia-se com forças para tudo; vibrava-lhe no sangue uma energia estranha e absoluta; pensava no filho com transporte e orgulho, como se ele fora uma concepção gloriosa da sua inteligência. E, na obsessão dessa idéia, alheava-se de tudo mais, sem pensar sequer na falsidade da situação em que se avinha.
Aguardava ansiosa os prazeres da maternidade, como se os conquistasse por meios lícitos, e tremia toda em sobressalto só com a lembrança de que poderia vir a faltar à criancinha o menor cuidado ou o mais dispensável conforto; vivia exclusivamente para ela; vivia para esse entezinho desconhecido que lhe habitava o corpo; o filho era o seu querido pensamento de todo o instante; passava os dias a conjeturar como seria ele, menino ou menina, grande ou pequeno, forte ou franzino; se puxaria ao pai. Tinha pressentimentos e tornava-se mais supersticiosa. Apesar, porém de todos os perigos e dificuldades sentia-se muito feliz com ser mãe e não trocada a sua posição pela mais digna e segura, se para isso fosse preciso sacrificar o filho. O filho! só este valia por tudo; só este lhe merecia verdadeira importância, o mais era mesquinho, incompleto, falso ou ridículo, ao lado daquela verdade que se realizava misteriosamente dentro dela, como por milagre aquela felicidade, que Ana Rosa sentia crescer de hora a hora de instante a instante no seu ventre, como um tesouro vivo que avulta; aquela outra existência, que esgalhava da sua existência e que era uma parcela palpitante do seu amado, do seu Raimundo, que ela trazia nas entranhas!
Ao chegar a casa, correu logo para o quarto, fechou-se por dentro, tomou pena e papel e escreveu, sem tomar fôlego uma enorme carta ao rapaz. “Vem, dizia-lhe vem quanto antes meu amigo, que preciso de ti, para não acreditar que somos dois monstros! Se soubesses como me fazes falta! como me dois ausente, terias pena de mim! Vem, vem buscar-me! se não vieres até o fim do mês, irei ter contigo, irei ao teu encontro, farei uma loucura!”
Mas Raimundo respondeu que ainda era cedo e pediu-lhe que esperasse com resignação o momento de por em prática o que eles já tinham antes combinado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.