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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Então, filho, que esperas?...É perder o amor aos objetos que lá tens, e fazer o que já te disse!

— Mas o Coqueiro não poderá toma r alguma vingança?...

— Não sejas parvo! Resmungou o outro, bebendo de um trago o que ainda tinha no copo; e ergueu-se disposto a sair. — Amanhã, às mesmas horas, cá estou! Traze o cobre e deixa o resto por minha conta!

Separaram-se concordes de que no dia seguinte ficariam depositados na república do Paiva os apetrechos da fuga.

Em casa do Coqueiro. Todos, à semelhança de Amelinha, nem de leve mostravam suspeitar de coisa alguma; pareciam até mais tranqüilos e satisfeitos.

Nem um gesto de ressentimento, nem uma palavra indiscreta que os denunciasse. Tudo era paz e bem-aventurança.

Reapareceram as primitivas noites de amor, como boa estação que volta carregada de flores. Os dois amantes nunca se possuíram tão satisfeitos um do outro e nunca se patentearam tão convictos da mesma felicidade. No empenho comum de se enganarem, cada qual redobrava de carinhos e meiguices; enquanto por dentro os corações lhes bocejavam, aborrecidos e fatigados.

O dia da viagem chegou sem novidade alguma. Amâncio levantou-se como das outras vezes, apenas um pouco mais cedo. Olhou por um momento Amélia que ainda dormia, toda sumida nos lençóis, vestiu-se cautelosamente para não a acordar; depois foi varanda, bebeu café e saiu em ar de passeio.

No Largo do Machado tomou um carro e bateu para a república do Paiva.

Não encontrou o colega, havia já saído. — Devia estar à sua espera com a bagagem, no cais Pharoux.

Amâncio mandou tocar o carro para lá. E, à proporção que se aproximava do mar, crescia-lhe por dentro um vago sobressalto de impaciência e de medo.

— Anda! Gritou ao cocheiro, espiando repetidas vezes pela portinhola e apalpando de instante a instante o bilhete da passagem que tinha no bolso.

Estava comovido, principiava a sentir pena de deixar a Corte; apareciam-lhe saudades das boas noites com Amélia, das patuscadas com os amigos. E um mundo de recordações formava-se e transformava-se atrás dele, fugindo, desaparecendo como sombras que se esbatem.

Para disfarçar a impressão desagradável de tais mágoas, procurava embriagar-se com a idéia das aventuras que o esperavam na província, grupando na fantasia tudo aquilo que o pudesse interessar de qualquer modo; e compunha, e construía, inventava episódios, cenas, dramas inteiros, nos quais lhe cabia sempre a principal figura. E, depois de bem mergulhado nos seus devaneios, depois de bem envolvido na alacridade de seus sonhos de glória, o Maranhão aparecia-lhe risonho e brilhante como a última expressão do que há de melhor sobre a terra

Mas, na ocasião em que se apeava, um tipo mal – encarado, olhando por cima dos óculos, a barba grisalha, um tom geral de porcaria no seu velho fato de pano preto, nas sua botas alcacanhadas, no seu chapéu de pêlo cheio de manchas amarelas, aproximou-se dele e, com voz enxuta e morfanha, intimou-o “a comparecer imediatamente em presença do delegado de semana na secretaria de polícia”. Era um oficial de justiça.

— Mas que desejam de mim?...perguntou o estudante, empalidecendo e procurando o Paiva com os olhos.

— Eu não tenho nada com a polícia!

E recuou dois passos.

— O senhor está intimado! Repetiu secamente o outro, e, em voz baixa, disse a dois sujeitos que se haviam adiantado: - Cerca! Cerca o homem!

Então aqueles avançaram logo, jogando o corpo num pé só, o chapéu para trás, um grosso porrete na mão.

— Comigo é onze! Exclamou um deles, muito canalha, a cuspilhar para os lados.

— Mas por que me prendem?!...perguntou o estudante, sentindo-se tolhido. — São coisas!... responderam-lhe, fazendo-o entrar no carro.

Amâncio ainda procurou descobrir o Paiva; depois, azoinado pela gentalha que se reunia em torno dele, saltou para a almofada, perseguido sempre pelos três sujeitos.

O oficial segredou alguma coisa ao cocheiro, e o carro deu volta e rodou em sentido contrário aso cais.

Amâncio cobriu o rosto com o lenço e principiou a soluçar.

* * *

Coqueiro, desde a prevenção que lhe fez a irmã, não se descuidou mais um instante de vigiar a sua presa: segui-lhe os passos, farejando, até o momento em que Amâncio tomou o bilhete de passagem para o Norte.

Então, correu para à casa do Dr. Teles de Moura.

O Teles era um advogado velho, muito respeitado no foro; não pelo caráter, que o não mostrava nunca, nem pela sua ciência, que a não tinha; nem tampouco pelos seus cabelos brancos, que a estes nem ele próprio respeitava, invertendo-lhes a cor; mas sim pela sua proverbial sagacidade, pelas suas manhas de chicanista, pela sua terrível figura de raposa velha, pelos sues olhinhos irrequietos e matreiros, pelo seu nariz à bico de pássaro e pela sua boca sem lábios, donde a palavra saía seca e penetrante como uma bala.

(continua...)

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