Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

A administração da irmandade, em 1852, mandou tirar e colocar na sacristia o retrato de Resende, como, em 1857, por proposta do tesoureiro do patrimônio dos padres e irmãos pobres, o Sr. Padre Manuel Agostinho José da Silva, e com aprovação da mesa, se deliberou que fossem também tirados e conservados os retratos dos outros benfeitores.

Aqui está, pois, toda a história de Resende, e nela a da origem da instituição dos socorros aos padres e irmãos pobres da irmandade de São Pedro.

A instituição começou, portanto, com o patrimônio a 9 de agosto de 1812.

Mas o caridoso instituidor desse patrimônio não só legou duas casas, como ainda um belo exemplo que achou alguns piedosos imitadores.

Assim, contam-se ainda os seguintes benfeitores da mesma

instituição:

Manuel Rodrigues dos Santos, que legou, em 1827, 2:000$000.

Antônio Rodrigues dos Santos (irmão do precedente), que deixou 4:000$ em 1829.

O Cônego Alberto da Cunha Barbosa, que, em 1845, legou 2:000$000.

E finalmente, o Padre Luís Antônio Muniz dos Santos Lobo, que deixou 2:000$ em 1857.

O patrimônio dos padres pobres rende atualmente l6:238$072. É uma verdadeira instituição de caridade, que tem já prestado muitos serviços, conforme a natureza e fins da sua criação, e afiançam-me que se pode asseverar, sem receio de cair em erro, que os padres, para quem ela se destina, estão a coberto de privações nos casos de enfermidade.

O nome do Sargento-mor Alexandre Dias de Resende está, com razão, perpetuado nos arquivos da irmandade de S. Pedro e nos corações dos padres que o abençoam como um benfeitor.

Ora, pois! Cheguei finalmente ao desejado termo da história das três instituições da irmandade de S. Pedro.

Podemos agora desembaraçadamente lançar uma rápida vista d’olhos sobre a igreja, para dizer o que é ela e o que contém.

Vinde. Não tenhais medo de encher de pó as calças, nem de teias de aranhas as casacas. Há nove anos que a igreja de S. Pedro está limpa, e se pode entrar nela como nos seus belos tempos.

Pelo seu exterior, a igreja de S. Pedro distingue-se de todas as outras da cidade do Rio de Janeiro.

É uma igreja de forma circular como algumas de Roma, tendo o seu zimbório pequeno mas proporcionado e elegante. As portadas são de mármore e executadas com talento e gosto. Sobre a porta principal vêem-se as armas do príncipe dos apóstolos.

Domina em toda a igreja o estilo barroco da arquitetura do décimo oitavo século.

A igreja tem duas torres e abre o seu pórtico de mármore para um pátio defendido por grades de ferro. Esse pátio, outrora regular, apresenta hoje dimensões mesquinhas e irregulares, porque foi necessário sacrificar parte dele às justas e retas dimensões na Rua de S. Pedro.

No interior do templo predomina ainda e sempre o estilo barroco em todos os ornatos, aliás, habilmente executados. Toda a obra é de sólida construção de pedra e em abóbada. A igreja tem três altares.

No altar-mor, além da imagem do venerável príncipe dos apostólicos, que ocupa o seu devido lugar de honra, vêem-se, ao lado direito S. Paulo, ao lado esquerdo Santo André, e no mais alto degrau do trono, a imagem do Senhor dos Aflitos.

O altar do lado do Evangelho é consagrado a N. Sra da Boa Hora, a cujos pés está a imagem de S. Antônio, e em dois nichos laterais vêem-se as imagens de N. Sra da Conceição e de S. José.

O altar do lado da Epístola é dedicado a S. Gonçalo de

Amarante, que tem, em um degrau inferior do seu trono, a imagem de Santana, e aos lados S. João Nepomuceno e S. Pedro mártir.

Não são notáveis estas imagens pela sua execução artística. Ao menos, porém, vai sê-lo a nova de S. Pedro, que está sendo executada em mármore branco pelo hábil Sr. Despré, e cujo desenho me pareceu muito bonito.

Foi o bispo D. Frei Antônio de Guadalupe quem colocou no altar do lado da Epístola a imagem de S. Gonçalo de Amarante, por louvável devoção ao santo padroeiro da terra de seu berço.

Esta demonstração do bispo deu logo a S. Gonçalo de Amarante um grande número de ardentes devotos, e por súplicas do padre João de Araújo e Macedo e de outros, foi criada a respectiva irmandade com permissão dos irmãos de S. Pedro, que para esse fim lavraram o termo de 7 de outubro de 1741.

Diz um antigo anexim que se beijam as pedras por causa dos santos. Neste caso, porém, o anexim falhou, observou-se o contrário, e o tempo veio demonstrar que se venerava o santo por causa do bispo.

Desde que D. Frei Antônio de Guadalupe deixou o Brasil e foi substituído no bispado do Rio de Janeiro, caiu pouco a pouco, ou antes, logo e logo S. Gonçalo de Amarante em um triste esquecimento e abandono, e por modo tão sensível, que o seu culto acabou por ficar a cargo da irmandade dos clérigos.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...100101102103104...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →