Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Nas monarquias, o esplendor da majestade reflete sobre toda a nação, e a casa do monarca, o palácio do chefe do Estado, que atrai todas as vistas, que abre suas salas aos representantes das nações estrangeiras e a todos os cidadãos, deve ser grandioso como a idéia que representa.
Não me digam que o Brasil não tem dinheiro para levantar um palácio. Oh! se tem. O patronato acha sempre recursos financeiros para fazer presentes à custa da pátria amada, e só o dever e o patriotismo terão sempre de esbarrar diante do monstro chamado déficit.
O corpo legislativo não pode continuar a descuidar-se desta evidente necessidade. Além de tudo, o palácio está arruinado e a nação deve oferecer ao seu primeiro cidadão um edifício que, pelo menos, se adivinhe logo o que é, quando se olhar para ele.
Comecei falando mal do palácio, antes de descrevê-lo e de contar a sua história.
Vou emendar o meu erro.
Para um palácio, este envelheceu depressa, pois que apenas conta cento e dezoito anos de idade, tendo sido, portanto, construído quase dois séculos depois da fundação da cidade do Rio de Janeiro.
Não vos admireis de que o governo de Portugal deixasse cor rer tanto tempo antes de fazer edificar uma casa para os governadores desta capitania; porque também o Brasil é nação independente desde 1822, e ainda não mandou construir um palácio para o imperador.
Até ao fim do século XVII, os governadores da capitania do Rio de Janeiro não tiveram casa própria para sua residência, à exceção, sem dúvida, do primeiro, que foi Salvador Correia de Sá, que seguramente havia de levantar, como os seus companheiros colonizadores, o seu competente rancho no morro do Castelo. Os que depois se foram seguindo moraram onde puderam ou melhor lhes pareceu.
Em 1698, ordenou el-rei de Portugal que para residência dos governadores do Rio de Janeiro se comprasse a casa da Rua Direita, que depois ficou sendo chamada dos Contos, e que ainda hoje é assim por alguns dos nossos velhos denominada, porque para ela se passou a provedoria, e debaixo do seu teto se recolhiam os cabedais da coroa, importantes em avultados contos de réis.
Atualmente está o Correio Nacional estabelecido nessa casa, que bem merece conservar o nome dos Contos, pois que a respeito dela podem-se referir contos largos, e por sinal que até foi incendiada, quando em 1710 os franceses atacaram a cidade.
Oportunamente conversaremos sobre este caso.
Chegou, enfim, a época do palácio que estamos estudando. Lê-se sobre o seu pórtico principal a inscrição que recorda o ano em que foi construído, e o nome daquele a quem o devemos:
“Reinando El-Rei D. João V, nosso Senhor, sendo governador destas capitanias e da de Minas Gerais, Gomes Freire de Andrade, do seu conselho, Sargento-Mor de Batalha dos seus Exércitos. Ano de 1743.”
Se não conheceis bastante que homem era esse Gomes Freire de Andrade, depois conde de Bobadela, informai-vos das melhores obras antigas de que se ufana a capital do Brasil, e avaliareis as proporções desse ilustre varão pela altura dos monumentos e pela importância dos trabalhos que executou.
Se ainda não vos basta isso, ide ao paço da nossa municipalidade, e aí encontrareis o seu retrato conservado pela mais justa gratidão e permitido muito excepcionalmente por el-rei de Portugal, que reco nheceu os direitos que ele tinha a essa patriótica manifestação, de que até então somente os soberanos podiam ser objeto.
Quereis ainda conhecê-lo melhor? Apreciai-o na morte, depois de havê-lo admirado na vida. O conde de Bobadela achava-se com a saúde alterada, quando os espanhóis, em 1762, tomaram a colônia do Sacramento, e logo depois desbarataram uma esquadrilha que em socorro dos portugueses ele mandara. Estes desastres e a injusta murmuração com que o ofenderam os negociantes do Rio de Janeiro, que muito sofreram em seus interesses com a perda da colônia, o afrontaram de paixão tão grave que morreu em janeiro de 1763.
Realmente, já não há Bobadelas no nosso tempo! Nem com a lanterna de Diógenes seríamos capazes de encontrar um ministro que morresse de desgosto por causa de um desastre desses. A medicina pode descansar completamente: a moléstia de que morreu o conde de Bobadela já não aparece hoje em dia, nem mesmo com caráter esporádico.
Não esqueçamos, porém, a história do palácio.
Palácio? É preciso atender ao modo por que nos exprimimos. Palácio não. Casa dos governadores sim. Uma carta régia proibiu chamar palácio à casa da residência dos governadores. Palácio, pois, deveríamos chamá-la somente mais tarde, se não estivéssemos há mais de um século de distância daquela ordem de el-rei, e por isso livres de culpa e pena.
Um pouco de favor da virtude da paciência. Trata-se agora da descrição.
O palácio (perdi o medo à carta régia) passou por algumas modificações, que convém lembrar cronologicamente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.