Por Inglês de Sousa (1891)
Fora ali, contemplando aquele delicioso sítio, que, logo à chegada padre Antônio de Morais vira a Clarinha, a neta de João Pimenta, de pé sobre o tronco de palmeira que servia de ponte ao bem tratado porto. Era uma mameluca, de quinze a dezesseis anos de idade, uma fisionomia petulante e decididamente desagradável, tão desagradável que padre Antônio sentiu uma necessidade imperiosa de não se demorar nesta recordação, desejando já terminar com o passado e chegar ao presente, naquele quarto, naquela cama, para indagar de si, da sua situação e do seu futuro. Chegara doente e bem doente, disso se recordava e fora recolhido àquele quarto, o quarto do finado padre João da Mata, dando-se-lhe a cama que fora do padre João, uma marquesa de palhinha, envernizada de preto, que ele guardava para as noites frias, por causa do reumatismo. João Pimenta e o neto tinham ido buscar a marquesa ao paiol, onde se achava por inútil, e a Clarinha, entretanto, ia e vinha, arrumando o quarto, e, quando a marquesa chegou, pôs-se a fazer a cama, curvando-se e deitando-se às vezes sobre o leito para prender a fímbria dos lençóis de linho, dum luxo raro naquelas alturas.
E daí em diante, nos dias seguintes, sempre aquele vulto de mulher, indo e vindo pelo quarto, cuidadosa, falando meigamente, e com uma solicitude incômoda. E então a figura de João Pimenta, calado e estúpido, limitando-se a duas saudações por dia, a do Felisberto, falando sem parar, curioso, impertinente, fatigante com o seu latim das brenhas e as suas receitas da mãe Benta de Maués para todas as moléstias, e a da Clarinha, a mameluca, a irmã do Felisberto, com a sua saia de chita verde sobre a camisa, sem anáguas, e o seu cabeção rendado que, num descaro impudente, deixava ver a pele acetinada e clara, trotavam-lhe na cabeça, num vaivém contínuo de entradas e saídas, entremeadas de palavras ocas duma sensibilidade extrema, de cuidados excessivos que lhe deixavam, sobretudo as palavras e os cuidados da rapariga, uma impressão penosa. Aquela mameluca incomodava-o, irritava-lhe os nervos doentes, com o seu pisar firme de moça do campo, a voz doce e arrastada, os olhos lânguidos de crioula derretida. Não lhe parecia formosa, tanto quanto podia julgar olhando-a por baixo das pálpebras, porque jamais fitara de frente a uma mulher qualquer, ou pelo menos, a sua beleza, se beleza tinha, não o atraía, achava-a petulante demais, provocadora, quase impudente, com o seu arzinho ingênuo, visivelmente enganador, como devem ter todas as mulheres que o demônio excita a tentar os servos de Deus. Não sabia por que, mas antipatizara com ela, recebia-a agressivo e brutal, como se receasse um ataque à sua, aliás invencível, castidade. Entretanto, francamente, sem vaidade nem falsas modéstias, nada tinha a recear da neta de João Pimenta, da matutinha de saia de chita e cabeção rendado. Quem no Pará entrevira as mulheres do mundo, luxuosas e apetecidas, sem quebrar o voto sagrado que fizera, quem na vila de Silves se vira alvo das atenções de muitas senhoras brancas, de posição, formosas e dedicadas, sem ceder à tentação de lhes sorrir ao menos, não podia duvidar de si, quando se tratava duma simples mameluca, perdida nas brenhas do Guaranatuba. Não, não era isso. Não sentia, à vista da neta de João Pimenta, emoção alguma que pudesse sobressaltar a sua dignidade de padre severo e consciencioso, e demais tinha bastante confiança em si e na proteção de Nossa Senhora, para poder estar tranqüilo a esse respeito. Mas, positivamente, aquela rapariga incomodava-o. E como explicar isso? Ela era dedicada, serviçal, quase extremosa, cuidava-lhe da saúde como se aquele hóspede inesperado fosse seu irmão ou seu pai. Por que o aborrecia? Incongruências dos seus nervos abalados, efeito da moléstia que o abatera, tirando-lhe a compreensão exata das coisas, causando-lhe verdadeiras aberrações de sentimento. Mas tinha fé em Deus que isto passaria com o restabelecimento da saúde. Sentia-se melhor, quase bom, em breve partiria para o seu glorioso destino, e a figura da neta de João Pimenta se apagaria da sua lembrança, como a de tantas outras mulheres que entrevira na vida austera que dedicara a Deus.
Agora o que convinha, já que o sentimento da realidade lhe voltava, agora que estava senhor de todas as suas faculdades, e via claramente as coisas e os homens, era exigir dos tapuios do Sapucaia o cumprimento da promessa de o levarem ao Porto dos Mundurucus, ou, ao menos, ao Rosarinho, onde lhe parecia existir uma aldeia dirigida pelos padres da Companhia.
Sentia-se forte, confiante, com a idéia de cumprir a resolução heróica que tomara em Silves, realizando a missão aos mundurucus, depois de tantos acidentes e perigos, e na sua cabeça ainda fraca o entusiasmo exaltara-lhe a imaginação, evocando os mesmos sentimentos e idéias que o tinham trazido àquelas paragens longínquas.
O fio das suas idéias foi cortado pela aparição do Felisberto na abertura da porta:
— Agora está melhor?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.