Por Bernardo Guimarães (1872)
Todos os dias, pois, em horas indeterminadas, via-se Elias, na espaçosa varanda, assentado em um comprido e antigo banco de cedro entre as duas meninas, debaixo das vistas do Major, bem entendido, ocupado em ensinar-lhes os rudimentos de música e a dar-lhes lições de solfejo. A perspectiva que tinham em frente era magnífica: a vista se perdia por vastas e risonhas Campinas e remotos horizontes, banhados pela luz de um sol esplêndido. E por entre a algazarra dos melros, pintassilgos e patativas, que chilravam em torno da casa, e os gorjeios cadenciados do sabiá que cantava ao longe, ouviam-se os ensaios tímidos daquelas duas vozes infantis. Era de sobejo para encantar e exaltar a imaginação impressionável do mancebo, que nessas horas de doce ocupação esquecia-se de si, de sua pobreza, do seu futuro, para se entregar ao enlevo do mais puro e do mais ideal dos amores. As duas alunas também, por sua parte, e principalmente Lúcia, tinham aquelas horas pelas mais bem empregadas da sua vida. Mas Elias já tinha lido a “Júlia” de João Jacques Rousseau, e no meio de suas doces emoções às vezes estremecia ao lembrar-se da sorte dos dois amantes no romance do imortal filósofo de Genebra.
O contato íntimo daqueles dois corações, que pareciam criados um para o outro, acabou de abrasa-los em uma paixão enérgica e profunda, dessas que não se extinguem senão com a vida. No seio da solidão as paixões tomam maior vulto e se enraízam mais na alma, do que no meio do bulício e das distrações do mundo. A alma solitária é como a fonte do deserto, resguardada dos ventos, que no regaço límpido e imóvel guarda fielmente a imagem do arvoredo que a sombreia.
Lúcia e Elias amavam-se; todavia nem uma só palavra de amor lhes havia ainda escapado dos lábios; os olhares e os sorrisos diziam tudo; eles sabiam muito bem que se amavam, e era quanto bastava para sua felicidade. Como dois cisnes, deixavam-se levar descuidosamente pela torrente plácida e voluptuosa das emoções presentes, sem se lembrarem que mais além podiam ser arrastados e despedaçados por furiosas cachoeiras, ou engolidos em trevos sorvedouros.
Elias suspirava por uma ocasião de poder estar a sós com Lúcia, e de declarar-lhe de viva voz o seu amor; mas essa ocasião por si mesma não podia oferecer-se. Todos os dias tomava a firme resolução de pedir furtivamente à moça uma entrevista, cujo lugar e hora já tinha premeditado. Mas, quando era ocasião de falar-lhe, um invencível acanhamento como que lhe paralisava a língua; receava profanar com aquele pedido a pureza Angélica daquela criatura.
Um dia enfim revestiu-se de ânimo a superar os seus escrúpulos.
- Ah! Se eu um dia pudesse falar sem testemunhas, e revelar-lhe tudo quanto sinto! - disse ele baixinho a Lúcia numa ocasião em que o pai se ausentara por um momento.
-mas. . . isso. . . não pode ser, -murmurou Lúcia com voz breve e decisiva, mas cobrindo-se de tal vermelhidão, que se teria traído completamente, se ali houvesse olhos perspicazes e perscrutadores.
-talvez possa – continuou Elias sorrindo. -sei que a senhora passa ás vezes horas inteiras sozinha na fonte do quintal. Ficará muito assustada, se eu um dia lá aparecer?
-sem dúvida! . . . não; não vá; senão, nunca mais lá voltarei.
- Nada receie; eu a respeitarei tanto ou mais do que se estivéssemos aqui, em presença de seu pai.
- Não vá, não. . . tenho medo. Agora nunca mais irei lá sozinha.
- Perdão, minha senhora! Não lhe teria feito este pedido, se soubesse que me tinha tanta aversão.
- Aversão! . . .
Os tamancos do Major, ressoando no soalho, anunciavam a sua volta, e impuseram silêncio aos dois amantes.
No primeiro dia que se seguiu a este colóquio, Lúcia cumpriu restritamente a ameaça que fizera de não voltar mais à fonte; mas só Deus sabe quanto isto lhe custou. No segundo dia foi, porém acompanhada de sua irmã e de Joana; pensava seriamente nas conseqüências daquele passo, e tinha medo; mais o coração a arrastava para lá. Elias, que tudo observava com a vista perspicaz do amante, que ouvia a voz dela, sentia-lhe os passos, e quase adivinhava quando estava em casa, e que, além disso, subindo um pouco pela encosta do espigão podia atravessar o estreito trilho que embrenhando-se pelo pomar ia ter à fonte não pôde deixar de manifestar seu descontentamento não por palavras mas por seu ar triste e taciturno.
Ao terceiro dia Lúcia não pôde conter-se, tomou sua cestinha de costura e lá desceu a sentar-se à sombra no gramal da fonte. Elias bem o pressentiu; mas era já muito tarde para ter tempo e dar as voltas necessárias a fim de ocultar seus passos; e portanto lá não apareceu.
- Cumpriu a sua promessa de não ir mais à fonte? - perguntou-lhe ele no outro dia à hora da lição.
- Cumpri sim senhor; sozinha não vou lá mais.
- Entretanto se me não engano parece-me que a vi ontem descer sozinha para lá.
- Quem? A mim? O senhor viu? . . .
- Sim, senhora, vi; e creio que era mesmo a senhora.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.