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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

O padre, ao recordar a frase, sorria, e logo se lhe firmava melhor na memória a figura do Felisberto, a repetir frases de um latim das brenhas estropiado e ridículo; e a dar aquelas explicações todas, com muita minudência, satisfeito por mostrar que não era um caboclo qualquer, mas um moço que tivera a sua educaçãozinha e até acolitara a padre João da Mata na própria Matriz de Maués, em pequeno, pelo que sabia ajudar a missa, acompanhar um enterro, puxar uma ladainha, e gabava-se de outras prendas... raras nos sertões de Guaranatuba. O sorriso fugira, porém, dos lábios do padre, ao lembrar-se do Macário, do seu pobre companheiro, que embalde procurara por toda a margem do rio, chamando-o em altas vozes, repetidas pelo eco da outra banda, e que talvez àquela hora tivesse naufragado, na frágil embarcação que a precipitação e o medo não lhe permitiriam dirigir com acerto no curso acidentado do Carumã. Depois perdido, sem recursos à beira dum rio deserto, padre Antônio cedera aos rogos do Felisberto que o queria levar para o sitio da Sapucaia, prometendo que o avô o guiaria, depois de algum repouso, ao porto dos Mundurucus, arranjando a condução necessária; e todos três haviam seguido pelo mato dentro, indo sair a um pequeno igarapé, todo coberto de ramagens verdes, onde urna água cristalina corria à sombra de araçás e maracujás silvestres. Um ubá de três bancos estava ali amarrado a um tronco de árvore. Embarcaram, o mestiço à proa, o padre no meio e o velho ao jacumã, e seguiram viagem para o sul em profundo silêncio, navegando cerca de quatro horas por baixo de ramos e cipós que cobriam o igarapé negando-lhe franca passagem. Depois chegaram ao furo da Sapucaia, que corta o Mamiá por ambas as margens, indo encontrar o Abacaxis, em cujo leito despeja as suas águas negras, duma admirável transparência. Afinal foram ter ao sítio de João Pimenta, que tinha um aspecto agradável, com a casa de palha, bem caiada e limpa, os taperebás e mangueiras do terreiro, parecendo mais a casa de vivenda dum cacaulista abastado da beira do Amazonas do que a propriedade dum pobre selvagem meio civilizado dos remotos sertões de Guaranatuba. Era local bem escolhido para uma vivenda de recreio, um bom retiro para o tempo dos tracajás e da desova das tartarugas. Os altos castanhais da margem oposta do furo estreito da Sapucaia proporcionavam ao sítio sombra e frescura nos dias de ardente verão, e ofereciam à vista, além da esplêndida vegetação, do sertão amazonense, a maior variedade de flores silvestres e uma fauna riquíssima com pássaros esquisitos e com caças de todos os tamanhos. Veados, antas, tamanduás, lontras, capivaras, caititus, enormes barrigudos e vermelhos caiararas vinham desassombrados beber a água do furo, animados do silêncio e tranqüilidade do lugar, apenas levemente alterado pelo deslizar suave do ubá de João Pimenta. A margem esquerda, em que estava o sítio, formava um contraste, a modo que de propósito, com a banda fronteira, pois ao passo que esta oferecia um perfeito espécime da mais virgem e rude mata do Amazonas, o que exaltava a imaginação de padre Antônio de Morais, o local do sítio do velho tuxaua fora completamente modificado por mãos inteligentes de homem de bom gosto. As altas sumaúmas, as agrestes embaubeiras, os cedros gigantescos haviam sido substituídos por grande variedade de plantas de cultura, de modo a tornar o sítio uma miniatura de toda a lavoura do Amazonas. A um cacautal de cerca de trezentos pés, que vinha descendo até o rio, unia-se um canavial, cuja cor verde-claro manchava o fundo escuro formado pelos cacaueiros densos; logo ao pé um pequeno pacoval se ocultava por trás dum renque de floridas laranjeiras, onde se aninhavam titipuruís e rouxinóis de peito amarelo, saltitantes e canoros. Dentro dum cercado coberto de grama miúda e vistosa pastavam duas ou três vacas, um touro e alguns bezerros de mama, e galinhas, patos, perus, marrecos e pavões pequenos mariscavam à sombra dos cajueiros, das mangueiras, e dos abieiros que cercavam a casa e desciam pelo terreiro abaixo até à beira da água, onde um arrozal, levantando as cristas das plantas, parecia ali posto para dar uma nota risonha à paisagem sombria das grandes árvores escuras.

(continua...)

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