Por Aluísio Azevedo (1884)
E só. Todas as outras suas conquistas não valiam nada ;de algumas tinha, contudo, bem boas recordações: a Francisca de Vila do Paço. Por exemplo, — uma caboclinha, que se apaixonou por ele e vinha persegui-lo até a cidade; uma espanhola, mulher de um tipo barbado e calvo, que andava a mostrar figuras de cera pelas províncias do Norte, uma senhora gorda. Amasiada com um boticário, da qual elogiavam muito as virtudes, mas que um dia atirou-se brutalmente sobre Amâncio, dizendo que o amava e trincando-lhe os beiços. E como estas, outras e outras recordações foram-se enfiando e desenfiando pelo espírito sensual e mesquinho do vaidoso, até deixá-lo mergulhado na apatia dos entes sem ideais e sem aspirações.
Mas, já não queria pensar nesses amores da província; tudo isso agora se lhe afigurava ridículo e acanhado. A Corte, sim! é que lhe havia de proporcionar boas conquistas. “Ia principiar a vida!”
E, nessa disposição chegou ao Rio de Janeiro.
CAPÍTULO III
Estava hospedado há dois dias em casa do Campos; esse tempo levara ele a entregar cartas e encomendas. À noite, fatigado e entorpecido pelo calor, mal tinha ânimo para dar uma vista de olhos pelas ruas da cidade.
Entretanto, a vida externa o atraía de um modo desabrido; estalava por cair no meio desse formigueiro, desse bulício vertiginoso, cuja vibração lhe chegava aos ouvidos, como os ecos longínquos de uma saturnal. Queria ver de perto o que vinha a ser essa grande Corte, de que tanto lhe falavam ;ouvira contar maravilhas a respeito das cortesãs cínicas e formosas, ceias pela madrugada, passeios ao Jardim Botânico, em carros descobertos, o champanha ao lado, o cocheiro bêbado; — e tudo isso o atraía em silêncio, e tudo isso o fascinava, o fisgava com o domínio secreto de um vício antigo.
— Mas, por onde havia de principiar?...Não tinha relações, não tinha amigos que o encaminhassem! Além disso, o Campos estava sempre a lhe moer o juízo com as matrículas, com a entrada na academia, com o inferno de obrigações a cumprir, cada qual mais pesada, mais antipática, mais insuportável!
— Olhe, seu Amâncio, que o tempo não espicha — encolhe!...É bom ir cuidando disso!... Repetia-lhe negociante, fazendo ar sério e comprometido. — Veja agora se vai perder o ano! Veja se quer arranjar por aí um par de botas!...
Amâncio fingia-se logo muito preocupado com os estudos e falava calorosamente na matrícula.
Mexa-se então, homem de Deus! Bradava o outro. — Os dias estão correndo. Afinal, graças aos esforços de Campos, consegui matricular-se na academia, duas semanas depois de ter chegado ao Rio de Janeiro.
O medo às matemáticas levara-o a desistir da Marinha e agarrar-se à Medicina, como quem se agarra a uma tábua de salvação; pois o Direito, se bem que, para ele, fosse de todas a mais risonha, não lhe servia igualmente, visto que Amâncio não estava disposto a deixar a Corte e ir ser estudante na província.
A medicina, contudo longe de seduzi-lo, causava-lhe um tédio atroz. Seu temperamento aventuroso e frívolo não se conciliava com as frias verdades da cirurgia e com as pacientes investigações da terapêutica. Pressentia claramente que nunca daria um bom médico, que jamais teria amor às sua profissão.
Esteve a desistir logo nos primeiros dias de aula: o cheiro nauseabundo do anfiteatro da escola, o aspecto nojento dos cadáveres, as maçantes lições de Química, Física e Botânica, as troças dos veteranos, a descrição minuciosa e fatigante da osteologia, a cara insociável dos explicadores; tudo isso o fazia vacilar tudo isso lhe punha no coração um duro sentimento de má vontade, uma antipatia angustiosa, um não querer doloroso e taciturno.
Às vezes, no entanto, pretendia reagir: atirava-se ao Baunis Bouchard e ao Vale, disposto a ler durante horas consecutivas, disposto a prestar atenção, a compreender; mal, porém, ele se entregava aos compêndios, o pensamento, pé ante pé, ia-se escapando da leitura, fugia sorrateiramente pela janela, ganhava a rua, e prendia-se ao primeiro frufru da saia que encontrasse.
E Amâncio continuava a ler a estranha tecnologia da ciência, a repetir maquinalmente, de cor, os caracteres distintivos das vértebras, ou a cismar abstrato nas propriedades do cloro e do bromo, sem todavia conseguir que patavina daquilo lhe ficasse na cabeça.
— Não haver uma academia de Direito no Rio de Janeiro!lamentava ele, bocejando, a olhar vagamente a sua enfiada de vértebras, que havia comprado no dia anterior.
Porque, no fim de contas, tudo que cheirasse a ciência de observação o enfastiava: “Deixassem lá, que a tal osteologia e a tal Química nada ficavam a dever às matemáticas!...”
Ah! o Direito, o Direito é que , incontestavelmente, devia ser a sua carreia. Preferia-o por achá-lo menos áspero, mais tangível, mais dócil, que outra qualquer matéria. E esse mesmo...Valha-me Deus! tinha ainda contra si o diabo do latim, que era bastante para o tornar difícil.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.