Por Aluísio Azevedo (1881)
— Então!. . Vamos... disse o padre com brandura. Não tenha medo!... Isto é apenas uma conversa que a senhora tem com a sua própria consciência, ou com Deus, que vem a dar na mesma... Conte-me tudo!... Abra-me seu coração!... Fale. minha afilhada!.. Aqui, eu represento mais do que seu pai; se fosse casada - mais do que seu marido! sou o juiz, compreende, represento Cristo! - represento o tribunal do céu! Vamos, pois, conte-me tudo com franqueza; conte-me tudo, e eu lhe conseguirei a absolvição!... eu pedirei ao Senhor Misericordioso o perdão dos seus pecados!...
— Mas o que lhe hei de eu contar?...
E soluçava.
— Diga-me: o que é que ultimamente a tem posto triste?... Sente-se possuída de alguma paixão, que a atormenta?... Diga.
— Sim, meu padrinho, respondeu ela, sem levantar os olhos.
— Por quem?
— Vossemecê já sabe por quem é... — Pelo Raimundo...
A moça respondeu com um gesto afirmativo de cabeça
— E quais são as suas intenções a esse respeito?
— Casar com ele..
— E não se lembra com isso, ofende a Deus por vários. Ofende, porque desobedece a seus pais; ofende porque agasalha no seio uma paixão reprovada por toda a sociedade e principalmente por sua família; e ofende, porque com semelhante união, condenará seus futuros filhos a um destino ignóbil e acabrunhado de misérias! Ana Rosa, esse Raimundo tem a alma tão negra como o sangue! além de mulato, é um homem mau sem religião, sem temor de Deus! É um - pedreiro livre! - é um ateu! Desgraçada daquela que se unir a semelhante monstro!... O inferno ai está, que o prova! o inferno ai está carregado dessas infelizes, que não tiveram, coitadas! um bom amigo que as aconselhasse, como te estou eu aconselhando neste momento!... Vê bem! repara, minha afilhada, tens o abismo a teus pés! mede, ao menos, o precipício que te ameaça!... A mim, como pastor e como padrinho, compete defender-te! Não cairás, porque eu não deixo!
E, como a rapariga mostrasse um cerro ar de dúvida, cônego abaixou a cabeça, e disse misteriosamente:
— Sei de coisas horrorosas, praticadas por aquele esconjurado!... Não é somente o fato de cor o que levanta a oposição do teu pai... (Ana Rosa fez um gesto de surpresa). Saberás, porventura, o que precedeu ao nascimento daquele homem; saberás como veio ele ao mundo?!.. (E, alterando a voz, para um tom sinistro): Horrible dictu!.. É filho de um enxame de crimes e vergonhas!... Aquilo é o próprio crime feito gente!... E um diabo! E o inferno em carne e osso! Não te diria isto, minha filha, se assim não fosse preciso; sabe, porém, que ele, se quer casar contigo, é porque tem a teu pai ódio de morte e pretende vingar-se do pobre homem na pessoa da filha!...
— Mas do que quer ele vingar-se de papai?...
— Do quê?... De muitas e muitas coisas, que lhe não perdoa!... São segredos de família, que ainda és muito criança para conhecer e Julgar!... Mas um dos motivos é, digo-te aqui no sagrado sigilo do confessionário, o fato de haver teu pai herdado consideravelmente do irmão!...
— Não é possível! exclamou Ana Rosa, tentando erguer-se.
— Menina! repreendeu o cônego, obrigando-a a ficar ajoelhada. Reze já!
incontinente, para que Deus se compadeça de tamanho desatino! De joelhos, pecadora! que és muito mais culpada do que eu supunha!
A moça caiu de joelhos, tonta sob o bombardear daquelas imprecações, e gaguejou: o confliteou, batendo muito no peito na ocasião de dizer o “Por mea culpa! mea máxima culpa! E depois calaram-se ambos, por um instante.
— Então?... disse afina o padre, tornando à primitiva brandura. Ainda está na mesma ou já entrou a razão nessa cabecinha?... Fale minha afilhada!
— Não posso mudar de resolução, meu padrinho...
— Ainda pensa em casar com. ?
— Não posso deixar de pensar... creia!
O padre velho levantou-se tragicamente, fechou as sobrancelhas e ergueu o braço como um profeta.
— Pois então, declamou, sabe, infeliz, que sobre ti pesara a maldição eterna! sabe que tenho plenos poderes de teu pai para retirar-te a sua bênção! sabe que...
Foi interrompido por um “Ai” de Ana Rosa que perdia os sentidos, caindo a seus pés.
Ora bolas! resmungou ele, entre dentes.
E saiu do confessionário, para assentar a afilhada num dos longos bancos de madeira preta, que havia ali junto.
Felizmente não era nada. A rapariga deu um profundo suspiro e encostou a cabeça ao colo do padrinho, chorando em silêncio de olhos fechados.
Ele ficou algum tempo a contemplá-la naquela posição, que a fazia mais bonita, e, perdido em saudosas reminiscências da sua mocidade, admirava a curva macia dos seios, palpitantes, sob a compressão . da seda, a brancura mimosa das faces, a engraçada harmonia das feições. “Ó têmpora! Ó mores!...” disse consigo e depô-la, carinhosamente, contara o alto espaldar do banco.
— Vamos. continuou, quase em segredo, como um amante sequioso pelas pazes, depois de um arrufo. Vamos.. não seja teimosa...
Não se faça má... Ponha-se bem com Deus e comigo...
— Se para isso, balbuciou Ana Rosa, sem abrir os olhos, é preciso desistir do casamento, não posso...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.