Por Joaquim Manuel de Macedo (1848)
– Não, João; ele há de entregar-me a carta.
– Nada conseguirás.
– Nesse caso justiça será feita.
– Bem.
– Adeus, João; dentro de duas horas estarei de volta.
– Eu te espero, respondeu João.
O velho Rodrigues tomou o chapéu e dirigiu-se à casa de Salustiano.
CAPÍTULO XXXVII
TIA E SOBRINHA
POUCO mais ou menos à mesma hora em que o velho Rodrigues se dirigia à casa de Salustiano, uma escrava desceu do segundo andar do “Céu cor-de-rosa”, e entrando na sala do primeiro, onde se achava Celina, disse-lhe que sua tia pedia-lhe se podia subir ao seu quarto para dar-lhe umas palavras.
– Diga-lhe que já vou, respondeu a “Bela Órfã”.
E, pouco depois, subiu a escada vagarosamente, e pensando no que poderia ter dado motivo para tal conferência.
Celina não podia aborrecer a ninguém; mas, desde que soubera da cena, que no jardim tivera lugar entre Mariana e Cândido, começara também a desconfiar muito de sua tia.
Mariana estava em seu quarto, pálida, abatida e pensava, sentada em uma cadeira de braços. O franzimento de sua fronte, seus olhares às vezes amortecidos, às vezes pasmos, e sempre cravados no chão, e finalmente um não sei quê descuido em seu penteado e em seus vestidos pareciam revelar que uma dor profunda e transidora a atormentava.
Também as ricas e grandes senhoras padecem no fundo da alma! por detrás desses brilhantes adereços e custosas jóias, que lhes ornam e cobrem o colo, está às vezes aberta uma ferida que lhes vai até o âmago do coração; e esses lábios que sorriem tão graciosos, estão mil vezes a ponto de ser desmentidos pelo pranto dos olhos; e essas palavras de prazer e felicidade, que se dizem nas assembléias, fazem às pobres míseras que as pronunciam uma acerba e terrível ironia! elas rindo-se tanto e tão à força, e sendo tão desgraçadas na alma! Dourado vaso, que encheram de fel, cofre aprimorado, que esconde perigoso arcano... aí tendes a imagem de todas essas que são como Mariana.
Escravas sempre da vaidade, as mulheres acham sempre na vaidade os seus tormentos e o seu castigo. Lutam anos inteiros umas com as outras, e têm por armas os vestidos e as jóias, os sorrisos e os olhos. E uma se dói, recebe um golpe cruel somente porque o vestido da outra é mais belo; e não dorme uma noite inteira porque apareceram uns olhos pretos que valem o dobro dos seus!... mas isto é nada; o que é tudo é a vaidade dos sentimentos, que obriga a rir com o céu nos lábios tendo o inferno dentro do coração; que obriga a fingir-se venturosa quando se é desgraçada!... Estar em torturas, e dizer – sou feliz! – enganar o mundo por causa do mundo, e para ser invejada e não parecer vencida, nem mesmo nos mimos da fortuna!... tanta riqueza vestindo tão grande miséria!...
Deve ser bem amargosa vida!...
Porém Mariana sentiu que subiam a escada e conheceu as pisadas de sua sobrinha. Imediatamente uma revolução completa se operou nela; sua fronte desenrugou-se, seus olhos ergueram-se e brilharam. Em um momento, e com toda essa habilidade que caracteriza as senhoras, fez desaparecer todos os descuidos de seu toilette, e enfeitou os lábios com um sorriso angélico. Era, embora sua sobrinha, uma moça bela, e portanto uma rival que chegava. A mulher infeliz e abatida cedeu o lugar à senhora das festas e dos prazeres; a verdade foi abafada; a mentira ergueuse.
Celina entrou, Mariana mostrou-lhe com o dedo, e com graça indizível, uma cadeira defronte dela; e, vendo-a assentada, esteve por alguns momentos contemplando-a com expressão de enlevamento e prazer, até que a “Bela Órfã”, como para escapar àquele olhar, perguntou:
– Por que me está olhando assim, minha tia?...
– Oh! porque tu és a minha vaidade, Celina! Olha, quando te contemplo... lembro-me do que fui... parece-me que ainda estou nos dezesseis anos defronte do meu toucador, rindo-me vaidosa e louquinha, contente de mim mesma mãe e namorada de meus próprios encantos.
– Senhora...
– Não é verdade que dizem por aí que eu fui bem formosa?
– Dizem que minha tia ainda o é.
– Lisonjeira!... oh! mas enfim, eu conheço que não devo assustar a ninguém.
– Então...
– Todavia os dezesseis anos! os dezesseis anos! nesse tempo se está na flor da vida e no viço das graças! ninguém é feio aos dezesseis anos!
Depois de alguns instantes de silêncio a viúva prosseguiu dizendo:
– Para mim a vida de prazer e de encantos está em vésperas de acabar; para ti
é agora que começa. A primavera da idade com esse rosto tão belo, com esse olhar tão puro, Celina, faz sempre as delícias da mulher. Ainda não sentiste que para ti são guardadas todas as atenções?... ainda não notaste como te olham ardentes, como te falam tremendo, como te escutam em êxtase? Celina, aí está a prova solene de tua formosura. A moça bela é o delírio do mundo. Ah! que se aos dezesseis anos tivesse a mulher a experiência dos trinta, então com a beleza conseguiria tudo... honra...
fortuna... posição... tudo!...
– Ainda bem, minha tia, que as moças não são ambiciosas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Os Dois Amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2158 . Acesso em: 6 jan. 2026.