Por Aluísio Azevedo (1895)
Branca afastou-se tranqüilamente, sem se mostrar nem de leve receosa das seduções do primo; ao passo que este, sufocando a sua impaciência, deixou-se ficar imóvel no lugar em que estava, a fitá-la pelas costas com o seu comprido olhar de homem teimoso e vingativo.
Que pensará de mim esta mulher? interrogou ele intimamente, cruzando os braços no meio da sala. - Que idéia fará da minha vontade e do meu querer? Pois não perceberá ela que eu, odiando o marido, não faria por este o menor sacrifício, se não fora a esperança de saciar o amor que me põe louco? É impossível que Branca, tão inteligente e tão lúcida, não me compreenda e não perceba as minhas intenções! É impossível que ela me suponha tão fácil de contentar que eu só exija de sua pessoa um casto e fraternal reconhecimento! Ah! mas agora, agora que os tenho seguros por uma dívida de meia dúzia de contos de réis, hei de chegar aos fins a que desejo ou muito terão eles de amargar!
Fazia tais reflexões, quando Teobaldo entrou da rua.
Vinha extremamente pálido e, pelos modos, bastante contrariado.
- Oh! que tens tu? perguntou-lhe o outro, indo ao encontro dele. Estás com uma cara! Alguma coisa te contraria ainda?
- Nada!
- Desconheço-te, homem!
- Nada! não tenho nada! necessidade de repouso.
- Nesse caso, retiro-me...
- Não. Fica à vontade.
- Julgas que é muito agradável suportar-te neste estado?...
- É exato. Confesso que estou preocupado. Mais tarde saberás por que.
- Bem; não falemos mais nisso e conversemos sobre outra coisa.
Mas, daí a meia hora, dizia o Aguiar:
- Não! Tem paciência! Hoje não posso contigo. Adeus. Voltarei quando estiveres mais admissível.
Teobaldo, mal viu sair o amigo, meteu-se no seu gabinete de trabalho, acendeu o gás, fechou-se por dentro e pôs-se a reler uma carta, que tirara da algibeira.
Era uma carta anônima e dizia o seguinte:
Meu adorável Teobaldo.
O feitiço vira-se às vezes contra o feiticeiro: tu, que tens destelhado a valer a honra de vários maridos, estás agora com a tua exposta à chuva e aos ventos... Olha que lhe fazem cada rombo, que até da rua a gente os vê!...
E a graça, adorável Teobaldo, é que deves esse obséquio ao teu melhor amigo, ao teu intimo, ao teu unha com carne! Coitado do meu Teobaldo!
Se exiges provas do que dizemos, estamos dispostos a dar-tas quando quiseres." Assinava - Uma das vítimas dos teus encantos.
XIII
Depois da nova leitura da carta anônima, Teobaldo mergulhou mais profundamente na sua preocupação.
- O meu melhor amigo... o meu íntimo!... repetia ele, como um sonâmbulo. Trata-se porconseguinte do Coruja ou do Aguiar! O Aguiar!... não! não é possível!... e contra o outro não me animo sequer a levantar a ponta de uma suspeita!
Mas o seu espírito, como se pactuasse com o autor da covarde denúncia, escapava-se das convicções dele a favor daqueles dois amigos e punha-se na pista das probabilidades do que afirmava a carta.
- Oh! dizia por dentro da sua experiência. As mulheres são tão dissimuladas, tão vingativas e tão traiçoeiras, que às vezes aquela, que supomos mais anjo e mais virtuosa, é justamente a mais capaz de matar-nos a alfinetadas, se lhe ofendermos o amor-próprio e a vaidade!
E, porque ele julgava de todas as mulheres pelas que até aí tivera por amantes, isto é, pelas fracas, pelas vulgares e gafadas de velho romantismo, seu pensamento ia ainda mais longe e dizia-lhe:
- Ah! são todas as mesmas! Perdoam-nos tudo, as maiores baixezas e as maiores maldades; só o que cada uma de per si não nos perdoa nunca, é não lhe darmos a primazia da nossa ternura e da nossa dedicação! Cada qual quer sempre ser a melhor e a mais digna de amor, e ai daquele que não obedece ou não finge obedecer a esse capricho, quando ligou o seu nome a qualquer dessas egoístas!
E, depois de agarrar-se a este princípio, Teobaldo perguntou a si mesmo:
- Qual dos dois, o Coruja ou o Aguiar, teria Branca preferido para cúmplice de sua vingança contra mim?
- O Aguiar, sem dúvida, porque o outro nada tem de amável.
- Que importa, porém, a ferrenha antipatia do Coruja, se não é o amor que se trata, mas simplesmente de uma vingança? E a vingança com o Coruja seria muito e muito mais completa e mais cruel!
E então, como para explicar esta terrível hipótese, o espírito de Teobaldo começou a fazer desfilar defronte de si todas as esquisitices que se notavam em Branca ultimamente; vieram os caprichos, as transformações de gênio, as excentricidades, que ela, a despeito do seu reconhecido bom senso, apresentava de tempo a essa parte.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.