Por Aluísio Azevedo (1884)
— Ou então iremos nós... acrescentou a rapariga, fazendo um biquinho de enfado. E depois, com pieguice: — Tenho muito medo das maranhenses!...
O estudante não respondeu, foi ter com ela, tomou-lhe meigamente a cabeça entre as mãos.
— Esta cabecinha!... — disse — esta cabecinha não sei quando terá juízo!...
E, passando a falar em tom sério, protestou que era até injustiça supô-lo capaz de cometer uma perfídia daquela ordem! Amélia já devia estar perfeitamente convencida de que ele a amava deveras; de que ele não seria tão mau que a abandonasse, depois de receber tantos carinhos. Ela que não estivesse a descobrir perigos, onde nem sombras disso havia!... A tal viagem ao Norte, no fim de contas, era uma questão de dois ou três meses, e ele deixaria uma mesada regular e escreveria por todos os vapores!...
— Não acreditas ainda que te estou falando com sinceridade?... concluiu, a beijá-la nos olhos. — Que precisão tinha eu de te enganar?...
— Sim, creio, creio que por ora assim seja, não há dúvida! Mas também estou persuadida de que, logo que passes a barra, tudo muda de figura!... Nos primeiros dias ainda te lembrarás da infeliz que aqui deixaste, mas depois... com a presença de outras, com os novos passatempos que te esperam... até hás de perguntar aos teus botões “como foi que em algum dia chegaste a pensar a sério neste casamento?...”
— Bem se vê que não me conheces!... retorquiu o rapaz.
— Não! não! não irás! Sustentou Amélia. — Adoro-te, és meu, não te quero perder! Ora essa!
— Mas, filha, observou Amâncio impacientando-se, — lembra-te de que é mais decente fazermos a coisa por bons modos... afinal, tu não me podes constranger a ficar, e, eu, em vez de ir, deixando um compromisso de cavalheiro, sou capaz de ir, sem deixar coisa alguma! Ora aí tens!
— Hein?! Bradou ela, transformando-se a contragosto.— Cai nessa!
Experimenta só, para veres o gosto que lhe achas!
Amâncio respondeu com um gesto desabrido, enterrou o chapéu na cabeça, e saiu à toa, sem destino, com uma fúria surda a espezinhar-lhe o coração.
* * *
Mas, ao voltar, encontrou Amélia no mesmo estado. E a questão reapareceu à noite, reapareceu na manhã seguinte, e todos os dias, tomando um caráter de rezinga permanente.
Amâncio perdeu de todo a paciência.
— Era demais! Sebo! Ele, no fim de contas, não tinha obrigação nenhuma de aturar semelhante gaita nos ouvidos! Que mastigação! Arre! Amélia que fosse atenazar o pai!
Ela respondeu possessa, deixando escapar palavrões, “Supunha ter encontrado um homem, mas encontrara um quidam, um canalha, um desfrutador!”
— Desfrutadores são vocês todos! Percebes tu?! Berrou ele, colérico.– Desfrutadores — é teu irmão, — é tua madrasta e és tu! Que só faltam me arrancar a pele! Súcia de filantes!
E lembrou o que até aí gastara com eles, o que lhes dera, o que comprara e o que lhe desaparecia dos algibeiras.
— Não me estás de graça, não! exclamou, saindo afinal do quarto como da outra vez.
Desta, porém, quando voltou à casa, vinha com o ar mais despreocupado que se pode desejar. E, logo que Amélia lhe falou na questão da viagem, ele respondeu tranqüilamente que já não havia nada a esse respeito. “Resolvera ficar.”
A rapariga compreendeu o disfarce e, no dia seguinte, tratou de prevenir o irmão de que abrisse os olhos, se não queria ver o Sr. Amâncio escapar-lhe por entre os dedos.
João Coqueiro ficou de orelha em pé.
CAPÍTULO XIX
A pequena tinha toda a razão; Amâncio, se parecia resolvido a desistir da viagem, era porque nessa mesma tarde encontrara o Paiva e, na sua necessidade de expansão, levou-o para o fundo de um café e abriu-se com ele. Contou-lhe as dificuldades que o afligiam, e pediu-lhe conselhos.
— Não há que saber!...disse o consultado. — Não há que saber!...Aí só vejo dois partidos a tomar: — Ser tolo — ou — não ser tolo!
E, como o outro fizesse um trejeito de má compreensão:
— Tolo, se ficares e — não tolo — se te puseres ao fresco!
— Mas, Paiva, você então que devo ir?...perguntou Amâncio, hesitando, a morder as unhas.
— Homem! volveu aquele, — se precisas ir ao Norte, prepara-te caladinho e vai! Que necessidade tens tu de que a gente do Coqueiro saiba disso?...Deves-lhe satisfação de teus atos?...Se não deves, é aprontar as malas e...por aqui é o caminho! Olha! Deixa-lhe uma carta, muito delicada, já se vê, muito cheia de promessas. “Que voltas, que hás de fazer, que hás de acontecer!” E, no entanto, vai-te raspando...Porque estas coisas, filho, assim é que se decidem. E, quanto aos arranjos da viagem...cá estou eu para te ajudar!...
Calaram-se por alguns instantes. Paiva Rocha pediu um novo cherry – cobler e prosseguiu enquanto o amigo, muito pensativo, fitava o mármore da mesa:
— Agora, se estás tão embeiçado pela sujeita, que não tenhas ânimo de a deixar, isso é outra coisa!...Neste caso, o melhor é escrever à velha, dizendo-lhe que venha, arranjar um novo advogado de confiança que se encarregue de teus negócios no Maranhão, — e faze a vontade à pequena — casa-te!
Amâncio torceu o nariz com enfado:
— Qual!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.