Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Maria tinha tido já não poucos amantes, e o último, o Coronel Antônio Carlos Furtado de Mendonça, irmão do visconde de Barbacena, deixou-a, para ir tomar conta do Governo de Minas Gerais, por nomeação do marquês de Lavradio. O coração da bela moça pareceu a alguém ter então ficado em uma espécie de viuvez. Ninguém lhe conhecia amante nem preferido. Mas o marquês, apesar disso, e a despeito do seu brilhantismo e da sua influência de vice-rei, não conseguiu fazer-se amar.
O marquês, depois de perseguir debalde a cruel moça veio, enfim, a descobrir que ela amava perdidamente a um mancebo pardo que era um dos cômicos da casa da ópera.
Que delito cometeu esse moço, não sei. Contam, porém, que ele fora preso, e que da cadeia ia representar ao teatro, e findo o espetáculo, voltava do teatro para a cadeia.
Quem sabe se esta prisão não era uma exigência da família ofendida, e se o marquês de Lavradio, em vez de ser acusado de uma condescendência que se tornara em injusta opressão, carregou com a culpa de uma ignóbil vingança que não caía em seu coração?
Mistérios do passado!
Mas em todo o caso, o preso ainda gozava mais do que o vice-rei. Porque em todas as noites, uma mulher engraçada e elegante, trazendo a cabeça envolvida em longo manto, passava repetidas vezes em frente da janela da cadeia, donde o amado preso lhe pagava com suspiros aqueles ternos passeios noturnos.
O vice-rei esperou, desesperou, teve de consolar-se com outras belas menos cruéis da ingratidão da formosa Maria.
Entretanto, os pardos do quarto regimento pretenderam que o marquês de Lavradio estendera a todos os pardos o ódio que tivera do cômico, seu rival preferido, e por isso escolhera o Major Melo para comandá-los.
Falta por certo fundamento para tal suposição. Mas, ainda mesmo infundada, ela subsistiu.
Enfim, o marquês de Lavradio foi substituído no vice-reinado do Brasil por Luís de Vasconcelos e Sousa.
O Major Melo continuou a comandar o quarto regimento.
Entra de novo em cena Alexandre Dias de Resende.
O Capitão Resende foi um dia indignamente desatendido por um dos soldados da sua companhia. O caso era grave e exigia uma forte punição.
Ressentido da ofensa, o Capitão Resende foi à casa do major, e, expondo a triste ocorrência, declarou que julgava não dever prescindir de uma satisfação.
O Major Melo olhou para o capitão com desprezo, e disse-lhe com um tom de inconvenientíssima zombaria:
– Homem, vocês são mulatos, lá se entendem.
E voltou-lhes as costas.
O capitão Resende, ainda mais ultrajado pelo seu comandante do que pelo soldado, correu ao palácio e fez-se anunciar, pedindo uma audiência do vice-rei.
Luís de Vasconcelos recebeu-o imediatamente, e, ouvindo as queixas que o ofendido lhe vinha apresentar, prometeu-lhe justiça pronta, despediu-o e mandou logo chamar o comandante do quarto regimento.
O Major Melo, acudindo ao chamado do vice-rei, e sendo por ele interrogado a respeito do motivo da queixa do capitão, confessou tudo sem hesitar, e até sem defender-se.
Então Luís de Vasconcelos repreendeu-o severamente, lançando-lhe em rosto o seu descomedimento e o insulto com que ultrajara o Capitão Resende, e acabou por ordenar-lhe que se recolhesse preso a uma das fortalezas.
Ouvindo a ordem de prisão que acabava de receber, o Major Melo não se pôde conter e exclamou:
– Preso! Pois deveras V. Exa me manda prender?
O vice-rei respondeu sossegadamente:
– Homem, nós somos brancos, cá nos entendemos.
O Major Melo foi preso, perdendo o comando do regimento dos pardos. E, mandado servir no Sul, lá ficou por muitos anos, voltando somente ao Rio de Janeiro depois da chegada da família real.
E cheguei apenas ao meio da história do Capitão Alexandre Dias de Resende, e já o nosso passeio de hoje se acha com proporções tais que, se eu quisesse estendê-lo até à conclusão da história, seria obrigado a transformá-lo, de simples passeio que deve ser, em viagens de longo curso, que não convém que seja.
Devo, portanto, parar aqui.
Façam de conta que deu a hora no relógio da casa e que o Sr. Presidente me convida a interromper o meu discurso, reservando-me a palavra para a próxima sessão.
IV
No meu antecedente passeio tive de interromper, obrigado por força maior, a história que vos contava de Alexandre Dias de Resende. Mas, se não tendes memória infeliz, deveis lembrar-vos que deixamos esse bom homem elevado a capitão, e à frente da sua companhia do regimento dos pardos.
De uma só ligeira penada termino as minhas informações a respeito da carreira militar de Resende, dizendo-vos que ele chegou a sargento-mor, e com essa patente morreu em 1812.
Mas não penseis que somente na vida da militância foi que Resende teve de provar amarguras e decepções.
Ides ver que ele foi tão infeliz com os padres da irmandade de S. Pedro, como tinha sido com o Major Melo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.