Por Bernardo Guimarães (1869)
— Gonçalo, nem sempre a gente está para brincadeiras. Se és deveras meu amigo, não estejas a provocar-me com esses gracejos de mau gosto; olha que há certas coisas, certos sentimentos, com que não se pode brincar sem perigo.
— Perigo! algum dia me viste recuar diante de perigo algum, meu criançola? diz antes que já te pesa a cabeça antes de tempo, e por isso andas assim focinhudo e cabisbaixo.
— Gonçalo, tu estás de propósito a querer queimar-me o sangue!... se continuas, estão rotos os laços de nossa amizade desde este momento, e...
— E o quê?... cala-te, meu tolo; não te amofines por tão pouca coisa. Aquela menina, por quem morres, se eu o quiser, posso levá-la hoje mesmo na minha garupa para onde me aprouver.
— Disso não és tu capaz, Gonçalo; eu juro por minha alma; antes que lhe ponhas a mão, cairás morto a meus pés, ou deverás passar por cima de meu cadáver.
— Santo Deus! como está exaltado o homem! Para que fui eu pisar no rabo do cascavel, que dormia! Perdão, meu Reinaldinho, continua Gonçalo com ironia e em tom de conselho; perdão, eu não te quero ofender; mas aqui entre nós, e como amigo, devo declarar-te que não tens o direito de ser o único senhor e possuidor daquela bonita jóia, senão no caso que ela muito de sua livre vontade queira continuar a ser tua.
— Gonçalo, és um vil, um infame traidor! bradou Reinaldo espumante e lívido de cólera. Nasceste para as galés e para a forca, e não para viver entre homens, que se prezam e se respeitam. Desprezo as tuas palavras como vindas de um ébrio; de um sandeu.
— Pelo que vejo, replica Gonçalo com um riso amarelo forcejando por dissimular seu despeito, pelo que vejo não estás disposto a ceder-me por modo nenhum a tua amada. Pois bem, eu a tomarei por força.
— Não a tomarás, Gonçalo; eu te juro.
— E quem me impedirá?...
— Eu!
— Sai-te daí, criança; com um pontapé te arredarei do meio do caminho.
Gonçalo pronunciou estas palavras com ar de desprezo e compaixão e voltou as costas a Reinaldo. Este dá um pulo de tigre e agarrando a Gonçalo pelo braço empuxa-o violentamente e brada:
— Aqui, Gonçalo, aqui! se não és um fanfarrão, um cobarde, hás de pôr em execução as tuas ameaças, e já!
Gonçalo arranca o braço das mãos de Reinaldo, de um salto tomando distância a três passos, já de faca alçada, grita:
— Arreda-te daí, atrevido, antes que te ponha o bucho à mostra!
— A mim, fanfarrão! vem, que eu não arredarei um dedo; não temo as tuas bazófias.
Os dois contendores estavam em distância de quatro a cinco passos um do outro; as facas brandidas convulsivamente relampeavam ameaçadoras por cima de suas cabeças, rangiam-lhes os dentes, e nos olhos lhes fuzilava um lume torvo como as chamas do inferno. Eram como dois canguçus enciumados, que ao se encontrarem arreganham os dentes e rosnam furiosos antes de se arrojarem um sobre o outro.
O negócio já cheirava a sangue, e aquela festa, começada na paz e na alegria, estava prestes a ter o mais sanguinolento desfecho.
— Misericórdia! misericórdia! — que será isto! — Virgem Santa! — bradavase de todos os cantos.
Uma turba de homens e mulheres em gritos lançam-se afoitamente em meio dos dois.
— Deixe, deixe esse maluco vir rasgar-me as tripas! vociferava Reinaldo como querendo voar por cima deles e a muito custo o podiam conter.
— Chega-te, rapaz, rugia Gonçalo, chega-te para cá, que quero aqui mesmo coser-te a facadas, e aliviar-te para sempre desse ciúme danado que te ferve no coração.
Por alguns momentos durou esta cena sinistra, que teria tido o mais trágico resultado, se a turba em uma gritaria imensa não se entrepusesse intrepidamente entre as duas facas, que se agitavam fuzilando por cima daquela multidão de cabeças, e já retiniam chocando-se uma na outra; até que a muito custo conseguiu-se que se não travasse a luta.
O sossego restabeleceu-se finalmente; mas que sossego triste e desanimado! que contraste entre o festival e alegre bulício e algazarra que ainda há pouco reinavam naquela reunião e esse surdo e sinistro murmúrio que agora rumorejava pelos ângulos da sala. Os convivas tinham perdido toda a vontade de rir e divertir-se, e andavam em grupos pelos cantos conversando em voz baixa debaixo da impressão de um invencível terror, fazendo as mais temerosas reflexões sobre aquele triste incidente.
Em vão mestre Mateus com seu ar bonachão e jovial se esforçava por desvanecer a terrível impressão que deixara nos ânimos de todos aquela temerosa pendência; era tudo baldado. Os mais prudentes ou medrosos foram-se pondo ao fresco, e a sala em poucos instantes ficou reduzida a menos de metade dos comparsas.
— Vamos, minha gente! gritava mestre Mateus, que pasmaceira é esta! aquilo foi uma ninharia, e uma travessura de rapazes; daqui a pouco terão esquecido tudo, e estarão mais amigos do que dantes. Vamos, rapaziada! ânimo! tomem da assada, e vamos com o folguedo acima.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.