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#Contos#Literatura Brasileira

O pai

Por Machado de Assis (1886)

Era uma bela criatura, apesar da magreza e da palidez, sendo que essa palidez e essa magreza davam ainda realce à beleza natural da moça em virtude do vestido negro que trazia, como luto de sua honra, e os cabelos desleixadamente atados sobre a nuca. Davi não pôde deixar de parar uns segundos diante de Emília sem dirigir-lhe uma só palavra. Se depois da narração feita pelo pai a que dava a vida da moça um fundo romanesco, Davi encontrasse uma mulher de aspecto vulgar, a impressão seria menor; não acontecendo assim, realçando a beleza de Emília o episódio tão curioso dos amores de Valentim, Davi, que, como todo o verdadeiro poeta, conservava, apesar dos anos, a fantasia e o coração, não pôde deixar de ficar impressionado.

Passado o primeiro momento de admiração, Davi encaminhou-se para a moça, e disse lhe algumas palavras próprias da ocasião.

Depois sentaram-se todos.

Não fora convencionado, mas o velho poeta compreendeu bem que era descabida toda a convenção no assunto do amor e do crime de Valentim.

A conversa versou portanto sobre coisa diferente e estranha daquela, mostrando-se Davi, o mais que pôde, ignorante do passado de Emília.

Davi despediu-se e voltou para casa.

Vicente e Emília insistiram para que ele lá voltasse, e Davi prometeu. E, com efeito, durante oito dias, Davi fazia regularmente uma visita diária ao amigo e vizinho.

Mas no fim de oito dias Davi não foi lá, nem deu sinais de si.

Durante dois dias conservou-se a casa fechada; mal aparecia, uma ou outra vez o criado Elói.

Vicente cuidou que o poeta estivesse doente, e lá foi. Elói apareceu e disse que o poeta tinha saído declarando que não voltaria antes de dois meses. Entretanto, deixara uma carta para ser entregue a Vicente.

Vicente recebeu a carta e foi lê-la em casa.

Dizia o poeta:

Meu caro amigo. Esta carta dar-lhe-á notícia, quando aí for, de que eu me ausento por dois meses.

Os motivos desta ausência são particulares. Talvez lhos diga depois. O que lhe peço é que, no caso de mudar de casa, faça-me chegar a notícia exata da sua nova residência. Adeus; até breve.

— Davi, poeta para si, amigo para Vicente, estranho para toda a humanidade.

Vicente leu esta carta a Emília, e lamentou com ela a repentina saída de Davi.

— Era o meu único amigo, e esse mesmo me falta.

— Mas, por dois meses...

— Eu sei lá... Dois meses... Também...

Vicente concluiu mentalmente a frase que dizia respeito a Valentim. Entretanto voltaram os dois às funções regulares da horta e da costura, à espera que chegasse o dia da volta do poeta.

Tudo continuou, portanto, como outrora.

Não durou, porém, isto mais do que quinze dias, ao cabo dos quais Vicente adoeceu. Foi o sinal da agitação naquela família, que tão sossegada e silenciosamente vivia. Emília, assustada ao princípio com os sintomas de uma grave enfermidade para seu pai, quis ir ela própria chamar o médico.

Vicente disse-lhe que chamasse antes o criado de Davi, e que por caridade este se prestaria a isso.

Com efeito, mal a filha do hortelão fez saber a Elói o serviço que exigiam dele, o criado apressou-se em ir à cata de um médico, e depois à compra dos medicamentos precisos. Esta solicitude, confessou depois o próprio Elói, era ordem expressa de Davi.

— Ah! dizia Vicente quando soube desta circunstância, e aquele amigo tão longe! Se eu morrer?...

— Morrer? Não fale nisso, meu pai...

— É muito possível, minha filha, eu nem sempre hei de viver, e bom é que nos acostumemos a este pensamento, de que, aliás, nunca nos devíamos esquecer. Emília chorava ouvindo estas palavras de seu pai. Vicente, para distraí-la, começava de afagá-la e passava a assuntos diferentes.

Entretanto, a moléstia de Vicente agravou-se, e o médico chegou a recear pelos dias do enfermo.

Quando Emília soube do estado grave de seu pai quase endoideceu. Não era só o arrimo que perdia; era a imagem viva da consolação e do conforto que ela tinha nele e que estava prestes a separar-se dela.

Redobraram os cuidados.

Elói durante algumas noites deixou a casa do amo para ir passá-las ao pé do enfermo. Emília por seu lado passava as noites em claro, e só cedia às instâncias do criado para que fosse descansar, quando já lhe era absolutamente impossível conservar-se acordada. Ainda assim pouco dormia. Passando da realidade dos fatos, Emília era dominada pelos mistérios da imaginação. Os sonhos mais lúgubres e assustadores atordoaram o seu espírito durante o sono.

Uma noite, em que Elói, sentado em um pequeno banco, fazia esforços incríveis contra o sono que o invadia, Vicente acordou de uma madorna de meia hora. Viu que o criado fugia embalde ao sono, e cuidou que a filha também estivesse repousando. Mas, desviando o olhar para o fundo do quarto, deu com os olhos em Emília, ajoelhada, apoiada em uma cadeira, implorando não sei que santo invisível pela saúde do pai. Este espetáculo comoveu o doente. As lágrimas vieram-lhe aos olhos. Lembrou-se então das horas longas e choradas que passara igualmente junto ao leito da filha, implorando ao Senhor pela saúde dela.

(continua...)

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