Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

A luz da vida — o facho que o homem se guia na longa viagem deste mundo — a fonte inesgotável donde o pensamento tira as tintas cor de fogo para pintar formosos arabescos no painel do futuro — a balança encantada em que o homem se equilibra entre os males que experimenta, e os bens que almeja — eis a esperança!...

Ninguém, ninguém vive sem esperança: por que, pois, não a terei eu também?... oh!... ainda que seja uma ilusão... eu a quero!...

A esperança é o alimento do espírito... a alma do coração...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

V

Tenho sido tão ousado, como feliz! em meus sonos de mancebo jamais sonhei gozar tantas delícias, como as que me tem dado a realidade deste amor.

Escreverei aqui a história da minha vida, desde que me fiz cabeleireiro, até que fui velho pescador.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

........ A minha sempre-viva caiu dentro de sua câmara... a seus pés!... sua mão ia talvez lançá-la fora, quando valeu-me o zéfiro da manhã... e, portanto, esse zéfiro será sempre para mim o sopro de Deus!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Salvei-a!... salvei-a!... como me encho de orgulho! como me considero coberto de glória!... é um homem pobre... desvalido... sem amigos, só no mundo, que se entusiasma por ter arrancado das garras da morte a obra mais perfeita do Criador!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Eu receio estar cometendo um sacrilégio... eu tenho medo de que o céu me castigue... porque ouso pensar que sou amado!...

Meus Deus! se isso não é verdade, deixai-me ir gozando meus dias embalado por tão doce mentira...

Já agora viver sem essa deliciosa ilusão é um impossível; é o único sacrifício que eu não faria a Honorina.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

VI

O que seria do homem sem o amor da mulher?

Ir até o fim dessa longa viagem da vida, que se começa chorando, e se acaba com um gemido; contar tantos anos, em que algumas horas de ventura são sufocadas pela corrente imensa desses dias de infortúnios, fora certamente impossível, se não houvesse desejos na alma, e esperança no coração do homem.

E a mulher é a fonte das mais doces esperanças, e o objeto dos mais ternos desejos.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Deus tinha previsto que a vida com tantas tempestades se tornaria desagradável, enfadonha ao homem; que o mundo tão semeado de abismos seria um perigo para a virtude; e assoprou na alma do mesmo homem uma chama sagrada, que alimenta a virtude: — é a esperança da eternidade —; e plantou-lhe no coração um sentimento generoso e nobre, que sabe prendê-lo à vida: é o amor da mulher.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

E o homem deve ser para a mulher como o favônio da aurora ou o orvalho da noite são para a flor; porque também ela é para o homem, como a flor para o prado, a fragrância para o zéfiro, o sorriso para os lábios, e a ventura para o coração.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Seja, portanto, a alma do homem uma harpa harmoniosa; e converta ela seus pensamentos todos em hinos jamais interrompidos, e votados sempre à mulher!...

VII

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

. . . . . . . . .

VIII

A desgraça veio sobre mim imprevista, inesperada como o raio; furiosa, terrível, como o

tigre.

Não há mais esperança para mim.

Estou outra vez no que era dantes; estou de novo nas trevas; e minha posição é agora dobradamente cruel; porque a luz já tocou meus olhos... e, portanto, posso avaliar o bem que tenho perdido!...

Ah!... o homem que nasce cego é menos infeliz do que aquele que cega depois de ter visto; o primeiro não goza nada... mas também não conhece o valor daquilo que não goza!... Para que ouvi eu a voz, vi o rosto, e compreendi a alma dessa mulher-anjo, que nunca poderá derramar vistas de amor sobre meu rosto?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...9899100101102...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →