Por Bernardo Guimarães (1872)
– Pois bem, senhores – retrucou Eduardo já agoniado com as toleimas do primo e com um sorriso sardônico – façamos de conta, que foi o sr. Roberto, quem matou a onça; isso pouco me importa, e não quero que diga outra vez que estou me gabando. O que me importa é poder restabelecer-me destas feridas para poder tratar dos meus negócios. Peço que se esqueçam do pequeno serviço, que tive a fortuna de fazer-lhes, e tratem somente do meu curativo.
– Esquecer! oh! isso nunca! nunca esqueceremos. Mas, silêncio, sr. Eduardo; não lhe convém falar muito e muito menos alterar-se. Tranqüilize-se, que não pouparemos cuidados e desvelos para o seu completo restabelecimento. Paulina, Roberto, vamo-nos daqui, deixemos o sr. Eduardo descansar; ele precisa mais de repouso de que de qualquer outra coisa.
Capítulo III
O primo Que pedaço de bruto não é o tal senhor primo Roberto! ficou pensando consigo Eduardo, apenas os três se retiraram. – Pelo que vejo tem paixão pela prima, e quer me parecer que o paspalhão começa a coçar a canela por minha causa. Forte bobo! e entrar nos cascos de um tal palerma ser o amante de uma menina tão meigazinha, tão delicada!... Entretanto, se eu não tivesse o coração tão cheio de amor, tão ocupado com a imagem da minha Lucinda, teria de amar por força esta menina. Tão meiga, tão formosa, disputada a uma fera quase à custa da minha vida!... ah! parece que o céu a tinha destinado para mim!... é estranho encontrar-se nestes sertões uma criaturinha tão mimosa, tão perfeita. Ah! senhor Roberto! senhor Roberto! dê parabéns à sua fortuna de eu já ter empenhado o meu coração e a minha palavra, quando não impreterivelmente o tirava do lance, e então é que lhe havia de amargar a boca!
– Então prima, o que lhe parece o maluco daquele matador de onças? ia Roberto dizendo a sua prima, depois que saíram do quarto de Eduardo, e enquanto atravessavam um comprido corredor, que ia terminar numa varanda aberta dando para o vasto curral da fazenda. – Matar uma onça então é para qualquer?... o pateta cuidou que uma onça se mata assim como se mata um gambá; coitado! não foi má a esfrega que levou. Tão cedo não lhe voltará a vontade de andar pelos matos às escaramuças com as onças.
– Quem sabe, primo Roberto, ainda pode escaramuçar muitas, e matá-las como matou a de ontem, e talvez com mais felicidade. É um valente e destemido moço aquele!...
Este elogio foi uma seta, que partiu da boca de Paulina para o coração de Roberto.
– Valente! – exclamou ele com um sorriso forçado e amarelo; – ora não fale, prima. É paulista, e basta. Dizer paulista, é o mesmo que dizer bazófia e fanfarrice. Eu tenho matado mais onças, antas, queixadas, jacarés, sucuris, e quanto bicho bravo há pelo mato, do que a prima mata de pulgas na sua cama, e disso nem dou fé e nem ando me gabando. Agora porque aquele pelintra de um muladeiro matou por acaso uma onça estão fazendo um escarcéu, meu Deus! já pensam que estão em casa com um Roldão ou um Ferrabrás de Alexandria.
– Não é por ter matado a onça, primo... arre lá! quem ouvisse isto, havia de dizer que o primo ou tem a cabeça muito dura ou o coração muito mau; não é por ter matado ao nça, já se lhe disse, – mas por me ter salvado a vida, que damos e havemos de dar sempre a nossa amizade e gratidão a esse digno moço.
– Ora gratidão!... outro qualquer teria feito o mesmo. Eu também quando a prima era mais pequena, não se lembra? não a livrei de ser atravessada pelos chifres de um boi bravo?... se eu não agarro e carrego-a no ombro, e pulo de um salto a cerca do curral, adeus, prima Paulina! já estava comendo terra há muitos anos. E nem por isso eu vi ninguém vir derreter-se em agradecimentos...
– Ora, primo, nem fale nisso. Eu era uma criancinha, não podia dar o devido apreço a esse imenso serviço que me fez o primo. Mas hoje eu o reconheço, e beijo-lhe as mãos agradecida, meu bom e valente primo. Mas se também lhe devo a vida, primo, não é isso razão para que eu deixe de mostrar-me também agradecida a quem acaba de prestar-mo um serviço não menos importante.
Quanto mais Paulina procurava encarecer as qualidades de Eduardo, e a nobre e valerosa façanha de que fora herói, tanto mais se exacerbava o ciumento Roberto, e mais procurava deprimir e abocanhar aquele que em sua imaginação já era um rival perigoso.
– Enfim, prima, – disse ele com fingida indiferença – faça lá e pense lá o que quiser. O que sei dizer é que se aquela maldita onça o tivesse alinhavado ali, bem pouco se perdia.
– Não fale assim, primo. Que agravo lhe fez esse moço para lhe desejar tanto mal?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Histórias e tradições da Província de Minas Gerais. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2142 . Acesso em: 24 fev. 2026.