Por Aluísio Azevedo (1897)
— Bem me importa agora o Gabriel! Tu é que serás o meu amigo; e eu a tua nenê, meiga e submissa, como uma gatinha! Hein? que bom! que bom! exclamava ela, a encolherse nos braços de Gaspar; amar um homem, sem outra intenção além do próprio sentimento; desejar têlo, sem outro fim mais que uma afeição tranqüila e casta. Oh! isto sim, isto deve ser consolador!
— Bem! disse Gaspar, procurando delicadamente desviarse dos braços de Ambrosina. Ficamos então entendidos, não é assim?... Eu serei o teu bom amigo, e tu nunca mais darás um passo para perseguires Gabriel!
E ergueuse.
— Sim, respondeu a formosa rapariga, que também se havia levantado. E, novamente abraçada a
Gaspar, fazialhe agora festinhas na barba com o seu dedo de unha corderosa. — Sim, sim! mas quero que me dês uma prova do teu afeto, antes de partires amanhã...
— Uma prova?... Como? de que forma?...
— Vindo hoje mesmo, à meianoite, cear em despedida aqui comigo. Pois eu consentiria lá que te fosses sem me dizer adeus?...
— Mas, à meianoite?!... Pareceria isso mais uma entrevista de amantes do que...
— Não sei porquê?... interrompeu ela. Não são as horas, nem é o lugar, que fazem as situações. Não tens confiança em ti?... tenho eu em mim! Convémme estar ainda, antes de partires, uma vez a sós contigo, e só a meianoite é que me pertenço... Daqui a nada está aí gente para jantar em minha companhia!
— Mas...
— Se não quiseres vir, desisto já de tudo que combinamos, e eu procederei como entender!
— Bom! Bom! Virei à meianoite; mas tu estarás só!...
— Jurote! Nem mesmo pelos criados serás visto...
— Pois até logo.
— Vens, então?...
— Acabo de dizer que sim.
— E se não vieres?...
— Farás o que entenderes...
— Olha lá!...
— Estamos combinados, filha!
Pois conto contigo... Se encontrares a porta fechada toca o tímpano três vezes seguidas.
— Sim, adeus.
— Adeus, meu bom amigo.
E Gaspar, impaciente, alterado, ganhou o largo do Rocio, e tomou a direção do Mangini.
Pelo caminho reparou que todo ele ia penetrado do sutil e capitoso perfume, que Ambrosina exalava das carnes e dos cabelos.
XXXIX
A VEZ DA CIGARRA
No terraço do Alcazar corria a pândega desenfreada. Representavase La folie parfumeuse, e as notas candenciosas da alegre partitura misturavamse no pesado ambiente do teatro com frêmito das gargalhadas, o fumo dos charutos e o vapor inebriante dos vinhos.
Em torno das mesinhas de mármore, homens e mulheres, aos magotes, vozeavam, numa estrepitosa concussão de línguas, em que a francesa era a mais atropelada. Fervia o champanha por toda a parte, e por todos os grupos faiscavam diamantes e jóias de alto preço. Havia toilettes das loureiras, um luxo de espetáculo d'ópera, e as carruagens, estacionadas na rua à espera delas, formavam serpentes que abrangiam quarteirões.
Sob a pobre e melancólica folhagem de bambus de que constava o jardinzinho do famoso caféconcerto e que atormentada pela luz mordente do gás, parecia minguar de nostalgia, saudosa da frescura dos seus campos, rolava todas as noites, na mesma onda, a inconsciente e barulhosa prodigalidade dos herdeiros ricos e a torturante pantomimice dos fingidos argentários. Viamse os elegantes de chapéu de feltro claro e luvas de cor, empunhando inquietadores bengalórios encabeçados de ouro; viamse rutilantes e agaloadas fardas da Marinha e do Exército, em contraste com as joviais casacas negras dos cançonetistas parisienses, que vinham cá fora, nos intervalos dos atos, escorrupichar, a barba longa e de camaradagem com o público, o seu gelado grogue à la américaine. Destacavamse os sangüíneos e atochados tipos dos ricos fazendeiros do interior da província ou do fundo de Minas e São Paulo, sequiosos por atirar às goelas da pândega fluminense um bom punhado de contos de réis da sua última safra de café; alguns desses, mal chegados essa mesma noite, ainda conservavam as suas botas da viagem e o seu poncho à moda do Sul.
Dentre o cheiro das perfumarias e dos pós de toucador, tresandava uma sutil e femeal rescendência pituitária, que punha nas ventas masculinas irracionais palpitações de faro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.