Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Não sei como este ingrato se lembrou de vir cá!...

— É que lhe tenho de falar... em particular...

E como ela fizesse um movimento malicioso:

— Descanse, estou velho, não farei ciúmes a ninguém...

— Por mim, não os importunarei, declarou o Coelho Rocha, levantando­se com seus bigodões. Esperam­me para jantar.

— Eu também vou, disse o Lopes Filho, imitando­o. E foram beijar a mão da Ambrosina.

— Visto isso... acrescentou o Reguinho, depois de chupar os dentes.

— Mas eu, nesse caso, vim incomodá­los... Minha visita é rápida... observou o médico.

Seguiram­se grandes protestos de cortesia. Houve risos, apertos de mão, oferecimentos de casa, e afinal os três deixaram o campo livre.

— Venha para cá, doutor. Ficamos aqui mais à vontade, disse Ambrosina, passando o braço na cintura de Gaspar e conduzindo­o para um gabinete reservado. Agora, bem! Podemos livremente conversar.

E fechou a porta.

O Médico Misterioso não tinha ainda voltado a si do pasmo, que lhe causava tão inesperado acolhimento por parte de Ambrosina. Ele, que se lembrava ainda muito bem das suas últimas cenas com ela, pensou encontrá­la pouco disposta a atendê­lo, e eis que a caprichosa rapariga lhe dispensava agora todas aquelas amabilidades e se mostrava como nunca atenciosa.

— Ainda está muito zangado comigo?... perguntou ela, assim que os dois se viram a sós no gabinete.

— De forma alguma! respondeu Gaspar, e confesso que não contava ser tão bem recebido.

— O passado, passado! Não pensemos mais em tal. Além disso, naquela época, o senhor tinha toda a razão; eu é que era uma estonteada.

— Valha­nos isso! Estimo encontrá­la em tão boa disposição. Sabe? espero sair daqui devendo­lhe um grande obséquio...

— A mim?... Qual é?...

— Vai saber...

E o médico tirou da algibeira a carta, que tão engenhosamente havia substituído pela outra que rompera.

— Eu surpreendi esta carta sua, dirigida a meu enteado, guardei­a, e depois a li, com o consentimento do dono...

— Ah! E ele?...

— Ele não a leu...

— Não leu, por quê?

— Porque não deixei, ou porque ele não quis.

— Não quis como?...

— Para agradar­me, naturalmente; mas, como tenho pouca confiança em tudo isso, venho pessoalmente pedir­lhe que...

— Que...

— Que desista das ameaças que aqui estão escritas, nem só porque me intimida o escândalo iminente, como porque sei também que Gabriel não resistiria a tal provocação e acabaria por atirar­se novamente a seus pés...

Ambrosina não respondeu. Estava assentada num divã muito baixinho e fitava preocupadamente um ponto no chão.

— A senhora não calcula, prosseguiu o outro, quanto me custou convencer àquele pobre rapaz de que era necessário mudar de vida e trabalhar. Ele, coitado, se não tomar já e já uma resolução enérgica, perde­se totalmente, porque se irá pouco a pouco arruinando até chegar à completa miséria; é isso o que eu quero evitar. Sinto que estou velho, e preciso morrer descansado. Talvez haja um bocadinho de egoísmo nestas intenções, mas creia que eu trocaria de bom grado o resto da minha existência pela felicidade de Gabriel.

E o Médico Misterioso, depois de assentar­se mais perto de Ambrosina, continuou:

— Pois bem! Imagine agora o meu sobressalto ou quando, depois de conseguir de Gabriel sairmos amanhã mesmo do Brasil, e principiarmos, ao voltar, uma nova existência, dou com as palavras que lhe escreveu a senhora!..

E Gaspar leu na carta o seguinte:

"Sei que vais partir amanhã e peço­te que desistas de semelhante projeto. Estou hoje convencida de que de não posso passar sem o teu amor, e como a desgraça me fez egoísta, sinto­me resolvida a desmanchar com um escândalo a tua viagem, e a mim prender­te com mil beijos. Escolhe! Se quiseres resolver as cousas por bem, aparece­me hoje mesmo em minha casa. Se me não aparereceres até à noite, irei eu buscar­te onde estiveres!"

— Eis aí o que vinha eu pedir­lhe que não fizesse... disse humildemente Gaspar. Sei que isso não lhe custará muito, e estou disposto a recompensar­lhe esse obséquio com aquilo que a senhora exigir...

Ambrosina conservou por algum tempo o olhar caído, afinal cobriu o rosto com as mãos e desatou a soluçar.

— Sou uma desgraçada, murmurava ela, sacudida pelo pranto. — Sou muito desgraçada!

Gaspar passou­se para o divã, e amparou­a nos braços.

— Não se mortifique, disse; não se aflija desse modo...

Ambrosina encostou­se ao ombro dele e, depois de soluçar dramaticamente, exclamou com uma voz apressada e cheia de choro:

— Não é que o ame! não! Eu nunca amei Gabriel! Mas eu o queria ao pé de mim, pelo simples fato de ser ele o único que me tem verdadeiro amor! Não é pelo desejo de amar que o procuro, mas é pela necessidade de ser amada!

— Ora! Há por aí muito homem que a ame loucamente!...

— Por capricho, por fantasia, ou por vaidade... Eu sou hoje a mulher da moda e custo caro. Amor! Amor por amor, só conto com o Gabriel!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...9899100101102...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →