Por Aluísio Azevedo (1897)
— Em todo o caso, peçolhe que o poupe... Suplicolhe! Façame a vontade! É um velho, é um pobre pai, que lhe pede a felicidade de seu filho. Repare! tenho lágrimas nos olhos. Concordo com tudo que a senhora quiser, cumprirei as ordens que me der, contanto que me poupe o Gabriel!
— E se eu, em troca, exigirlhe uma cousa?... o senhor consentirá?...
E Ambrosina sorriu, com os olhos ainda vermelhos de pranto.
— O que é?
— Uma cousa muito simples... respondeu a rapariga, tomandolhe as mãos; quero...
— O quê?
— Tenho vexame... Não digo...
— Fale, por quem é!...
— E promete não ficar enfadado?... promete não ralhar comigo?...
— Prometo, filha; mas vamos, dize o que queres...
Ambrosina passou os braços em volta do pescoço de Gaspar, e disselhe baixinho ao ouvido, com a voz medrosa e doce:
— Quero que me ame; que seja ao menos muito meu amigo, como noutro tempo...
E, depois de espreitar através dos cílios a atitude do médico, recolheu os braços, fez um ar muito triste, e acrescentou com os olhos úmidos:
— Se soubesse quanto sou infeliz... quanto sou desgraçada!... teria compaixão de mim!
E depois de uma nova pausa:
— Não disponho de alguém que me estima nesta vida!... todos os que se chegam para mim, trazem já a intenção artificiosa de iludirme ou de desprezarme! É por isso que eu disputava Gabriel com tamanho empenho, é porque, desse ao menos, tinha a certeza de que tudo aquilo que viesse seria sincero e generoso... Pobre rapaz! Talvez hoje no mundo seja o único que me vote algum amor... os mais odeiamme!... Se é um homem me odeia porque não lhe posso pertencer exclusivamente, como um cavalo de raça; se é uma mulher, porque não pode admitir que eu seja mais formosa do que ela. Entretanto, preferia ser feia, e atravessar a existência, obscura e feliz, ao lado de um marido... Mas não sei que maldição terrível me acompanha, que veneno insanável me poreja da pele, para destruir e matar tudo em que toca meu desejo! Cada vez que firmo o pé, é uma chaga que abro no caminho! Quem me dera ser boa para todos... mas meus carinhos embriagam, como a pérfida manenilha, e meus lábios queimam, como um réptil venenoso! Desde a loucura de meu marido até à morte de Laura, é minha vida uma triste cadeia de decepções; tudo que aspirei, tudo que amei, tudo que constituiu para mim sonho, esperança, ilusão querida, foi pouco a pouco enregelando e fenecendo, como uma aldeia varrida pela peste. Já não me animo a ter uma vontade! Agora mesmo, de volta ao Rio, vinha pensando em minha mãe, ardia por abraçála, queria refugiarme, de todas as misérias de minha vida, naquele coração singelo e bom; mal chego, porém, descubro que ela morava em um cortiço, escrevolhe várias vezes, pedindo, rogando, que me aparecesse; e ela nem sequer me respondeu! Diga, não será isto a última das desgraças? não será isto a última expressão do infortúnio?... E vem o senhor pedirme ainda que lhe ceda o Gabriel! Peçame tudo que quiser; leveme os diamantes, os cavalos, os móveis, mas deixeme esse coração que me resta; deixeme, por piedade, esse derradeiro amor!
— Não! isso, não! respondeu Gaspar, sacudindo a cabeça.
— Então, dême outro que o substitua; como já disse, não é que eu ame Gabriel, mas preciso ser amada por alguém... o senhor quer arrebatarme a última afeição que me resta; pois bem! pode levála, mas há de deixarme outra no lugar dela!...
Houve uma grande pausa. Gaspar permanecia, imóvel e mudo, ao fundo do sofá. Um ligeiro sorriso de ceticismo encrespavalhe os lábios frios. Ambrosina, afinal, tomoulhe de novo as mãos:
— Então, meu amigo, balbuciou ela; digame alguma cousa! Pois eu serei tão ruim, que lhe não mereça um bocadinho de afeio?!...
— Se se trata de uma simples afeição, uma afeição apenas, como ainda há pouco disse, de bons amigos de outro tempo, não porei dúvida alguma nisso...
— Obrigada! obrigada! interrompeu Ambrosina com uma alegria de criança.
— Ouve, minha filha! E o velho tomou paternalmente a linda moça pela cintura e fêla assentarse sobre seus joelhos. — Eu amo tanto aquele pobre Gabriel, que, se tu fosses capaz de ajudarme a regenerálo, eu, por gratidão, por admiração da tua generosidade, nem só seria teu amigo, como teu pai agradecido, teu protetor e teu amparo moral.
— Como és bom! disse ela, conchegandose carinhosamente ao corpo de Gaspar. Como eu gosto de estar assim encostadinha a ti... Consola tanto ter a gente um peito como este para descansar a cabeça!...
A E, toda arrepios de rola acariciada, acrescentou com voz úmida, suplicante, infantil, a bater de leve no peito de Gaspar:
— Aqui não há vaidades, não há caprichos! tudo isto é verdadeiro e puro! Não é certo que tu me amas, como se eu fosse tua filhinha?... Dize, meu papá! Dize meu amor!
Gaspar, a despeito de tudo, sentiuse comovido.
— Mas hás de esquecerte por uma vez do Gabriel não é assim?...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.