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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Em caminho para o altar, o exímio artista olhou para os lados, falou em voz baixa aos seus ajudantes, e encarou a platéia com um sorriso de discreta soberania; mas de súbito o seu sorriso dilatou-se numa feição mais acentuada de orgulho: é que distinguira Ana Rosa, entre as devotas, ajoelhada num degrau da nave, de cabeça baixa, o ar contrito, a rezar freneticamente ao lado da avó.

Os turíbulos fumegaram com mais força; espirais de incenso espreguiçaram-se, dissolvendo-se no espaço; o ambiente saturou-se de perfumes sacros, e enervantes, e as mulheres, todas, se contraíram preparadas para místicos enlevos. O celebrante chegara enfim ao altar, depois de ajoelhar-se de leve, como fazendo uma mesura apressada, defronte dos santos grandes, aprumados nos seus tronos de brocados falsos. Os janotas, separados do altar-mor por uma grade de madeira preta, tiraram da algibeira, com a ponta dos dedos, o lenço almiscarado e ajoelhavam-se sobre ele, numa atitude elegante. As moças escondiam a boca no livrinho das rezas e passeavam furtivamente o olhar para o lado dos fraques pretos. Os que até ai estiveram ajoelhados, rezando à espera da missa, mudavam de posição; os opulentos quadris das pretas-minas rangiam; os ossos dos velhos estalavam; criancinhas soltavam aclamações de aplauso pela festa, algumas choravam. Mas, finalmente, tudo tomou um sossego artificial; fez-se silêncio, e a missa principiou solene, ao som do órgão.

Ao repicarem de novo os sinos, toda a gente se levantou com algazarra; os rapazes endireitavam as joelheiras das calças; as moças arranjavam os pufes e os laçarotes; as beatas sacudiam as suas eternas saias, agora entufadas pela pressão dos joelhos. A orquestra tocou uma música profana, alegre como uma farsa depois de um drama; e o cônego Diogo, na sacristia, tirava o seu pitoresco vestuário de seda bordada, que o sacristão recolhia religiosamente nas suas mãos de tísico, para guardar nos extensos gavetões de pau-negro.

O povo, confortado de religião, mas estalando pelo almoço espremia-se sôfrego pelas largas portas da matriz. Mendigos, alinhados à saída, pediam, com chorosa insistência, uma esmola pelo amor de Deus ou pelas divinas chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo; as devotas desapareciam pelo largo, ligeiras como baratas perseguidas; algumas senhoras, no vestíbulo, arejavam-se ao sol, esperando quem lhes dizia respeito e conversando garrulamente sobre o bom desempenho da missa sobre a excelência das vozes, a riqueza da roupa do padre e da toalha do altar e sobre a boa observância das cerimônias. Tudo agradara.

A igreja estava quase vazia. D. Maria Barbara e a neta esperavam pelo herói da função.

— Cá está sua afilhada, senhor cônego! Comungue-a; veja se lhe arranca o diabo de dentro do corpo! disse a velha ao vê-lo.

E, falando-lhe mais baixo, pediu-lhe com interesse que a aconselhasse bem; que lhe sacasse da cabecinha a idéia do tal cabra. E afinal afastou-se, traçando no espaço uma cruz na direção da neta.

— Vai! Deus te ponha virtude, que mau coração não tens tu, minha estonteada!

E saiu, para esperá-la na sala do cortador Benedito, que nessa ocasião aparecia trazendo um carro da cocheira do Porto.

O cônego Diogo calculara bem A encenação da missa, os amolecedores perfumes da igreja, o estômago em jejum, o venerando mistério dos latins, o cerimonial religioso, o esplendor dos altares, as luzes sinistramente amarelas dos círios, os sons plangentes do órgão, impressionariam a delicada sensibilidade nervosa da afilhada e quebrantariam o seu animo altaneiro, predispondo-a para a confissão. A pobre moça considerou-se culpada; pela primeira vez, entendeu que era um crime o que havia praticado com Raimundo. sentiu minguar-lhe aquela energia de aço, que lhe inspirara o seu amor, e, ao terminar a missa, quando a avó a depusera nas mãos do velho lobo da religião, a sua vontade era chorar.

Ajoelhou-se, muito comovida, na cadeira, junto ao confessionário e gaguejou, quase sem fôlego, o confliteou. Mas, à proporção que rezava, os seus sentidos embaciavam-se por um acanhamento espesso

— Vamos... disse-lhe o padrinho quando ela terminou a oração. Não tenha receios, minha filha!. Confie em mim, que sou seu amigo... Plus videas tuis oculis quan alinis! Por que chora?. . Diga. .

Ana Rosa tremia.

— Vamos! Não chore e abra-me o coração... Vai responder-me, como se estivesse falando com o próprio Deus, que tudo escuta e perdoa. Faça o sinal da cruz

Ela obedeceu.

— Diga-me, minha afilhada, não se tem ultimamente descuidado da religião?...

— Não senhor, balbuciou Ana Rosa por detrás do lenço.

—Tem rezado todas as vezes que se deita e todas as vezes que se levanta?...

—Tenho, sim senhor...

— E nessas rezas não promete obedecer a seus pais?...

— Prometo, sim senhor...

— E tem cumprido?

— Tenho, sim senhor.

— E sente a sua consciência tranqüila? acha que tem cumprido, à risca, tudo o que prometeu a Deus. e tudo o que lhe manda a Santa Madre Igreja?...

Ana Rosa não respondeu.

(continua...)

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