Por Aluísio Azevedo (1895)
- Sim, sim, insistia o pensamento de Teobaldo. Desde aquela célebre noite da entrevista da mulher do conselheiro. Branca já não é a mesma senhora ajuizada e boa dona de casa!... Está completamente transformada, ao ponto de não dar idéia do que fora... Agora tem extravagâncias que parecem de louca; dá para fechar-se no quarto dias inteiros, a ler ou a escrever, sem se importar com o que vai pelo resto do mundo; agora toma-se de simpatias por criaturas, que até aí não podia suportar; agora veste-se mal, um pouco disparatadamente, desleixa-se em questões de asseio, não capricha em trazer a cabeça penteada; falta à mesa nas horas consagradas à refeição e levanta-se à noite, fora de horas, para cear em companhia do velho Caetano...
Esse nome como que o despertou.
- Ah! disse, e correu a vibrar o tímpano.
Surgiu logo um criado.
- O Caetano que venha aqui, imediatamente! ordenou.
E já passeava a passos medidos em toda a extensão do gabinete, quando o velho criado lhe apareceu, arrastando os pés, a cabecinha toda branca e vergada para a terra, como se andasse à procura dos oito palmos que esta lhe destinava no seu seio.
- Velho amigo! Disse-lhe o amo, passando-lhe o braço pelo ombro. Sabes para que te chamei? Foi para que me relatasse minuciosamente tudo o que tens visto fazer minha mulher nestes últimos tempos.
- Nunca a espreitei... respondeu Caetano, franzindo as sobrancelhas.
- Bem sei, replicou o amo, e não te perdoaria se o fizeras; quero, porém, que me contes minuciosamente como Branca tem vivido, quais são agora os seus hábitos, os seus gostos e as suas propensões.
- Ah! muito mudada de gênio, coitadinha! principiou o criado; não lembra quem era! Está triste, frenética e caprichosa, que mete dó! Já não cuida das suas flores; mandou retirar da sala os passarinhos que ela tanto estimava dantes e parece disposta a não conservar nenhum dos hábitos antigos; já não se deita, nem se levanta dois dias seguidos à mesma hora; nega-se às visitas que recebia com mais prazer e só se mostra deveras entretida quando ouve a leitura do Sr. André.
- Do Coruja! Ah! explica-me isso!
- O Sr. André, quase todas as noites e aos domingos durante algumas horas do dia,desce à sala de jantar, assenta-se ao lado dela e põe-se a ler. A senhora o ouve com toda a atenção e parece tomar nisso grande interesse porque às vezes, quando ele termina a leitura, ela tem os olhos cheios dágua e suspira.
- E o que mais tens observado entre os dois?
- Mais nada. O Sr. André, termina a leitura, conversa ainda um pouco com a Sra. D.Branca e retira-se depois para o seu quarto.
- E ela?
- Ela nunca faz o que fez na véspera e sim o que lhe vem à fantasia.
- Sim, mas explica o que é!
- Oh! mas são tantas as coisas... Uma vez, por exemplo, quando toda a casa já estava recolhida, ela mandou-me chamar, fez preparar o carro e saímos a passeio.
- Onde foram?
- À toa. A Sra. D. Branca disse ao cocheiro que desse algumas voltas até o Catete.
- E foi só essa vez que passeou?
- Não, senhor: fez o mesmo várias vezes..
- E sempre em tua companhia?
- Creio que sim, senhor.
E o Coruja nunca os acompanhou?
Não, senhor; se bem que a Sra. D. Branca o convidasse mais de uma vez.
- Ah!
- O Sr. André apenas a acompanhou uma ocasião em que a Sra. D. Branca foi à missa à igreja de S. João Batista.
- Há muito tempo?
- Há coisa de dois meses.
- E o outro, o Aguiar, tem vindo aqui muitas vezes?
- Tem sim, senhor; mas a Sra. D. Branca parece não estimar tanto a companhia do Sr. Aguiar como estima a do Sr. André, visto que às vezes deixa-se ficar no quarto e não lhe aparece, e de outras retira-se da sala antes que ele se tenha ido embora.
- E o Aguiar trata-a com muita amabilidade?
- Muita; e parece respeitá-la extraordinariamente.
- Bem. E quem mais aparece?
- Nestes últimos tempos, quase que ninguém a não ser o Sr. Aguiar, porque há muito que a Sra. D. Branca não se quer mostrar a pessoa alguma. Quem muita vez passa o dia aqui e parece distrair muito a Sra. D. Branca é o filhinho da costureira, um pequeno de uns cinco anos. A Sra. D. Branca mostra certa estima por ele, faz-lhe roupas, leva-o consigo dentro do carro, compra-lhe brinquedos, sapatos, chapéus e às vezes passa horas esquecidas ao lado do menino.
Teobaldo fez ainda várias perguntas ao velho Caetano, intimamente envergonhado por não saber o que ia por sua própria casa e mais ou menos aturdido pela dúvida e pela desconfiança em que se achava contra a esposa e os dois únicos homens a quem tinha por amigos verdadeiros.
Disse ao criado que se retirasse. Depois foi à gaveta da secretária buscar um revólver que lá estava.
– Hei de descobrir, pensou ele, o que há de verdade em tudo isto, e juro que meterei uma bala na cabeça do miserável que me atraiçoa!
XIV
A carta anônima era obra de Leonília. Esta só se decidira a lançar mão de semelhante meio de vingança depois de bem convencida da inutilidade dos esforços empregados por ela para surpreender de novo a mulher de Teobaldo em outra entrevista com o Aguiar.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.