Por Aluísio Azevedo (1884)
O passado do Teles era toda uma legenda de vitórias judiciais; atribuíam-lhe anedotas mais antigas de que ele; muito processo se anulou naquelas unhas aduncas e tamanduá; muito criminoso escapou às penas da lei por entre as malhas das sua astúcia; muito inocente foi parar à cadeia ensarilhado nas pontas de seus sofismas.
Para ele não havia causas más; em suas mãos qualquer processo se enformava ao capricho dos dedos como uma bola de miolo de pão.
E o irmão de Amélia sabia de tudo isso perfeitamente quando lhe foi bater à porta.
Seriam então nove horas da manhã, a raposas almoçava.
Coqueiro esperou um instante e, só terminado o barulho dos pratos, animouse a tocar a campainha.
Apareceu um moleque, tomou o recado no corredor e pouco depois trouxe a resposta. “O amo estava muito cheio de ocupações naquele dia, não falava com pessoa alguma. Coqueiro que voltasse noutra ocasião.”
Mas Coqueiro recalcitrou. “Esperaria...Tinha que falar ao Dr. Teles, custasse o que custasse. Tratava-se de uma causa importantíssima!”
Veio afinal o doutor, palitando os dentes, o ar muito ocupado, os movimentos de quem tem pressa.
— Que era? O que desejavam?
Coqueiro, com a voz alterada, os gestos dramaticamente desesperados, disse que ia ali buscar proteção e justiça. “Era pobre, sim, mas estudioso e trabalhador. Sua vida aí estava, — limpa! Podia até servir de modelo! — Casara-se na idade em que os rapazes em geral só pensam nos prazeres e nas loucuras!...Adorava a família; sim! adorava, porque a família era o bem único de que ele dispunha na terra!
Tinha uma irmã, inocente e indefesa, a quem até aí servira de pai e de tutor...” O advogado deixou escapar uma tossezinha de impaciência.
— Pois bem, senhor doutor! Exclamou o outro, puxando com ambas as mãos, contra o peito, o seu chapéu de feltro. — Pois bem! Essa menina, que era todo o meu orgulho, que era como o documento vivo do bom cumprimento de meu dever...essa menina, que eduquei sob os maiores sacrifícios...essa pobre menina... — Que fez? Perguntou o velho muito calmo. — Arribou de casa?...
Não senho, acaba de ser vítima da maior traição, da mais degradante maldade, que...
— Mas, afinal, o que houve?...interrogou o doutor, fugindo às preliminares.
— Foi desvirtuada por um rapaz, um colega meu, que , há coisa de um ano, hospedei, por amizade, debaixo de minhas telhas!...
— E ele? Perguntou o advogado, sem se comover.
— Ele já está de passagem comprada para o Maranhão e foge amanhã mesmo, se não houver uma alma reta e caridosa que lhe embargue a viagem.
— Ela ficou pejada?
— Não senhor.
— É menor?
— Tem vinte e três anos, respondeu o queixoso, triste porque sua irmã não tinha menor idade.
— Está o diabo!...Resmungou a raposa; espetando os dentes com o palito. — E ele?
— Ele tem vinte e um. — Feitos?
— Feitos, sim senhor. — Bem.
E acendeu um cigarro que levara a preparar lentamente.
— É o diabo!...repisava. — Não se pode fazer nada, sem a verificação do fato...É o diabo!!
E calaram-se ambos. O velho a pensar; o outro, de cabeça baixa, o aspecto infeliz, a choramingar baixinho.
— Ele tem recurso? Perguntou aquele afinal.
— É rico, bastante rico, respondeu o Coqueiro, sem tirara os olhos do chão.
— Emancipado?...
— Totalmente. órfão de pai! É até sócio comanditário de uma importante casa comercial. Tem para mais de quatrocentos contos de réis.
— Bem. Arranja-se a queixa – crime. Olhe! Deixe-me aí o seu nome, o dele, o da vítima, o dos competentes pais, se os tiverem, as respectivas moradas, profissões, etc., etc. Enfim a substância da queixa...
— O senhor doutor acha então que...
— Veremos! Veremos o que se pode fazer!...Não perca tempo — escreva.
Coqueiro escreveu prontamente, interrompendo-se de vez em quando o para pedir informações.
— Está direito! Sussurrou o advogado, correndo os olhinhos pelas folha de papel que o outro lhe acabava de passar. — Pode ir descansado. Vá.
E seu todo impaciente estava a despedir a visita. Esta, porém, fazia não dar por isso e desejava mais esclarecimentos; queria saber ao certo o tempo que deitaria aquela questão. “Se era de esperar que Amâncio cassasse com a vítima; se havia recursos na lei para o perseguir, etc., etc. ”
O velho palitou os dentes mais vivamente. — “Que diabo! Um processo era um processo! Tinha de percorrer todos os competentes sacramentos! Não se chegava ao fim, sem passar pelos meios!...Amâncio podia furtar-se à citação, esconder-se; os oficiais de justiça eram tão fáceis de ser comprados!...tão ordinários!...vendiam-se por qualquer lambujem, por um relógio, por um pouco de dinheiro!...”
E principiou a encarecer a causa, grupando termos jurídicos, apontando dificuldades. Sua voz transformava-se ao sabor daquela terminologia especial. “Em primeiro lugar tinham de apresentar uma queixa perante o Juiz de Direito do distrito criminal. Deferida a petição, intimar-se-ia o indiciado para a audiência que se designasse”. — E os interrogatórios? E a pronúncia? E os recursos?...Enfim havia de se fazer o que fosse possível!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.